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Pedro Walpole em Lisboa, durante a Oceânia Talanoa: “Os povos indígenas sabem realmente como cuidar da terra.” Foto © António Marujo/7MARGENS

Peter Walpole, padre, da Ecojesuit

“As questões do clima não são só económicas, mas também morais”

| 17/12/2023

Pedro Walpole em Lisboa, durante a Oceânia Talanoa: “Os povos indígenas sabem realmente como cuidar da terra.” Foto © António Marujo/7MARGENS

Pedro Walpole em Lisboa, durante a Oceânia Talanoa: “Os povos indígenas sabem realmente como cuidar da terra.” Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Nascido na Irlanda, com cidadania filipina, onde vive há 40 anos, Pedro Walpole é padre jesuíta, coordena a rede RAOEN (River Above Asia Oceania Eclesial Network – Rio Acima, rede Eclesial Ásia Oceânia), é director de pesquisa do Instituto de Ciência Ambiental para a Mudança Social e líder da Ecojesuit. 

Em Mindanau (sul das Filipinas), onde reside, tem trabalhado sobretudo as questões da água através da rede RAOEN, sobre a qual falou na Oceânia Talanoa, 

iniciativa de grupos católicos da região Ásia-Pacífico, que decorreu em Lisboa em Junho de 2022, paralela à Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos.

Depois de ter participado nessa iniciativa, o padre Walpole faz para o 7MARGENS um ponto de situação sobre a emergência climática e o papel dos cristãos e da Igreja Católica, e refere também os temas que estiveram em debate na COP28, na qual participou, e que terminou na quarta-feira, 13. 

 

7M – Já afirmou que todas as comunidades e todas as pessoas que vivem em comunidade têm uma fé. É a mesma perspectiva com que o Papa Francisco fala sobre a ecologia integral?

Sim, na forma como o Papa Francisco fala da comunidade como um todo e não uma parte, que temos de lidar com cada pessoa como uma pessoa integral e uma pessoa inteira, e não olhar apenas para uma dimensão. Tem sido esta ligação e a ligação à terra a minha luta durante muitos anos, tentando dizer que os povos indígenas com os quais vivo, nas Filipinas, sabem realmente como cuidar da terra.  Esses povos receberam as suas terras dos seus antepassados e os seus antepassados receberam a sua terra do criador. Como se pode chamar estas pessoas de pagãs? 

Estamos a rever todos estes conceitos dentro da Igreja. No mundo de hoje e na Igreja, o único testemunho respeitado vem de pessoas comuns. Não têm agenda escondida ou proposta de negócio. Estão lá a trabalhar na terra. Podem passar a integridade da mensagem, do que é a vida e do espírito humano. 

É nesse sentido que precisamos que os jovens também expressem o seu espírito. O Papa Francisco faz isto muito bem. As pessoas falam da Laudato Si’, mas o documento que para mim é mais bonito é o Querida Amazónia. É um sonho. E de alguma forma Francisco entende que os sonhos são coisas muito sérias para os povos indígenas. 

7M – E de que sonhos falamos?

Há um espírito humano, há uma fé que está a surgir. Obviamente, as pessoas que vivem na terra são humildes e rezam e isto é tão bonito… São eles que nos ensinam a nós, padres, a rezar quando vemos o que carregam, os fardos que têm. A Igreja como instituição não consegue fazer nada, mas as pedras vivas da Igreja podem ensinar-nos o que é a relação.

Precisamos acima de tudo de ligar-nos às comunidades. Temos de ouvir as pessoas, os vizinhos. E nesse processo encontraremos Deus e ouvimos a criação e todos os seres sencientes. 

 

Clima. manifestação. Nova Iorque.

Jovens em manifestação pelo clima em Nova Iorque, EUA, em setembro de 2019: “Seria muito importante que a Igreja tivesse escutasse os jovens, porque eles têm muito a dizer.” Foto © Marcelo Schneider/WCC

 

7M – Referiu a necessidade de os jovens se expressarem. Aqui em Portugal não vemos muitos jovens cristãos nas manifestações pelo clima.  O que é importante que a Igreja faça com os jovens?

Não reflectimos o suficiente com a juventude. Por que não vemos os jovens? Porque não ouvimos e não discernimos com eles. Tal como não estamos, na sociedade, a permitir que os jovens reflictam sobre quem são. Ensinamos doutrina antes de ensinar o espírito. Uma criança, um jovem, tem de descobrir a esperança no mundo e, nesse processo, chegar à fé.  Não virá simplesmente através da fé pelo catecismo, no mundo de hoje. Seria muito importante que a Igreja tivesse uma base de escuta, porque os jovens têm muito a dizer, à sua maneira. E depois discernir o que fazer. 

Também temos de fazer tudo para evitar a guerra. Há pelo menos 35 guerras no mundo, das quais geralmente culpamos os outros. A guerra afecta toda a humanidade. E da mesma forma as alterações climáticas estão a afectar toda a gente. 

Mas em 2021, duzentos mil agricultores suicidaram-se, foram mais pessoas a morrer por suicídio do que por causa da guerra. O grupo seguinte nessa lista são os jovens. Não estamos a chegar aos jovens na sociedade e na Igreja, mas devemos fazê-lo, porque precisamos de esperança. Estamos a abrir uma nova caixa de pandora de problemas psicológicos e profundamente humanos, com o que está a acontecer neste momento, por isso temos de fazer tudo para descobrir, com os jovens, como podem olhar para a realidade e saber que ainda há possibilidades. Não é optimismo saber que é possível um bom futuro. A esperança e a verdade, é sobre isso que temos de falar. E depois precisamos da caridade. Se vires alguém em necessidade, não o julgues, dá-lhe alguma coisa.

7M – E não precisamos também de intervir ao nível político? Vemos muitos cristãos e outras pessoas empenhadas em ajudar os pobres, a lutar contra as alterações climáticas, etc. Mas depois, a nível político, acontece muitas vezes o contrário do que é necessário.

Não me lembro qual dos papas disse que é uma carreira sagrada ser político e servir o povo. Estamos muito longe dessa ideia.

7M – E o Papa Francisco disse isso em 2013 aos jovens das escolas jesuítas…

Sim, isso é o mais importante. Pode servir-se tão bem as pessoas e há tantas pessoas boas na política… Espero que a polarização se desvaneça de alguma forma e que possamos ter, novamente, uma política de serviço. Precisamos mesmo de uma política que cumpra.

7M – Como surgiu a Rede RAOEN?

Algumas das pessoas que conheci nos anos 1990 [na Cimeira do Clima] no Rio de Janeiro, no Brasil, e com as quais continuei em ligação, fizeram parte do Sínodo amazónico e do processo amazónico. Como disse o Papa Francisco, a realidade da [encíclica] Laudato Si’ é o sínodo amazónico. E vários de nós, numa reunião nos Estados Unidos há alguns anos, dissemos “Temos de fazer alguma coisa [sobre a] Oceânia/Ásia”.

Toda a água desta região vem do Pacífico, que é como se fosse um rio. Temos estas secas enormes durante o El Niño em alguns lugares. Noutras alturas, durante a La Niña, temos secas noutros lugares, e muita chuva. Biologicamente ou ecologicamente, isto é o que um bioma é. A Amazónia é um bioma, cria um clima. O Pacífico é outro. 

 

Pedro Walpole: “Continuam a surgir vozes que apelam a que haja uma abordagem dos problemas climáticos baseada nos direitos humanos.” Foto © António Marujo/7MARGENS.

Pedro Walpole: “Continuam a surgir vozes que apelam a que haja uma abordagem dos problemas climáticos baseada nos direitos humanos.” Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

7M – Como viu a Conferência dos Oceanos, em Lisboa?

O encontro foi de grande valor na medida em que deu importância global aos graves danos causados aos oceanos, às pessoas, à biodiversidade e, claro, ao clima. Dá enfoque ao Objectivo de Desenvolvimento Sustentável 14 [Proteger a vida marinha], 

ligando-se a todos os outros, e à crise global primária do clima. Foi uma reunião de ciência e negócios, mas os representantes dos governos tiveram declarações geralmente fracas. Exemplos: O compromisso da Austrália de 1,2 mil milhões para com a Grande Barreira de Corais não aborda a adsorção de carbono/calor dos oceanos; enquanto três países proibiram a exploração mineira em águas profundas, continuam com a exploração mineira à superfície e costeira, enquanto três outros Estados do Grande Oceano dizem que têm de explorar minas porque os pagamentos de perdas e danos previstos na COP21 nunca se materializaram.

É essencial envolver o Ocidente no estabelecimento de uma maior acção agora. Estas são algumas das razões pelas quais as vozes do povo devem ser ouvidas directamente para dar testemunho da urgência do sofrimento e apelar a uma maior urgência e transparência. 

E como sentiu a COP28, na qual também participou?

Na COP28, nenhuma delegação governamental negava publicamente as alterações climáticas e a urgência do desafio, independentemente das suas preferências políticas internas. Há um reconhecimento amplo e profundo do que o IPCC está a dizer em termos da crise imediata da mudança radical do clima e da eliminação progressiva dos combustíveis fósseis até 2030/50. A ciência é reconhecida e a urgência é estabelecida nos debates da COP.

Os elementos-chave das negociações incluíram elementos como: os países desenvolvidos devem pagar o Fundo de Perdas e Danos [LDF, da sigla em inglês], que deve ser inicialmente gerido pelo Banco Mundial; apelou-se a um maior acesso por parte das comunidades locais e que este dinheiro seja gerido sob a forma de subvenção e não de empréstimo. O LDF representa apenas 0,4% do que é efetivamente necessário e a transferência de energia não está adequadamente definida; os elementos de uma tecnologia partilhada e da eliminação progressiva dos combustíveis fósseis são intensamente debatidos. Os países do Sul sublinham que as perdas e os danos são contínuos e que a acção não está a ser suficientemente rápida.

Continuam a surgir vozes que apelam a que haja uma abordagem baseada nos direitos humanos e a que os sistemas alimentares, a agricultura e as perdas não económicas (paisagem cultural) sejam valorizados e incorporados. As questões não são simplesmente económicas, mas também morais. 

 

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