
Brincar a trabalhar com o fogo. Foto: Direitos reservados
Tinha eu 9 anos quando me deparei com um incêndio em casa, na sequência do qual vi o meu pai coberto por chamas. Nesse dia só a minha irmã mais velha tinha ido às aulas de pintura; eu, por conta das irreverências e dos comportamentos desadequados na escola de artes, tinha ficado em casa “de castigo”; jamais poderia prever o tamanho de tal castigo. Anos antes já tinha eu vivido uma outra situação de incêndio – quando a pirotecnia pouco moderna da época, num festejo qualquer, foi empurrada pelo vento para a varanda da minha casa.
Por isso, aos 10 anos já quase que coleccionava traumas ligados ao fogo. Desenvolvi um pânico, no mínimo sufocante. Quando estava numa multidão, de modo automático, a minha mente vagueava obcecada em estratégias de fuga caso um incêndio estourasse; quando andava de carro, não tirava os olhos do capô a ver se de alguma maneira um incêndio estava prestes a deflagrar; em lojas ou supermercados, idem… e podia escrever-vos aqui vinte páginas de divagações por caminhos do pânico; um simples “cheira a gás!” era para mim o fim do mundo sensorial, sensação de desmaio, coração disparado, mãos trémulas e abundantemente suadas, etc. etc. etc.
Perguntam-me vezes sem conta por que escolhi trabalhar com fogo, profissão tão rara… e eu posso responder que foi para me livrar do pânico, das ideias diabólicas ligadas àquela imagem do incêndio em casa. Poderia aqui descrever pormenorizadamente a tragédia, mas a história não ganharia nada com isso e o final foi feliz; por isso, literariamente, pouco ou nenhum interesse tem. Imagine-se apenas uma casa a arder com uma família no seu interior, um pai a ser consumido pelas chamas e sem desistir de as combater para salvar a família, uma irmã recém-nascida no berço rapidamente resgatada para o meu colo e levada para a rua… e o resto, não me lembro.
Estava eu a dizer que quando me perguntam por que escolhi trabalhar com o fogo digo que foi para me livrar do desconforto do pânico, da fraca qualidade de vida que os traumas nos provocam. Esse elemento-demónio que me consumia os pensamentos dia e noite tinha de se tornar meu amigo, já diz o ditado: “Se não podes com o inimigo, junta-te a ele.” E isto ninguém me ensinou, naquela altura as filosofias exóticas ainda não pairavam por aí nas faces do ocidente; isto, eu sabia-o. Jamais teria conseguido continuar a viver no desgaste de temer o fogo e a estratégia foi precisamente aliar-me a ele, torná-lo meu amigo, aprender a relacionar-me com ele.
Os medos servem para nos aproximar do que pode ser o nosso melhor caminho, apesar da tentação ser sempre afastarmo-nos o máximo possível. Aprendi a respeitar o fogo, a agradecer-lhe por não ter levado o pai quando podia tê-lo feito, a não ter atingido o berço da minha irmã; o fogo transformou-se no meu alimento, na ferramenta que me permitiu educar e sustentar abundantemente a minha filha, com tempo de qualidade. O fogo ensinou-me que quando perdemos o medo, os piores inimigos reconhecem-nos como amigos. A estratégia é que o medo dê lugar ao respeito, ao limite, à confiança. Hoje, ao invés de o temer, respeito-o, valorizo-o, abraço-o, dançamos juntos.
Aos 16 anos, precisamente 7 depois do incêndio de casa, disse ao meu pai que queria aprender a manipular o fogo e trabalhar com isso. Fomos juntos comprar os instrumentos, treinei no quintal sob a sua vigia e, a partir daí, nunca mais parei de sorrir com o fogo.
Principalmente, o fogo ensinou-me a não temer nada. Respeito tudo, mas não temo nada.
Ana Sofia Brito é performer e artista de rua por opção, embora também mantenha a arte de palco; frequentou o Chapitô e estudou teatro físico na Moveo, em Barcelona.







