Os próximos dias serão decisivos não apenas para a Gronelândia e para a Dinamarca, mas para a União Europeia, a NATO e para a Ucrânia. A Europa está ameaçada por uma guerra em duas frentes. A razão é conhecida: Trump fala abertamente da anexação da Gronelândia, justificando-a como uma necessidade de segurança para os Estados Unidos e para a própria Aliança Atlântica.
O pano de fundo é conhecido. O degelo do Árctico está a abrir rotas marítimas que encurtam distâncias entre a Ásia, a Europa e a costa leste dos EUA. Com isso, a Gronelândia ganha peso estratégico. Os Estados Unidos já lá estão, instalados na base de Pituffik, graças a um acordo com a Dinamarca, membro da NATO. E já tiveram mais de trinta bases e instalações que, entretanto, abandonaram. Em condições normais, bastaria um telefonema para as repor. Mas estamos em 2026.
Se Washington estivesse preocupado com ameaças russas ou chinesas, nada impediria o reforço de forças americanas na ilha com pleno consentimento dos aliados. As narrativas sobre uma Gronelândia “cercada” por navios chineses e russos não resistem à verificação: são presenças esporádicas e comparáveis às patrulhas navais que sempre existiram desde a Guerra Fria.
Também a explicação económica soa oca. A exploração de recursos naturais na Gronelândia é um projeto de décadas, tecnicamente complexo e politicamente instável. Trump fala de petróleo, minerais e terras raras com a mesma ligeireza com que pressionou empresas a investir na Venezuela, ao mesmo tempo que aconselhava cidadãos americanos a abandonar o país.
A motivação parece puramente MAGA, de ordem política e psicológica: ataque às democracias europeias, rejeição do direito internacional e uma visão do mundo baseada na força bruta. Trump declarou que o direito internacional “não significa nada” para si e retirou os EUA de 66 organizações multilaterais, sinalizando o abandono da ordem pós-1945. Conforme Chris Hayes e Vlad Vexler a fixação de Trump na Gronelândia é motivada pelo ego e mania das grandezas, mapas distorcidos em que a ilha com 60 mil pessoas parece gigante nos planisférios.
Fala-se de subornos diretos à população para promover um referendo: cem mil dólares por pessoa. Mesmo que verdade, o processo legal seria longo e incerto, exigindo aprovação na Gronelândia, na Dinamarca, no Congresso americano e nos estados dos EUA. A ideia de comprar a Gronelândia por 600 mil milhões de dólares seria mais um prego no caixão do défice americano.
Neste contexto, os cães de fila do regime – JD Vance e Marco Rubio – reuniram-se com delegações da Dinamarca e da Gronelândia. A ministra groenlandesa dos Negócios Estrangeiros, Vivian Motzfeldt, chegou às lágrimas numa entrevista, admitindo muita intimidação. Copenhaga e Nuuk reiteram que veem os EUA como aliados — mas que não cederão território. Peter Bison, chefe do estado-maior da Dinamarca, advertiu que os militares Dinamarqueses juraram defender o reino até à morte e assim farão. Na prática, a Europa começou a enviar forças para a região.

“Fala-se de subornos diretos à população para promover um referendo: cem mil dólares por pessoa. Mesmo que verdade, o processo legal seria longo e incerto, exigindo aprovação na Gronelândia, na Dinamarca, no Congresso americano e nos estados dos EUA.” Foto: Gronelândia / Unsplash
A tragicomédia da Gronelândia começou em 2018, na cimeira da NATO em Bruxelas, Trump explodiu contra os aliados europeus por não cumprirem a promessa de gastar 2% do PIB em defesa. A cena teve contornos teatrais: ameaças de abandono, murmúrios sobre o fim da Aliança, líderes em pânico. O então secretário-geral, o conciliador Stoltenberg, decidiu encurtar a reunião, retirando a palavra a 17 países ainda inscritos.
Foi então que o primeiro-ministro dinamarquês não quis ficar calado, invocando o argumento supremo das nações: sangue. Lembrou que a Dinamarca, país de cinco milhões de habitantes, perdera 45 soldados na guerra do Afeganistão. Nos países ricos, uma vida humana vale 10 milhões de dólares, conforme o valor de Vida Estatística (VVE) usado em políticas públicas, segurança rodoviária, planeamento militar e análises custo-benefício. 45 vidas corresponderiam a 450 milhões de dólares. Em 2018, o PIB dinamarquês rondava os 355 mil milhões de dólares. Traduzido em percentagem, despendera trocos; mas tivera mais mortos per capita do que a América. Mas Trump só discutia contas e o resultado foi um diálogo de surdos cujo desenlace agora se aproxima.
Não se sabe se Trump será TACO ou besta na Gronelândia. Até agora, o efeito prático foi reforçar a defesa europeia da Gronelândia, aquilo que Washington ao mesmo tempo teme e exige. O braço-de-ferro obriga a Europa a fazer o exercício que prometera evitar. A tragicomédia de Trump— ameaças, alarmes, insensatez – passou agora para um palco gelado em que legitima a linguagem de Putin, oferece precedentes à China no caso de Taiwan e enfraquece a NATO a partir de dentro.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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