
Não sei quantos habitantes terá, mas presumo que não chega aos duzentos. No verão são mais, vindos sobretudo de França e da Suíça, e partem no fim de agosto, quando a luz e o calor esmorecem e tudo se conjuga numa (in)explicável nostalgia. Alguns ficaram e tiveram energia para criar uma associação cultural e desportiva, construir uma piscina e courts de ténis, bungalows, um lar de terceira idade, dinamizar atividades para os mais jovens.
Quando se chega, no verão, ao largo da igreja, ouvem-se as vozes animadas dos que se refrescam na piscina e descansam no relvado que a circunda. Dantes, viam-se os campos onde circulavam vacas, os carvalhos por eles espalhados, e a Guarda lá longe, no seu lugar altaneiro. Agora, a cerca construída para preservar a privacidade dos veraneantes oculta o deambular calmo do gado.
Tornei-me sócia quando conheci o trabalho incansável e confiante das pessoas que dinamizam a associação, e não deixei de o ser, mesmo indo lá uma ou duas vezes por ano, pouco usufruindo das possibilidades de lazer que aí existem. Mas dá gosto apoiar quem quer fazer algo diferente e não se resigna à desertificação e ao abandono. Mesmo que já não haja a excitação das crianças ansiosas por mergulhar, ou a viagem de comboio, parado há dois anos devido às obras da linha da Beira Alta, ou o percurso de bicicleta ou a pé entre campos, ou a presença das cegonhas que deixaram o ninho da torre da igreja, há aquele momento na relva, olhando a capital de distrito, ao longe, os telhados da aldeia e o bocadinho de campo que a cerca recente deixa ver. E há as vozes animadas dos que desfrutam do trabalho dos que lá ficaram e acreditaram. E há também o silêncio quando agosto chega ao fim.
Quantas associações como esta haverá pelo país fora, fazendo de tudo para que a sua aldeia, de onde todos partem, seja um bom lugar para os que lá vivem e permaneça na memória e no coração dos que a visitam. Quando fecham escolas e hospitais, agências bancárias, correios, e as autoestradas, respondendo à nossa ânsia de celeridade, nos levam diretos ao destino pretendido, é importante lembrar esses lugares, topónimos que constam do mapa, mas que são ignorados. Pagar anualmente uma quota não me chega.

Aldeia de S. Sebastião: regresso a Vilar Formoso. © Dulce Vilas Boas
Dulce Vilas Boas é professora em Gondomar









