Os dedos das mãos não chegam para contar os inúmeros festivais de verão que se avizinham e o próximo começa ainda antes de chegar a nova estação, já nesta quinta-feira, 19. Chama-se “Espanto”, vai decorrer em Cascais, mas desengane-se quem pensa que falamos de “mais um” festival de música. Trata-se do primeiro festival internacional de Filosofia em Portugal e promete transformar a vila à beira-mar “num espaço de pensamento vivo”, reunindo filósofos, escritores, artistas, especialistas de várias áreas e todos os que a eles queiram juntar-se para “aproximar a Filosofia da vida quotidiana” e “refletir sobre um tema central: o medo”.
“Ajudar ao desenvolvimento do pensamento crítico é determinante em tempos onde a informação e o conhecimento estão a sofrer mudanças de dimensões ainda por determinar. Há um certo relaxamento do pensamento que precisa de ser estimulado para evitarmos seguir caminhos mais obscuros”, sublinha Catarina Barosa, curadora e principal responsável pela organização do Espanto, em declarações ao 7MARGENS.
Quanto ao tema desta primeira edição – o medo – foi escolhido “porque é o que nos une e ao mesmo tempo é também o que nos separa”, explica a filósofa e ex-jornalista. “Somos unidos pelo facto de a nossa circunstância humana ser sempre perseguida por este sentimento e separados pela forma como usamos esse medo. Esta ambivalência justifica uma reflexão profunda que vai dar pistas para melhor nos compreendermos a nós e ao mundo.”
Reflexão essa que pode – e deve – ser feita por todas as pessoas. E o festival quer contribuir para isso, incluindo propostas para o “público em geral de todas as faixas etárias a partir dos 6 anos”, assegura Catarina Barosa.
A prova está no facto de, logo no primeiro dia, arrancar com sessões abertas à comunidade nos bairros sociais 25 de Abril, Torre e Adroana, que serão conduzidas por duplas de filósofos, e terminarão com atuações de artistas locais. Gilles Lipovetsky e Michel Eltchaninoff darão o pontapé de saída, refletindo sobre as angústias das sociedades modernas e o uso político do medo. António de Castro Caeiro e Samantha Rose Hill irão explorar o medo enquanto condição humana e sintoma da fragilidade democrática. Bernat Castany Prado, que faz do medo o centro da sua investigação filosófica, e Sebastian Sunday Grève, especialista em lógica e inteligência artificial, irão explorar o desconhecido e os novos receios gerados por estas transformações tecnológicas.

O cartaz da iniciativa.
E se a sexta-feira será mais dedicada a momentos exclusivos para oradores, parceiros e detentores de bilhete premium (já esgotado), no sábado os jardins da Casa das Histórias Paula Rego transformar-se-ão em Ágoras, acessíveis a todos, gratuitamente.
Na Ágora 1, os visitantes poderão interagir diretamente com vários filósofos, durante todo o dia. E a Ágora 2 será dedicada a crianças e jovens, com oficinas que pretendem estimular o pensamento crítico e a criatividade. A programação iniciar-se-á às 10h00 com “O Labirinto dos Sentidos”, uma proposta da filósofa e autora Laura Luz Silva, destinada a famílias com crianças a partir dos 9 anos. Às 11h30, Joana Rita e Sousa, especialista em filosofia para crianças e jovens, conduzirá o “Clube de Perguntas”, uma oficina interativa para crianças a partir dos 7 anos. Após a pausa para almoço, o escritor e humorista David Erlich dinamizará “A Bebedeira de Kant”, uma abordagem divertida ao pensamento filosófico. Para encerrar o dia, pelas 16h00, decorrerá uma oficina de construção de livros com Maria João Travassos, consultora de livros infantis e mediadora de leitura.
Ao longo do dia, haverá também debates com oradores de áreas distintas, como a atriz Beatriz Batarda, a escritora Joana Bértholo, o engenheiro e especialista em inteligência artificial Arlindo Oliveira, o argumentista e encenador Artur Ribeiro, a neurocientista Luísa V. Lopes e ainda o criativo publicitário Edson Athayde.
O programa de dia 21 culminará com a atuação musical de Milhanas, cantora e compositora portuguesa, pelas 21h30, no Pátio da Cidadela de Cascais (Fortaleza).
No dia 22, a manhã começa com a atuação de Yeri & Yeni, dupla artística que combina influências musicais cabo-verdianas, portuguesas, angolanas, senegalesas e norte-americanas. Seguir-se-á uma Aula Magna de Manuel Curado, especialista em memória e identidade, uma sessão de Leitura da Obra de José Gil, por Luís Moreira, e outra Aula Magna, desta vez de Peter Sloterdijk, um dos maiores nomes da filosofia europeia contemporânea e pensador do risco e da indiferença no mundo atual.
O festival terminará com uma homenagem a José Gil, que dedicou a sua vida à Filosofia e à transmissão do saber, sendo amplamente reconhecido pelas suas reflexões sobre a identidade portuguesa, o corpo e o poder.

Catarina Barosa, curadora e responsável da organização do festival Espanto.
Os diferentes momentos e a panóplia de atividades ao longo dos quatro dias de Espanto pretendem recordar que “a Filosofia serve para nos ajudar na compreensão das várias dimensões da nossa existência, serve para compreender os outros e o mundo, serve para nos relacionarmos com tudo o que nos rodeia”, sublinha Catarina Barosa. “A Filosofia como modo de vida foi muito usada na antiguidade e a partir do momento que foi para as academias distanciou-se do público em geral”, lamenta.
Com este festival, o objetivo é encurtar essa distância até porque só com a Filosofia “podemos na verdade treinar o pensamento e estarmos preparados para um nível de compreensão do mundo menos superficial e mais profundo, o que ajuda em muitos aspetos: ter mais clareza no entendimento dos discursos políticos, mais facilidade de argumentação e resolução de paradoxos e dilemas, mais discernimento para distinguir entre o que é verdadeiro do que é falso, manipulado, válido ou não válido. Enfim, diria que dá as ferramentas essências para não perder a batalha da inteligência artificial, ambiental e de manutenção das democracias”, defende a responsável da organização.
O programa completo e mais informações sobre a aquisição de bilhetes e a inscrição nas atividades abertas a todos podem ser encontrados no sítio oficial da iniciativa. E será que para o ano haverá uma segunda edição? “Neste momento, queremos fazer este bem e depois logo veremos em 2026. Para já, a adesão está a ser excelente”, conclui Catarina Barosa.










