AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

À Margem_Clara Raimundo_nova

E que tal reler alguns textos?

| 16/01/2025

A polémica estalou esta semana em Espanha, mais propriamente na diocese de Segóvia. Em Torrecaballeros, uma pequena localidade a cem quilómetros de Madrid, um padre recusou-se a dar a comunhão ao presidente do município, Rubén García de Andrés. O motivo? Ser homossexual e viver publicamente em união de facto com outro homem.

A decisão do pároco de Torrecaballeros foi comunicada no passado sábado, 11 de janeiro, ao autarca do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e membro ativo naquela comunidade cristã, que no domingo recorreu à rede social X para manifestar o descontentamento e a “dor, muita dor” que esta lhe causou a si e à sua família. No dia seguinte, um comunicado do Grupo Federal de Cristãos Socialistas condenava a “discriminação homófoba” e solicitava “uma rápida correção e um pedido de desculpas do bispado, do seu pároco e, em caso de obstinação, da Conferência Episcopal Espanhola”. E também o PSOE de Segóvia se manifestava publicamente, assinalando que recusa semelhante terá sido comunicada a outros dois fiéis da diocese pelo mesmo motivo, e pedindo ao novo bispo (coincidência ou não, o anterior celebrou a sua missa de despedida precisamente no dia 11) que “não permita que o ódio se espalhe devido à condição sexual de alguns paroquianos, numa província tolerante e respeitosa como Segóvia”.

Após um dia em silêncio, a diocese resolveu publicar um comunicado de resposta, explicando que o pároco em causa, “no cumprimento do seu ministério e seguindo as normas da Igreja universal sobre a receção da Sagrada Comunhão, foi obrigado a negar a Comunhão a pessoas do mesmo sexo que vivem numa relação conjugal, o que também pode ocorrer entre pessoas heterossexuais sem um vínculo matrimonial”. “Não se trata de homofobia nem de discriminação, pois a Comunhão não é negada por causa da homossexualidade, mas sim para defender o carácter sagrado da Eucaristia”, assinalou a diocese, acrescentando que “os católicos sabem que para receber a Eucaristia, quer sejam homossexuais ou heterossexuais, são necessárias condições objetivas de moralidade, e a Igreja tem autoridade para negar a comunhão quando estas não são cumpridas, especialmente se isso causar escândalo entre os fiéis, como aconteceu nos casos de Segóvia”.

O comunicado refere o ponto 915 do Código de Direito Canónico – segundo o qual não devem ser admitidos à comunhão “os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto” – e sublinha que “o próprio Papa Francisco, em  Fiducia Suplicans, afirma que a bênção de casais homossexuais deve ser evitada se causar ‘graves formas de escândalo ou confusão entre os fiéis’. Quanto mais se for a comunhão sacramental”.

Padre prepara comunhão. Foto Viktor Cap

“No cumprimento do seu ministério e seguindo as normas da Igreja universal sobre a receção da Sagrada Comunhão, [o pároco de Torrecaballeros] foi obrigado a negar a Comunhão a pessoas do mesmo sexo que vivem numa relação conjugal”, afirma o comunicado da diocese de Segóvia. Foto © Viktor Cap

Perante este comunicado, cheio de autoridade e vazio de compaixão, pensei naquelas três pessoas a quem foi negada a comunhão e tive a certeza de que a sua dor cresceu ainda mais quando o leram. Pensei na dor dos restantes cristãos homossexuais, e pensei também na dos cristãos recasados – tantos! – que supostamente não cumprem os “pré-requisitos” exigidos pela Igreja Católica para comungar.

Será que Judas, ou mesmo Pedro, tinham “condições objetivas de moralidade” para comungar, naquela Última Ceia? Se o critério fosse esse, suspeito que não. Mas isso não impediu Jesus de partilhar com eles o pão, como parece indicar o Evangelho de Mateus (cf. Mt. 26, 20-35). Porquê? Porque os pecados destes apóstolos ainda não eram públicos e não causavam “escândalo”?

O Papa Francisco, que a diocese de Segóvia cita no seu comunicado, tem insistido desde o início do seu pontificado que o que Jesus fez na Última Ceia foi “um gesto humilde de dom”, que “transborda amor”. E Jesus, explica o Papa numa das suas alocuções a propósito dessa passagem do Evangelho, “doa-nos o maior presente enquanto sente no seu coração o abismo mais profundo: o discípulo que come com ele, que imerge o bocado no mesmo prato, está a traí-lo. E a traição é a maior dor para quem ama”.

O que faz, então, Jesus, perante alguém que o trai, que trai o seu amor e os seus ensinamentos? O Papa responde: “Ele reage ao mal com um bem maior. Ele responde ao ‘não’ de Judas com o ‘sim’ da misericórdia. Não castiga o pecador, mas doa a sua vida por ele, paga por ele. Quando recebemos a Eucaristia, Jesus faz o mesmo connosco: conhece-nos, sabe que somos pecadores e sabe que erramos muito, mas não renuncia a unir a sua vida à nossa. Ele sabe que precisamos, porque a Eucaristia não é o prémio dos santos, mas o Pão dos pecadores. Por isso, exorta: Não tenham medo. ‘Tomai e comei'”.

Não quero, ao citar esta explicação do Papa, assumir que estão em pecado aqueles três paroquianos de Torrecaballeros a quem a Comunhão foi negada. Pretendo, isso sim, enfatizar esta tese de Francisco de que a Comunhão é um “remédio” e não um “prémio”; e portanto é para todos, até porque, na perspetiva cristã, todas as pessoas são pecadoras, independentemente da sua orientação sexual ou estado civil. De resto, pergunto-me: a quantos “santos” dará a Comunhão o pároco de Torrecaballeros?

Quadro alusivo à Última Ceia, pintado pelos detidos do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

Quadro alusivo à Última Ceia, pintado pelos detidos do Estabelecimento Prisional de Lisboa. Será que Judas, ou mesmo Pedro, tinham “condições objetivas de moralidade” para comungar? Foto © Filipe Teixeira/Jornal Voz da Verdade

Não deixa de ser curioso o facto de, no livro Sobre o Céu e a Terra – escrito por Francisco em coautoria com o rabino Abraham Skorka e publicado logo no início do pontificado, em 2013 – o Papa admitir que “alguém poderia negar a comunhão a um pecador público que não se arrependeu, mas é muito difícil verificar essas coisas”. Note-se a escolha do verbo “poderia” – e não “deveria”. Curioso também é o facto de, a propósito desse tema, Francisco dar o exemplo dos empresários que “não pagam aos seus empregados um salário correspondente ao seu trabalho ou que os contratam ‘por baixo da mesa'”, para fugir a impostos e obrigações legais. Não se refere a outros “pecadores”.

Mais recentemente, no regresso da viagem apostólica à Eslováquia, em setembro de 2021, o vaticanista norte-americano Gerard O’Connell perguntou ao Papa (a propósito da discussão sobre se a comunhão deveria ser negada aos políticos católicos que apoiavam as leis de despenalização do aborto, como aconteceu com Joe Biden) se já alguma vez havia recusado publicamente a Comunhão a alguém. Francisco foi perentório: “Eu nunca recusei a Comunhão a ninguém!”. E depois fez questão de partilhar um episódio que apelidou de “simpático”: “Quando fui celebrar a missa num lar de idosos, estava na sala e perguntei: quem quer a Comunhão? Todos os idosos levantaram as mãos. Uma velhinha levantou a mão, tomou a Comunhão e disse: ‘Obrigada, eu sou judia’. E eu respondi: ‘Aquele que eu lhe dei também é judeu'”. O Papa insistiu depois, na sua resposta ao jornalista: “A Comunhão não é um prémio para os perfeitos – pense no Jansenismo – a Comunhão é um dom, um presente, é a presença de Jesus na Igreja e na comunidade. Então, aqueles que não estão na comunidade não podem comungar, como esta senhora judia, mas o Senhor quis recompensá-la sem o meu conhecimento”.

A verdade é que, mesmo os que estão na comunidade, muitas vezes não podem comungar. Apesar de o Papa Francisco apelar vezes sem conta para que a Igreja acolha verdadeiramente todos; apesar de ter escrito a exortação apostólica Amoris Laetitia, solicitando concretamente aos pastores para serem mais compassivos com os membros das suas comunidades, cujas relações nem sempre correspondem ao ideal proposto pela Igreja; apesar de ter promovido um Sínodo sobre a Sinodalidade, cuja etapa continental teve por mote um versículo do Livro do Profeta Isaías que é também um pedido: “Alarga o espaço da tua tenda”.

Recordo a expetativa partilhada por António Caseiro Marques, dirigente da Ação Católica Rural, quando o 7MARGENS lançou o desafio aos leitores para que respondessem à questão “Que espero do Sínodo?”, em outubro de 2023. “Acabar com as exclusões que não têm justificação” foi a sua resposta. E nessa resposta partilhou um episódio que o marcou, precisamente em relação à Comunhão. Numa missa na qual participou, ficou sentado ao lado de um membro daquela comunidade, que era divorciado e recasado. Quando chegou a altura da Comunhão, Caseiro Marques levantou-se e dirigiu-se ao padre para comungar. Quando regressou ao lugar, essa pessoa já não estava. “Tinha saído. Sentiu-se excluído. Não estava ali a fazer nada. Fiquei revoltado”, escreveu António Caseiro Marques. “Nessa altura, enquanto fazia a minha oração de ação de graças, repito, muito revoltado, pensei para mim que me apetecia de uma próxima vez, trazer a hóstia e dividi-la com esse meu amigo, discretamente”, revelou.

Papa Francisco no voo de regresso da Eslováquia, em setembro de 2021. Foto Vatican Media

Papa Francisco no voo de regresso da Eslováquia, em setembro de 2021. “Eu nunca recusei a Comunhão a ninguém!”, assegurou então aos jornalistas. Foto © Vatican Media

Na missa onde costumo participar, o momento da comunhão é, não raras vezes, precedido das seguintes instruções da parte do padre: aqueles que já não se confessam há algum tempo ou que tenham faltado à missa, ou que por algum motivo não estejam em condições de receber a comunhão, poderão aproximar-se do altar colocando os braços em forma de “X” à frente do peito, e a esses ele não entregará a hóstia, mas dará a sua bênção. A sugestão é bem acolhida pelas crianças que ainda não fizeram a sua Primeira Comunhão, mas muitos adultos permanecem nos bancos.

Ao reler o testemunho de Caseiro Marques publicado no 7MARGENS, não pude deixar de recordar uma experiência que vivi há pouco tempo, numa comunidade católica em cuja eucaristia dominical participei pela primeira vez. Quando se iniciou a liturgia eucarística, o padre que presidia à celebração (mas que, curiosamente, nunca se sentou na cadeira presidencial) convidou os participantes a sair dos bancos da igreja, onde se encontravam, e ir para junto do altar. Todos acederam com naturalidade, até porque – percebi depois – é assim que fazem todos os domingos. E ali ficaram durante toda a oração eucarística, a consagração, a fração do pão, a comunhão, até ao final da missa. A imagem – pelo menos para mim – foi a de uma Última Ceia em tamanho XXL, pois ao todo haveria seguramente mais de cem pessoas à volta do altar. Santos ou pecadores, ninguém permaneceu nos bancos, ninguém saiu, ninguém ficou de fora. E que belo foi o momento em que – sem pressas – o padre partiu as grandes hóstias que consagrara em tantos pedacinhos quantos os presentes, e estes foram entregues, em silêncio, a cada um. Ninguém tomou o seu de imediato. Comungaram juntos depois de todos terem já o pão nas suas mãos e o celebrante pronunciar “O corpo de Cristo”.

Uma coisa me parece certa: como escreve o Papa no ponto 301 da Amoris Laetitia, “já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”. Em vez disso, o documento instrui os membros do clero no sentido de trabalharem com esses casais para reconhecer “aquilo que, por agora, é a resposta generosa que se pode oferecer a Deus”, tendo em mente que a resposta pode não ser a mesma para todos. “É mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir duma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral, porque isto não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta dum ser humano”, acrescenta Francisco no ponto seguinte da exortação.

Talvez alguns padres – e bispos – precisem de a reler.

 

O 7MARGENS vive exclusivamente do apoio dos leitores.
Faça um donativo: https://setemargens.com/apoiar
Inscreva-se para receber a nossa newsletter gratuita: https://setemargens.com/assinar
Partilhe os nossos textos na sua página de Facebook, Instagram ou Twitter.
Escreva-nos: setemargens@setemargens.com

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This