Inquisição

Criptojudaísmo, visitações, denunciantes e denunciados

| 28 Mai 21

O criptojudaísmo foi um dos fenómenos que a Inquisição criou, na tentativa de muitos judeus tentarem escapar aos seus tentáculos. Histórias de denunciantes, denunciados e visitações, quando se assinalam os 200 anos de extinção da Inquisição, ocorrida a 5 de Abril de 1821.

 

Samuel Schwarz

Samuel Schwarz publicou várias obras sobre o criptojudaísmo em Portugal.

O judeu Samuel Schwarz nasceu na Polónia em 1880. Era engenheiro de minas e, por razões profissionais, esteve em Espanha e depois em Portugal em 1915. Ficou surpreendido por haver criptojudaísmo em Portugal. Investigou em vários locais durante 40 anos, adquirindo mais tarde a nacionalidade portuguesa. Faleceu em Lisboa em 1953, publicando várias obras acerca do criptojudaísmo e dos judeus de Belmonte.

 

“Basta que lhe diga que é judeu…”

Tudo começou quando em 1917, em Belmonte, ao fazer compras para o grupo que nas imediações explorava uma mina, o comerciante, para agarrar o freguês, lhe disse para não comprar nada ao Baltazar Pereira de Sousa porque basta que lhe diga que é judeu. (1) O engenheiro pensou que tal comentário se coadunava bem com os costumes no seu país e foi logo visitar “o outro”. Foi muito difícil entrar nessa comunidade.

Primeiro, porque Baltazar casara com uma cristã-velha e isso não caíra bem na comunidade sefardita. Mas apresentou-o à comunidade, que olhou desconfiada o estrangeiro. Schwarz falou então com as mulheres que presidiam às cerimónias e estas estranharam que ele se identificasse naturalmente como judeu e que houvesse uma língua dos judeus. A hezan (sacerdotiza) disse-lhe para rezar na tal língua. Samuel Schwartz entoou Shemah Israel e notou que as mulheres tapavam os olhos com as mãos ao pronunciar Adonai. (1) Esta palavra foi a fórmula mágica de um mútuo reconhecimento.

 

O uso do azeite
judiaria guarda

Judiaria da Guarda: o interior, de Trás-os-Montes à Beira Baixa, era uma zona de muitos criptojudeus.

 

“…Meu Deus, mostrai-me qual é a pequenez da terra, a grandeza do céu, a brevidade do tempo e a duração da eternidade. Fazei que eu me prepare para a morte; que tema o vosso juízo, que me livre do inferno e consiga a bem-aventurança.” (1) (apêndice II: orações dos cristãos-novos: fim da oração nº44)

Então eles informaram-no de outros locais onde se praticava secretamente: Covilhã, Monsanto, Penamacor, Fundão, Castelo Branco, Idanha, Bragança, Arcozelo, ou seja: Trás-os-Montes e Beira interior. Schwarz recolheu as orações sefarditas, entoadas em surdina para não serem ouvidas pelos vizinhos, os ritos e costumes judaicos neste canto da Península Ibérica e escreveu sete obras sobre o assunto.

Alguns exemplos curiosos: o uso do azeite, agora tão disseminado, foi introduzido pelos judeus na península; os não judeus usavam gorduras animais; na morte, pobres ou ricos eram amortalhados num sudário branco (1). Facto há poucos anos observado numa aldeia do Douro: uma senhora cuidou de uma tia minha. Quando faleceu e antes de ser encerrada no caixão, a cuidadora envolveu o corpo num lençol de linho, o que demonstra que hábitos da cultura sefardita passaram para o resto dos habitantes e cristãos-velhos.

D. Dinis foi um dos reis que, na Idade Média, protegeu muito os judeus. A Rainha Santa Isabel foi vista pelos judeus sefarditas como a nova Esther de Portugal (1). Perdura, na verdade, um culto popular, em toda a região de Coimbra, pela Rainha Santa; o culto do Santo Espírito, nas Beiras e nos Açores mantém-se fiel às origens do culto judaico a ruah codesch, Espírito vivificador de Deus (1). Embora haja também no catolicismo o culto ao Espírito Santo, a verdade é que nos Açores, por exemplo, o culto ao Santo Espírito tem um lugar privilegiado, havendo capelas dedicadas ao “Santo Espírito”, com cerimoniais e ritualismos próprios.

 

Fugir para acabar presos
Paço dos Estaus

Palácio dos Estaus: cerca de vinte mil terão sido ali encerrados e constrangidos pela fome e pela violência.

 

“A hus pelas pernas e braços; e a outros pelos cabelos e pelas barbas arrastando por força os levarom tee dentro as ygrejas…”
(Samuel Usque, Consolaçam às Tribulações de Israel)

A expulsão dos Judeus em Espanha teve como consequência a entrada em Portugal, em 1492, de cerca de duzentos mil judeus (2); Alexandre Herculano avalia em oitocentos mil (1). O soberano, D. João II, embora temendo a reacção da população, sabe o tesouro, o poder (que seria de) dotar o reino de gente com capitais e ofícios úteis (2).

Sabemos depois o que se seguiu: o decreto de D. Manuel de 1496 que não era verdadeiramente para expulsar os judeus, mas convertê-los à força. Sabendo depois que os judeus se preparavam para partir, mandou arrancar-lhes os filhos até à idade dos 14 anos – e depois até aos 20 anos – a fim de os baptizar à força e confiá-los a famílias cristãs. (1)

Diante desta situação, muitas famílias judias não tiveram outro remédio senão baptizar-se – embora jurassem ser fiéis à sua religião; outros, recusando abjurar, e de acordo com o decreto, dirigiram-se a Lisboa para embarcar – cerca de vinte mil – (mas) foram encerrados nos Estaus e aí constrangidos pela fome, pela violência, suicidaram-se (1). Os restantes foram arrastados para o baptismo forçado. Houve apenas sete ou oito dos quais a história não conservou os nomes… que não aceitaram o baptismo (1). Só esses foram expulsos de Portugal. Depois muitos seguiram-nos. Este êxodo de cristãos-novos começou sobretudo após o massacre de cerca de quatro mil judeus a 19 de Abril de 1506, em Lisboa (1). O rei não conseguiu castigar os instigadores – os frades que escaparam – mas castigou os que praticaram tais actos.

“Encomendo-me a Adonay /  que elle é minha alegria, / que elle me há de guardar e salvar… /  de fogos ardentes /  e de boca de má gente
(excertos da oração nº 17 – (1))

No reinado de D. João III, surge a Inquisição em Portugal. No início do século XVII, houve uma redução da população: fome, epidemias, recrutamento forçado – estávamos no domínio filipino – e há outra razão: muitas são as localidades que perdem pessoas temendo a Inquisição. “Quantos subditos perdeu o Reyno… quanta foi a deslocação das províncias de Trás-os-Montes e da Beyra, adonde tantas fábricas de seda, panos, baetas estamenhas e sólas corrererão a mesma fortuna” (tiveram a mesma sorte) (2) – (in Ribeiro Sanches). A corrupção, as baixas remunerações, o desemprego, o poder em mãos inadequadas impediam o funcionamento da justiça. Não se cumpriam leis, regimentos e ordenações régias. (2)

 

Visitações
Auto de fé Lisboa

“Morrer negativo”, ou seja, imolado no fogo, era o destino de muitos dos condenados.

A palavra “visitações” tem vários significados; em geral traduz a presença de membros da hierarquia da Igreja em visita a vilas do interior e tem como objectivo apelar ao arrependimento dos pecados, tendo em vista a misericórdia de Deus. Mas no tempo da Inquisição era uma espécie de operação policial (que servia para) avaliar desvios, heresias… divulgar normas de conduta moral e religiosa da Igreja; revelar/reforçar o poder da Inquisição; estabelecer/motivar uma rede de informadores que garantissem o conhecimento de ditos e comportamentos desviantes (2). Tudo isto tinha como objectivo praticar o bem, garantindo o zelo religioso a troco de indulgências e outras graças… (2) A crise económica e social no reino favorecia esta tensão na sociedade.

 

Os cristãos-novos têm no sangue o pecado… (Sermão do inquisidor no auto-de-fé de 1637)

O pecado seria a culpa dos judeus pela crucificação de Jesus: assim a Igreja doutrinava o povo através da ignorância, instigando o ódio ao outro. Em vilas e aldeias onde todos se conhecem, era facílimo espiar, ouvir, ver, parecer, ouvir dizer que… Entre vizinhos, amigos e inimigos.

Os visitadores informavam detalhadamente os rituais e festas judaicas e editais nas igrejas informavam acerca desta matéria. Nestas situações, muitas vezes a inveja, mal-entendidos, conflitos entre vizinhos e conhecidos eram um convite à delação.

Muitos cristãos-novos continuavam a abraçar a sua antiga fé e exteriormente frequentavam a igreja. Castelo de Vide, pequena localidade onde viveram muitos judeus fugidos de Castela, tem uma infinidade de igrejas; pensa-se que muitas foram mandadas edificar por cristãos-novos para abafar suspeitas.

O clima é de uma guerra surda, pertinaz, terrível e intolerante. Até o “cheiro” é denunciado: Domingos Álvares, médico do Fundão, testemunha que durante a Quaresma presumja por ver… nos dias defesos… lançar agoa de carne das cazas dos sobreditos pera fora e muitas vezes lhe cheirava (2). Servas, escravas, criadas denunciam frequentemente hábitos dos donos e patrões: aos domingos varria, lavava a louça, peneirava e fazia todo o serviço de casa… ou fiam a roca… ou torcendo linhas e trabalhando (2).

Na família, os pais ensinavam aos filhos como se salvarem se fossem presos pela Inquisição: … o melhor modo para sahir, com vida, da Inquisição, que he confessar logo aos primeiros interrogatórios da Meza que era judeu; que não declare (nomes de) aquelas pessoas que sahiram penitenciadas porque se commeter tal falta, que he levalas a morrer… que deve fallar (acerca das testemunhas) em todas aquellas que conheceu ou ouviu somente de nome para sahir com vida ao menos daquella prizão; de outro modo será trattado com quatro cordas (referência a uma das formas da tortura) ou sahirá a morrer negativo (imolado no fogo). (2) (in Ribeiro Sanches).

 

Um escuro labirinto
antigo Paço Episcopal Guarda

Antigo paço episcopal da Guarda: de nada serviu a Luís do Porto ir ter com o prelado para casar com uma “cristã-nova”…

 

“Ó meu imenso Senhor / pois que és tão piedoso / … olha o meu desamparo e soledade… / e com teu amparo me amparares… / …e da inquisição me livrares  /  com brevidade…” (1) – (excertos da oração nº 25)

Luís do Porto, médico em Idanha-a-Nova, em 1611, casou com a cristã-nova Margarida Fernandes. Quando vê o marido benzer-se e rezar como católico comenta … que aquilo não era bõ nem se guardava entre a gente da naçam (2). O marido responde-lhe que ela está enganada e a mulher recém-casada confia no marido e diz-lhe para a ensinar. Luís, cheio de escrúpulos de consciência vai ao bispo da Guarda, conta-lhe o caso da mulher com quem quer casar cristanamente. (2)

O depoimento de Luís do Porto é dito sob juramento de segredo que todos prometem, bispo e padre e o escrivão (2). Mas Margarida Fernandes foi também obrigada a depor e encorajados (marido e mulher) pelo segredo (2) vão falando deste ou daquele. Ao todo, denunciaram 40 cristãos-novos do Fundão, 5 de Covilhã e 32 de Idanha. Os denunciados chamam-no (ao Luís do Porto) de Encristianado e Inquizidor e é ameaçado: “… se a elles os prendem que também lá ei-de ir e ei de padecer ainda que seja falçamente…” (2). Sobre Margarida Fernandes as dúvidas não se desvaneceram (2) na cabeça dos inquisidores. Fala depois do marido e chora, como regista o escrivão. Conta que Catarina Nunes, em casa dela, depois de discutir com Luís do Porto, ameaçara: “Valha-me deos com o uosso marido a todos chama quãis, non seja tam desbocado a fallar que se elle lá nos poem tambem elle la adir”. (2).

Mas os inquisidores continuam a achar que os depoimentos de Margarida Fernandes têm falhas, desconfiam que ela não diz tudo. Acham que as suas lágrimas são provocadas pelo medo de denunciar pessoas. Desconfiados, são insaciáveis, esburacam a mente do denunciante ou denunciado. Os denunciados pelo casal são presos e acusam por sua vez os denunciadores. Neste caso, denunciam Margarida Fernandes, dizendo que praticara com eles – denunciados e agora presos – rituais judaicos.  A mulher de Luís do Porto é agora ré do Tribunal do S.to Ofício. É chamada a Lisboa para …ser perguntada e examinada sobre as suas diminuições (2).  Avolumam-se de tal modo as acusações que posteriormente não só Margarida Fernandes é cristã-nova como também o marido e outros: Contra Margarida Fernandes, cristã-nova, mulher do licenciado Luís do Porto, cristão-novo… porque não diz de sua mãe, nem da sua irmã Leonarda, nem do seu marido Luís do Porto, com as quais está delata. (2)

Muitos outros casos são descritos, com uma burocracia e pormenores insustentáveis. Há um extensíssimo rol de processos minuciosamente descritos e inclinados sempre para o castigo, a extorsão, o assassinato.

Um escuro labirinto, a Inquisição; intransponível, fechado. Sem saída.  

 

Notas
(1) Schwarz, Samuel – Os Cristãos-Novos em Portugal no século XX, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, Universidade Nova de Lisboa.
(2) Garcia, Maria Antonieta – “Denúncias em nome da Fé” – perseguição aos Judeus no distrito da Guarda de 1607 a 1625. “Caderno de Culpas do Bispado da Guarda e seu Distrito e das Visitações” – Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, Univ. Nova de Lisboa.

 

A palavra que falta explicitar no “cuidar da criação”

A palavra que falta explicitar no “cuidar da criação” novidade

No dia 1 de setembro começou o Tempo da Criação para diversas Igrejas Cristãs. Nesse dia, o Papa Francisco, o Patriarca Bartolomeu e o Arcebispo de Canterbury Justin assinaram uma “Mensagem Conjunta para a Protecção da Criação” (não existe – ainda – tradução em português). Talvez tenha passado despercebida, mas vale a pena ler.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

‘Caminho Minhoto Ribeiro’ reconhecido pelos arcebispos de Braga e Santiago

Em ano Xacobeo

‘Caminho Minhoto Ribeiro’ reconhecido pelos arcebispos de Braga e Santiago novidade

A cidade de Braga foi palco, nesta sexta-feira, 17, da declaração oficial de reconhecimento do Caminho Minhoto Ribeiro por parte dos arcebispos de Braga e de Santiago de Compostela, depois de esse processo ter decorrido já por parte das autarquias do lado português e galego. Na conferência que decorreu em Braga, cidade que é ponto de partida dos dois itinerários que compõem este Caminho, foi igualmente feita a apresentação da investigação documental que fundamenta este novo percurso, a cargo do professor e historiador galego Cástor Pérez Casal.

Só a capacidade de nos maravilharmos sustenta a resistência à crueldade e ao horror

Edgar Morin em entrevista

Só a capacidade de nos maravilharmos sustenta a resistência à crueldade e ao horror novidade

“Se formos capazes de nos maravilhar, extraímos forças para nos revoltarmos contra essas crueldades, esses horrores. Não podemos perder a capacidade de maravilhamento e encantamento” se queremos lutar contra a crise, contra as crises, afirmou Edgar Morin à Rádio Vaticano em entrevista conduzida pela jornalista Hélène Destombes e citada ontem, dia 18 de setembro, pela agência de notícias ZENIT

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This