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Ensaio

Deus, flauta da nossa obscuridade?

| 04/08/2024

«Deus está vivo ou Deus está morto. E não vos extravieis pelo que de superficial, mecânico, sugeridor de um certo cheiro a cera e a santos óleos podereis descobrir nesta questão. Porque para lá de todos esses aspectos anedóticos e ridículos há um problema de radicalidade, de justificação basilar do próprio destino do homem.»[1]

“A questão de Deus é uma questão filosófica originária, tão antiga quanto o próprio humano pensamento.” Foto © João Paulo Costa

Esta afirmação lapidar do escritor-filósofo Virgílio Ferreira coloca-nos diante da questão de Deus, não diante dos seus aspectos anedóticos de uma religiosidade folclórica, mas perante a possibilidade de Deus que interroga radicalmente o humano e a sua destinação última. É uma questão filosófica, talvez a questão das questões, bem para lá do seu ocultamento que o quotidiano dramático encerra.

Regressei ultimamente aos escritos filosóficos de Vergílio Ferreira, mais conhecido como romancista do que como filósofo, mas cuja obra e pensamento ensaístico julgamos ser de grande relevo, embora pouco conhecido e estudado actualmente. Trata-se de um pensador que absorveu no seu próprio pensamento muita da cultura filosófica francesa, em particular o pensamento existencial, percorrendo, a seu modo, uma via original, sendo seguramente em Portugal uma das grandes vozes desse movimento filosófico, seja por via do romance, seja por via do ensaio, sem se identificar em absoluto com esta corrente filosófica. Tenho-me debruçado mais em particular sobre a sua obra Espaço do invisível, que conta com cinco volumes, todos eles fora de comércio, e que valeria bem a pena reabilitar, sobretudo no âmbito dos estudos filosóficos e teológicos.

A questão de Deus é uma questão filosófica originária, tão antiga quanto o próprio humano pensamento. Desde a antiguidade grega até aos nossos dias que ela se coloca em si mesma e na relação do divino com os humanos e com o próprio mundo. «Se Deus está vivo, escreve Virgílio Ferreira, há que determinar o tipo de relações com esse Outro-Absoluto e ver se elas se caracterizam pela tensão e angústia, tingidas de luteranismo, como em Kierkegaard, se elas se tonalizam por uma certa pacificação e confiança cristão como em Marcel».[2] Vergílio Ferreira viveu sempre uma relação tensa e paradoxal com a religião cristã, bem patente não só nas suas reflexões, mas também em romances como Aparição e Manhã Submersa. Formando no Seminário do Fundão, cedo viria a tornar-se agnóstico, ainda que Deus permaneça para ele uma interrogação aberta e infindável, que atravessa toda a sua escritura e pensamento.

A dogmática cristã, a partir da sua releitura dos textos fundadores da experiência religiosa cristã, apresenta diversas imagens de Deus, do Deus de Jesus Cristo, que a maior parte dos leitores conhecerá certamente. Interessa-me aqui colocar em relevo as imagens poéticas que o poeta António Magalhães descreve no seu livro A Flauta na Falange. O poeta fala de um «Deus, flauta de obscuridade», «Deus pólen inscrito em neve», «lâmpada de silêncio», «Deus cantaril, mancha indelével lúnula», «Deus instante», «Sombra», «Pobre», «Palavra errante», «Silêncio mel», «Vazio omnipresente». Seria de todo oportuno pensarmos Deus e o mistério da realidade e do humano a partir desta gramática poética intensa, e talvez, mas é somente uma suposição, toda a pastoral cristã seria a expressão da noite que cai da ameixoeira branca, quer dizer, a experiência vivida do brotamento radioso do mistério mais profundo da realidade, que é Deus mesmo.

O Deus que vem no silêncio da noite, como «brancura luminosa» (Jon Fosse), para transformar o nosso caos e o nossos traumas numa nova Ressurreição, é o Deus silenciado pelo frenesim e atavismo dos que o nomeiam a todo a hora e instante. É urgente ir para além da «cera e dos santos óleos», quer dizer, além da sacristia e da dogmática do incenso, para encontrar aí no mundo quotidiano da vida os sinais invisíveis e verticais da sua presença silente em sarça ardente. Só o desejo que deseja outro de si pode experienciar o desejo místico e poético do divino, de um Deus aquém de nós mesmos e de todas as tentativas de possessão religiosa ou individual, seja por conceitos, seja por imagens.

Um outro grande poeta, Fernando Pessoa, pela voz do seu heterónimo Alberto Caeiro, nesse grande poema que é o Guardador de Rebanhos, escrevia:

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.[3]

Quantas horas, segundos ou minutos teremos passado ultimamente a respirar e a contemplar as flores, as árvores, os montes, o sol e o luar? Como pode o crente contemplar a Deus, que não vê, se já nem vê ou sente o que é visível, palpável e respirável? Na verdade, é tudo uma questão de ressonância electiva ou de tonalidade afectiva diante do mistério do real e do ser das coisas. A ausência de ressonância das atmosferas do mundo e de desejo de outrem advém de uma certa alienação e aceleração do ritmo de vida moderno. É urgente pensar-se uma filosofia e teologia da ressonância, uma estética da desaceleração, que afirme uma outra arte de ser, um outro sentir e pensar (cf. o nosso último ensaio «Uma filosofia da regeneração contra a lógica do toujours plus», aqui publicado). Como escreve o cineasta e escritor russo Andréi Tarkovsky, esse grande escultor do tempo: «A arte afirma o que há de melhor no homem: a Esperança, a Fé, o Amor, a Beleza, a Oração…».[4]

“Quantas horas, segundos ou minutos teremos passado ultimamente a respirar e a contemplar as flores, as árvores, os montes, o sol e o luar?” Foto © João Paulo Costa

 

Porque razão a questão de Deus, ou de Deus como questão, desapareceu do horizonte da pastoral eclesial e encontrou um verdadeiro abrigo na voz dos poetas, filósofos e artistas? Porque ela é um problema radical no qual se joga o destino do nosso ser no mundo e, por isso, não cessa de nos inquietar como «pólo-limite», «ponto de referência de todo o questionar humano», «como uma atmosfera de mistério, de indizível», que em todos os problemas humanos se respira, como afirma Ferreira, e no qual somos, nos movemos e existimos, como diria, por sua vez, Paulo de Tarso. Possa o leitor simplesmente juntar aos dos poetas outros tantos nomes, imagens ou metáforas de Deus com impacto na sua própria existência vivida.

A par dos nomes e obras acima citados, será certamente muito benéfica, sobretudo para este tempo estival de maior repouso, a leitura do livro A experiência de Deus[5] de Simone Weil, recentemente publicado em português. Mais um ser filosófico, à margem da pastoral eclesiástica, que fez de Deus a questão central da sua existência, uma procura viva, luminosa e incessante no mais íntimo da sua noite escura e da escuridão do mundo e dos famigerados do seu tempo.

 

João Paulo Costa é presbítero católico e investigador em filosofia no CECH da Universidade de Coimbra. Autor de Indícios – à escuta dos traços de Deus (UCP editora, 2016) e de À Sombra do Invisível – fragmentos de um crer sapiencial (Documenta/Sistema Solar, 2020).

 

Notas:
[1] Vergílio Ferreira, Espaço do invisível, Vol. 2, Bertrand editora, Lisboa, 1991, p. 38.
[2] Vergílio Ferreira, Espaço do invisível, Vol. 2, p. 38.
[3] Fernando Pessoa, Toda uma literatura: Caeiro-Reis-Campos, Penguin Lisboa, 2022, p. 29.
[4] Andréi Tarkovsky, Le temps scellé, Éditions Philippe Rey, Paris, 2014, p. 277.
[5] Simone Weil, A Experiência de Deus, Edições 70, Lisboa, 2024.

 

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