
O maestro João Andrade Nunes do Ensemble São Tomás de Aquino, na entrevista no programa 7MARGENS da Antena 1. Foto © Carlos Jorge Antunes/Antena 1.
Um Natal diferente daquele que predomina na cena mediática é a proposta do disco Ó Meu Menino, do Ensemble São Tomás de Aquino, que acabou de ser editado e terá apresentação pública no próximo sábado, 23, às 21h, na Igreja de São Tomás de Aquino, em Lisboa.
O Natal deste disco é “muito mais introspectivo, muito mais calmo”, que “busca a essência da adoração no presépio”, diz João Andrade Nunes, maestro do Ensemble e entrevistado desta semana no programa 7MARGENS da Antena 1.
Tal como a música que dá título ao disco, Ó Meu Menino Tão Lindo, que se pode ouvir no programa, as mensagens que podem ser escutadas no disco estão mais próximas da essência do Natal, defende o maestro, nascido no Sabugal em 1990. Tendo estudado música em Belmonte e Lisboa, o maestro fez também o curso de direito em Lisboa e é actualmente doutorando e docente na Faculdade de Direito de Lisboa.
O disco, disponível na paróquia lisboeta nou através do endereço electrónico ensemblesta@gmail.com, recolhe peças de regiões como o Minho, Trás-os-Montes, Beiras, Ribatejo, Alentejo, Açores e Madeira. “Visitar as diversas tradições musicais portuguesas – desenvolvidas no contexto das festas da natividade cristã e interiorizando outros substractos culturais – é descobrir um Natal vincadamente diferente daquele que vemos representado na cena mediática”, escreve precisamente no livreto do disco o antropólogo e compositor Alfredo Teixeira, com quem o Ensemble tem trabalhado.
No disco incluem-se 21 temas de Natal, quatro dos quais podem ser ouvidos em estreia no programa: além do já citado, também o popular Natal de Elvas, Nana, Nana, Meu Menino e o menos conhecido Reis, originário da Ilha do Faial, Açores. No caso de Natal de Elvas, a peça traduz o gesto de alguém que “está a contemplar” o presépio “e a pensar também na sua vivência” – e esse é um dos traços distintivos deste canto português, esclarece João Andrade Nunes, que comenta as afirmações de Alfredo Teixeira, segundo o qual esta é uma música que reflecte “o que se poderia apelidar de mística do Sul” que, transportando dramas e encantamentos da “religião do lar” que o Natal carrega, celebra “a família, a maternidade e a infância”.
Alfredo Teixeira escreve também que as narrativas centradas “na figura do Menino Jesus e no quotidiano da Sagrada Família”, materializadas nos presépios, permitem “uma fácil identificação entre a história sagrada e a experiência social”. Um dos exemplos é o terceiro tema ouvido no programa, Nana, Nana, Meu Menino, uma “canção de embalar um pouco triste”, de meados do século XX, que traduz também o que era “a vivência da mortalidade infantil” e a forma “como o povo cantou “esta desgraça, esta realidade funesta”, como diz João Andrade Nunes. “Um canto muito belo do ponto de vista musical, mas que tem também esta carga dramática e escondida, porque isso faz parte também de muitos natais.”
As músicas estão organizadas em quatro núcleos: “Vinde já ao mundo” inclui quatro peças que falam sobre o Advento e a a encarnação de Jesus como Deus; “Em palhas deitado” propõe cinco canções sobre a cena do presépio – o Menino e o seu nascimento; “A Virgem lavava, José estendia” são outras cinco músicas sobre as figuras da sagrada família; e finalmente, as sete peças de “Vinde todos adorar” remetem para as figuras dos pastores e dos magos que vão honrar o Menino-Deus.
“Estamos num tempo em que é preciso agitar as águas, no sentido da beleza”, diz ainda João Andrade Nunes. E este disco procura fazê-lo, ao mesmo tempo que guarda um património que corre o risco de se perder, uma vez que várias das músicas nunca tinham sido gravadas.
O maestro do Ensemble STA fala ainda sobre a música que se canta nas liturgias e sugere a visita à exposição Os Caminhos da Liberdade Religiosa, patente no Parlamento até 28 de Fevereiro: “Nos 50 anos do 25 de Abril, é importante o poder político falar do assunto e promover esse diálogo”, comenta.
O programa pode ser escutado na íntegra em https://www.rtp.pt/play/p12257/7-margens.













