Já repararam que o contraditório se tornou, para além de princípio democrático, numa espécie de adorno da retórica? Invocá-lo representa hoje algum prestígio intelectual — eu sou plural, eu sou justo, eu sou sofisticado, eu digo contraditório -. Mas será que quem o refere compreende verdadeiramente o que significa?
A moda de dizer contraditório revela, paradoxalmente, uma certa superficialidade, é como vestir uma t-shirt com a palavra liberdade sem se perguntar o que ela implica.
E o que é que implica o contraditório? Na sua essência exige escuta, exige tempo, exige disposição para rever posições. Não é apenas o direito de falar, é o dever de (re)considerar.
Falar de contraditório sem referir José Sócrates seria perder uma das melhores oportunidades para esclarecer dúvidas, já que o ex-primeiro-ministro sempre que abre a boca, o contraditório sai em jorros.
“É tudo falso!”, “Não há provas!”, “Sou vítima de uma perseguição política!”, frases que, se fossem ditas com menos convicção, pareceriam saídas de um guião de novela, mas ditas por Sócrates, cada exclamação vem com a gravidade de quem acredita que o universo está a conspirar contra ele, e que o universo tem sede em Lisboa e veste toga. José, este prestigiado intelectual, veio para reinventar o contraditório: embalou-o em papel celofane retórico e começou a vendê-lo como se fosse um produto gourmet da democracia.
Hoje em dia, dizer “eu exijo o contraditório” chega a ser como usar óculos sem graduação: não serve para ver melhor, mas dá um ar inteligente. E Sócrates sabe disso. E usa o contraditório como quem usa um cachecol em pleno verão, não porque esteja frio, mas porque dá estilo. É o contraditório como statement, como performance, como selfie moral. E o mais fascinante? Há quem compre. Há quem veja nesta sua indignação uma prova de inocência, porque quem grita mais alto é quem está certo…ou será que não?
Então e se falhar? Se o contraditório não funcionar? Saca-se do plano B: acusa-se a justiça por ser parcial, os jornalistas por serem manipulados e manipuladores e os portugueses porque, bem vistas as “evidências”, nunca o mereceram.
O contraditório de Sócrates não é para todos. É um contraditório seletivo, com notas de superioridade, arrogância e um ligeiro travo a ressentimento. Não é o contraditório da escuta, é o da interrupção; não é o que pondera, é o que acusa. É um muitíssimo pequenino contraditório, na versão ego trip, onde o único lado que merece ser ouvido é o seu.
E assim seguimos, num país onde o contraditório virou tendência, mas onde raramente é praticado com honestidade, porque, sejamos francos, contraditório que não admite a possibilidade de estar errado, não é contraditório, é um monólogo com efeitos especiais.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










