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Mulher. Grito

Dia Internacional da Mulher: A Igreja e as Mulheres

Este é o nosso corpo, que não será entregue por vós

| 07/03/2024

A todas que morreram de esperanças

Mulher. Grito

“E se quem diz o que somos e para o que vivemos não fossemos nós?” Foto © Hannah Popowski / Unsplash

 

Companheiras católicas portuguesas,

E se, hoje, a lei nos impedisse de votar, isto é, de ter voz, de estar presentes em determinados lugares e de desempenhar certos papéis, com base no facto de, simplesmente, sermos mulheres?

E se, hoje, em documentos oficiais que regem a sociedade, fossemos consideradas um bloco homogéneo (geralmente aparece o termo “mulher”, ao invés de “mulheres”), porque temos em comum uma vagina (independentemente de todas as outras características), o que justifica a nossa “complementaridade física, psicológica e ontológica”, como se esta não resultasse da diversidade humana? Aliás, o que dizer das pessoas intersexuais, que nascem com características sexuais (incluindo os órgãos e glândulas sexuais e o padrão cromossómico) que não se enquadram nas noções binárias tradicionais de corpo masculino ou feminino?

E se quem diz o que somos e para o que vivemos não fossemos nós? Como é que os homens que escreveram, por exemplo, a «Carta aos bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo», sabem que “a mulher conserva a intuição profunda de que o melhor da sua vida é feito de actividades orientadas para o despertar do outro, para o seu crescimento, a sua protecção” e a sua vocação é de mãe biológica, inseparável da de esposa, ou espiritual, conservando a virgindade? E se nos dissessem que somos as principais cuidadoras da família, logo do espaço doméstico, e que “reverterá em honra para a sociedade o tornar possível à mãe — sem pôr obstáculos à sua liberdade, sem discriminação psicológica ou prática e sem que ela fique numa situação de desdouro em relação às outras mulheres — cuidar dos seus filhos e dedicar-se à educação deles, segundo as diferentes necessidades da sua idade”, sem que se chame qualquer responsabilidade paterna na mesma medida para aqui, no caso de uma relação heteronormativa?[1]

 

Sacerdócio: uma questão entre as pernas?

Maria Madalena imaginada pelo pintor italiano Rutilio Manetti em 1620

Maria Madalena imaginada pelo pintor italiano Rutilio Manetti em 1620 (pormenor)

 

“(…) não é admissível ordenar mulheres para o sacerdócio, por razões verdadeiramente fundamentais. Estas razões compreendem: o exemplo ― registado na Sagrada Escritura ― de Cristo, que escolheu os seus Apóstolos só de entre os homens; a prática constante da Igreja, que imitou Cristo ao escolher só homens; e o seu magistério vivo, o qual coerentemente estabeleceu que a exclusão das mulheres do sacerdócio está em harmonia com o plano de Deus para a sua Igreja.” – João Paulo II, Carta Apostólica, Ordenatio Sacerdotalis.

E Madalena, a eleita para acompanhar Jesus na vida, na morte e na ressurreição, para ser a primeira a vê-lo ressuscitado, a que não teve medo, quando os “legítimos apóstolos”, segundo a Igreja Católica, se escondiam, e cuja palavra não foi validada, pois, quando correu para lhes contar, não acreditaram nela? Como temos o desplante para afirmar que as mulheres não podem ser ordenadas, porque não foram escolhidas? No Evangelho segundo Maria, tomado como apócrifo, podemos ler a pergunta de Pedro: “Pedro diz a Maria: «Irmã, sabemos que foste muito amada pelo Salvador, como <o não foi> outra mulher. Diz-nos, pois, as palavras que conheces do Salvador, que nós não escutámos.» Depois, de Maria partilhar que lhes anunciaria o que lhes passava despercebido e de comentar que teve uma visão, na qual falou com Jesus, “André diz: «Irmãos, o que vos parece acerca das coisas ditas? Eu não acredito que o Salvador tenha dito estas coisas. Parecem diferir do pensamento dele.» Acerca destes assuntos escrutinando, Pedro diz: «O Salvador ocultamente a uma mulher falava – e não abertamente, para que todos ouvíssemos? Será que ele queria indicá-la como sendo mais digna do que nós?» «<Pensais que minto acerca> do Salvador?»”[2]

Neste Evangelho escondido, lê-se a compatibilidade de uma mulher líder com o cristianismo. “Nos primeiros séculos do cristianismo, o pesadelo equivalente para homens ortodoxos era a figura de Maria Madalena. Seria mesmo verdade que ela tinha tido grande importância no estabelecimento do cristianismo após a morte de Jesus? Tanto mais que esse facto não era mencionado nos textos elegidos como canónicos do Novo Testamento. (…)  Importância essa que sujeitava também os cristãos ao escárnio da misoginia pagã. Uma das razões pelas quais muitos intelectuais pagãos achavam o cristianismo ridículo nos séculos II e III é que havia cristãos integrados em grupos cuja liderança inicial coubera a mulheres. Sabemos concretamente de quatro nomes: Maria Madalena, Salomé, Marta e Marcelina (…). Houve cristãos de mentalidade fechada que fingiram desconhecer a existência de tais grupos. E é certo que as escrituras tornadas canónicas nos espantam com o facto de a palavra «discípula» ocorrer uma só vez em todo o Novo Testamento. Trata-se de Actos dos Apóstolos 9:36 – onde, ainda para mais, a palavra foi apagada da tradução da Bíblia mais lida em Portugal (que não é, como é sabido, a minha…). E todos sabemos a desvalorização a que Maria Madalena foi submetida: sem a mínima sustentação na escritura quer canónica, quer apócrifa, o papa Gregório Magno retratou-a pela primeira vez como prostituta arrependida numa homilia composta no século VI. No final do século XIX foi descoberto, no Egipto, o Evangelho de Maria Madalena (intitulado simplesmente «Evangelho de Maria»). Sem querer entrar em teorias da conspiração, a tipografia em que a primeira edição deste evangelho ia sair foi destruída por um incêndio em 1912, perdendo-se assim toda composição do texto para impressão (e todo o trabalho do especialista Carl Schmidt). (…)  É um texto perfeitamente bombástico: porque neste evangelho, a pessoa a quem Jesus confia a sua doutrina não é Pedro, mas sim Maria Madalena (perante o ressentimento e o ciúme de Pedro)”, conta-nos Frederico Lourenço, numa publicação da sua conta de Facebook.

Às vezes, dou por mim a não saber como falar sobre o óbvio. E será preciso? Dizer que Jesus não vive obcecado com um pénis e que só quem tem este órgão é que recebe determinados dons, é, no mínimo, um escândalo. Excluir metade da humanidade era o gesto natural de Jesus? A questão aqui não se prende com o facto de explicar, apresentar leituras ocultadas, interrogar, mas com uma decisão de naturalizar injustiças, que tem conduzido a uma naturalização de crimes. Erguem-se estereótipos geométricos que são atentados contra a libertação que sonhamos. Sonhamos? De tantas formas, as mulheres têm sido empurradas para dentro das casas. O privado não é tido como político. Assim, o nosso lugar não está no espaço público, embora sejamos objecto do discurso público, embora tenhamos o padre na cama, no banho, quando nos despimos e nos vestimos, quando desejamos, quando tentamos algum silêncio para escutar Deus.

Como conhecemos tão bem um momento histórico onde não estivemos? Como temos tanta certeza de que quem no-lo transmitiu estava completamente limpo do seu contexto cronológico e geográfico? Erguemos discursos por cima de textos que são registos de uma experiência humana com o divino, mas esquecemos a primeira parte. Erguemos discursos por cima de textos que são mantas de retalhos e esquecemos (ou queremos esquecer) que também se lê o que se perde, o que não está. Erguemos discursos que são tecidos que encobrem. E o que escolhemos que esteja doutra maneira?

E se quando contam a vossa história não falam de vós? E se roubam a vossa herança de coragem, ousadia, de não-cedência? E se dividem a referência e são putas ou virgens? Quando não são virgens, nem putas, são esposas e mães.

‘Para representar a “Mulher”, encontramos duas figuras: Eva e Maria. A primeira, desobediente, é aquela com quem as mulheres são identificadas (…)’ . Pintura:  Lucas Cranach – Adão e Eva, 1530. Museu Nacional de San Carlos (México) / wikimedia Commons

Para representar a “Mulher”, encontramos duas figuras: Eva e Maria. A primeira, desobediente, é aquela com quem as mulheres são identificadas, enquanto que a segunda, imaculada, corresponde a quem elas deveriam ser. É Eva a tentadora e a responsável pelo pecado original, a que conduziu o homem a este. Ora, ainda hoje, quando uma mulher é violada, assediada ou sofre qualquer tipo de violência, continua-se a olhá-la como a provocadora, ou seja, a responsável pelo sucedido. Nós é que somos o perigo.

Até ao momento da criação da doutrina social da Igreja, a questão das mulheres não havia sido directamente levantada, e, como tal, não era tema para o Magistério. A abordagem da igualdade entre os seres humanos, enquanto criados à imagem e semelhança de Deus, convoca sempre a diferença entre os sexos. Ignorar esta distinção é negar a própria natureza, enquanto reflexo da imagem de Deus, e como tal, é negar os Seus planos. A teóloga irmã Teresa Toldy chama a atenção para o facto desta diferença determinar a desigualdade. Ora, esta diferença é ditada pela biologia e ampliada a todas as dimensões da vida. As características da mulher assentam na capacidade que o seu corpo (nem sempre) tem de engravidar, parir e amamentar. É a partir destas que se descrevem as psicológicas e espirituais. A nossa alma está no útero, se o tivermos, claro.

“Os textos traçam o retrato espiritual feminino a partir da condição de mãe: a mulher possui o amor à vida, o sentimento de protecção do berço. Ela conhece o mistério da vida. Ela tem a missão de «colocar bálsamo nas feridas abertas da humanidade»[3].

Uma vez que a lei da natureza radica em Deus, estas características da mulher constituem a sua «essência perene»[4], a sua «verdade»[5], «são imutáveis e não se desactualizam»[6]. Este é um dos motivos pelos quais o Magistério revela sempre o temor de que os movimentos de emancipação da mulher desrespeitem a ordem estabelecida pelo Criador, sobretudo se lutarem por uma igualdade entre homem e mulher que procuram mudar «aquilo que a natureza exige do homem e aquilo que a natureza exige da mulher»[7]”, reflecte Teresa Toldy, em «Exaltação ou Submissão, Modelos de mulher no discurso oficial da Igreja Católica Romana». Desta forma, conceber-se-á o Espírito Santo como uma força de Vida, visto que a própria substância desta é a transmutação, como o elemento fogo nos mostra (e que desce sobre as nossas cabeças, o nosso pensamento e nos permite falar novas línguas, explorar novos discursos que aproximam mais da realidade, que está sempre mais além de mim)? Tomamos Deus como O já revelado ou o revelando-Se, em devir?

Os modelos de mãe, esposa e virgem, a partir dos quais se pensa as mulheres, são responsáveis, como fala a teóloga supracitada, por uma idealização. A idealização, neste caso, é uma ficção não reconhecida, que resulta em múltiplas violências, porque toca no centro da pessoa, a sua identidade. “Por um lado, a mulher tende a ser definida apenas pelo seu papel relativamente a um outro: a criança. Por outro, o facto de se fazer uma idealização desse seu papel esvazia ainda mais a mulher de uma identidade e de uma existência em si”, continua. É sempre em relação ao homem que a nossa vida ganha sentido, casando e parindo ou preservando a virgindade para Deus, que se fez homem. Aliás, fomos criadas para ele ter companhia.  Máquinas de parir herdeiros, de multiplicar os crentes, somos uma função. Entre parêntesis, este perfil é muito apreciado pelo sistema capitalista, pois contribui para a força produtiva, e, numa sociedade de herdeiros, permite manter o capital e a restante propriedade no mesmo grupo de pessoas. Por isso, o nosso lugar é a esfera privada, e não o púlpito. Em 1Tim2:11-14, lemos: “Eu não permito que a mulher ensine ou domine o homem. Que ela conserve, pois, o silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, seduzida, caiu em transgressão.” A transgressão foi desobedecer à lei do Pai e provar da árvore do conhecimento.

 A procriação é um objectivo do matrimónio. É pelo matrimónio que o sexo encontra a sua admissibilidade. Paulo, na Carta aos Efésios, compara a relação entre o esposo e a esposa à relação entre Cristo e a Igreja. Porém, trata-se de uma comparação de natureza ontológica completamente diferente. Esta separação é mais um exemplo de um tratamento desigual. A Igreja não existe sem Cristo. A Igreja é o projecto de Cristo. Cristo não tem pecado, mas a Igreja é santa e pecadora. Cristo é a cabeça da Igreja. Se o homem é colocado do lado de Cristo e a mulher do lado da Igreja, então ela é o corpo. Esta visão de mundo, organizada de forma binária, em que a cabeça corresponde à racionalidade e o corpo (do pescoço aos pés, note-se) à irracionalidade, à carne, ao pecado, e mesmo aos sentimentos, pois “se o homem é a cabeça da família, a mulher é o seu coração”[8], teve, tem tido e terá um impacto estrondoso sobre todos os contextos da vida, pois é fundamento da estrutura e dos estereótipos que nos continuam a orientar, a pressionar e a oprimir. O universo dos cuidados, da esfera doméstica, por exemplo, recai sobre as mulheres, o que liberta os homens para se expandirem na esfera pública.

 

Ora, esta organização, sustentada pelo trabalho não-pago, que é o reprodutivo, facilita aos homens a progressão na carreira, a obtenção de salários mais elevados, uma maior independência financeira. Por sua vez, as mulheres são a população sobre a qual recai maior taxa de pobreza. Entre as causas para esta diferenciação, encontra-se o maior número de horas de trabalho não remunerado, como cuidar dos filhos ou das pessoas que se encontram numa posição de dependência, ou realizar as tarefas domésticas (que, em média correspondem a 4horas diárias), o que reduz o tempo para se dedicarem a uma actividade remunerada. Na União Europeia, “de acordo com dados de 2022, quase um terço das mulheres (28%) trabalhava a tempo parcial contra 8% dos homens. Se tanto o trabalho remunerado como não remunerado forem tidos em conta, verifica-se que as mulheres trabalham mais horas por semana do que os homens”. As suas escolhas profissionais são influenciadas pelas responsabilidades familiares. Ao mesmo tempo, são sobretudo as pessoas do sexo feminino que se encontram em sectores onde os salários são mais baixos, como os cuidados, a saúde ou a educação. Há também menos mulheres em lugares de decisão.  De acordo com o estudo da Informa D&B “Presença feminina nas empresas”, relativo ao final de 2022, as mulheres representam 42% do total de pessoas trabalhadoras. Todavia, nos cargos de decisão, que incluem sócios, accionistas, cargos de gestão e direcção executiva, a percentagem é de cerca de um terço do total destes cargos (34%) e em cargos de liderança, apenas 26,9%.

Em Portugal, também são a maioria das pessoas em situação de desemprego e as que detêm um grau de habilitação académico mais elevado. Este desequilíbrio toca em todas as dimensões da vida. Por exemplo, muitas mulheres de classes sociais mais baixas são retidas em situações de violência, não tendo hipótese de sair de casa, com ou sem os/as filhos/as, pois não têm capacidade de se sustentar. Podemos também pensar na sua saúde mental. O papel de cuidadoras, o ritmo acelerado que exige, bem como a inexistência de tempo para autocuidado e o facto de implicar, muitas vezes, a desistência de projectos pessoais, a desigualdade que as atravessa dentro e fora de casa, arrasta-as para níveis de cansaço e frustração que, por vezes, culminam no seu adoecimento.

Estes problemas são reflexo de um modelo de mulher, que não surgiu de forma inocente e que foi montado com ajuda do discurso religioso. De que sexo serão as pessoas que limpam a sujidade das casas paroquiais e que cozinham para um grupo de homens que se dedicará a “servir” a comunidade, e que aposto que só lava os pés a alguém na Páscoa, porque faz parte da performance?

Freiras Trabalho

“Um eclesiástico pensa que a irmã lhe deve servir a refeição e ficar a comer sozinha na cozinha depois de servi-lo? É normal que uma pessoa consagrada seja servida dessa forma por outra consagrada? E sabendo que as pessoas consagradas destinadas aos serviços domésticos são quase sempre mulheres, religiosas? A nossa consagração não é igual à deles?”, reflecte a irmã Marie. Foto © Pixabay

 

Encontramos a mesma lógica dentro da estrutura eclesial, onde as freiras são as serviçais do clero. “Um eclesiástico pensa que a irmã lhe deve servir a refeição e ficar a comer sozinha na cozinha depois de servi-lo? É normal que uma pessoa consagrada seja servida dessa forma por outra consagrada? E sabendo que as pessoas consagradas destinadas aos serviços domésticos são quase sempre mulheres, religiosas? A nossa consagração não é igual à deles?”, reflecte a irmã Marie, na reportagem «O trabalho (quase) gratuito das Irmãs», publicada no caderno mensal “Mulheres, Igreja, Mundo” do jornal L’Osservatore Romano, em Março de 2018. “Isso tudo suscita em algumas delas uma revolta interna muito forte. Sentem uma profunda frustração, mas têm medo de falar, porque por trás de tudo podem existir histórias muito complexas. No caso de freiras estrangeiras vindas da África, da Ásia e da América Latina, há, às vezes, uma mãe doente cujos tratamentos foram pagos pela congregação da filha religiosa, um irmão mais velho que teve a possibilidade de completar os seus estudos na Europa graças à superiora…. Se alguma dessas religiosas volta para seu país, a sua família não entende. Diz-lhe: mas como és cheia de manias! Essas irmãs sentem-se em dívida, amarradas, e então se calam. E, inclusive, muitas vezes vêm de famílias muito pobres”. São voluntárias eternas, sempre ao dispor. Confunde-se a vocação de servir com a de ser abusada e não reconhecida pelas suas competências. “Actualmente, trabalho num centro sem um contracto, diferentemente de minhas irmãs laicas. Dez anos atrás, no contexto de minha cooperação com a media, perguntaram-me se eu, realmente, queria ser paga. Uma das minhas irmãs coordena o coral na paróquia próxima e apresenta conferências na quaresma sem receber um centavo… Enquanto isso, quando um padre vem dizer uma missa na nossa instituição, cobra 15 euros.” Durante o Sínodo sobre África, ainda durante o papado de João Paulo II, uma freira reivindicou: “Queremos evangelizar, não lavar as suas meias!”

Mas digo-vos, irmãs, que, pelo menos, nas ruínas nos podemos reencontrar. Kevin Madigan e a irmã Carolyn Osiek realizaram uma investigação em redor dos objectos-testemunhos de mulheres diakonos e mulheres presbíterass no mundo greco-latino, recompilando-os pela primeira vez. No início da obra Mujeres Ordenadas en La Iglesia Primitiva, partilham o espanto com a quantidade de provas com que se depararam. Concluíram que é falsa a suposição de que nunca houve mulheres diacónos no ocidente. Referem que o termo inicial aplicado a este papel não era “diaconiza”, mas “diakonos”, ou seja, não havia uma separação de género. Quando este surge nos documentos dos primeiros anos da Igreja, não diz respeito somente aos homens.

Porém, uma vez desenvolvida a identidade clerical, nos princípios do século III, os documentos canónicos mostram-nos que as pessoas ordenadas do sexo feminino tinham funções distintas, como o baptismo de mulheres, que também incluía a unção do corpo da mulher baptizada, visitas pastorais e ensino religioso a mulheres, acolhimento das mulheres numa assembleia, viagens e representação da Igreja. As Constituições Apostólicas referem estas funções, mas reduzem-nas. Contudo, as autoras acrescentam:

“Pero estas descripciones canonicas no explicitan todas las referencias textuales, como por ejemplo la función de la diaconisa Lampadion en la obra Vida de Macrina, de Gregorio de Nisa, que sin duda fue una especie de lider pero no la superiora de la comunidad monástica (título reservado a Macrina); o la referencia que se hace en Novellae 6,6, de Justiniano, a la aparente participación de hombres y mujeres en ritos sagrados (aporrétoi, sebasmiotata mystéria) y en la administración del bautismo (y no en la asistencia a ellos). (…) Algunos textos canónicos aseguran que en la Edessa de los siglos V y VI las superioras religiosas de las mujeres, que eran diaconisas, Ilevaban a cabo una serie de funciones litúrgicas, (…) hasta el punto de verter el vino v el agua en el caliz en la Eucaristia”.[9]

 No século IV, em Antioquia, como podemos ler em registos de João Crisóstomo, as mulheres diakonos, não tinham de ser celibatárias. Também há documentos que comprovam a existência de mulheres presbíteras, embora sejam em menor quantidade, graças às tentativas conciliares de eliminá-los. Há ainda referência a mulheres episkopos e líderes de igrejas locais.

 

Onde pôr as mulheres que pensam?

Santa Teresa do Menino Jesus. Foto © DR

“Há mulheres cuja estima passou pela construção de uma versão de si, por parte do discurso hegemónico, a partir da ocultação, e quiçá destruição, (ou seja, domesticação) do seu património, nossa herança.” Foto: Santa Teresa do Menino Jesus. Foto © DR

 

Em 1970, Paulo VI proclamou a irmã Santa Teresa como doutora da Igreja, assim como a irmã Santa Catarina de Sena. Foi a primeira vez que este reconhecimento foi atribuído a mulheres. Seguiu-se a irmã Santa Teresa de Liseux, em 1997. Todavia, nos dias em que as celebramos, o ofício litúrgico que é lido é o de virgens, e não o de doutoras. No das segundas lemos: “A boca do justo fala a sabedoria; a sua língua fala do juízo”; “Ele o exaltará acima dos seus companheiros, abrir-lhe-á a boca no meio da assembleia (Sir 15:5); “A boca do justo profere a sabedoria e a sua língua fala sempre com rectidão. Ele traz no coração a lei do seu Deus, por isso os seus passos não vacilam” (Sl 36:30-31). Por sua vez, no ofício das virgens encontramos: “Esta é a virgem sábia e prudente, que, de lâmpada acesa foi ao encontro de Cristo” (Sl 45); “Esta é a virgem sábia, uma das virgens prudentes: foi ao encontro de Cristo com a lâmpada acesa”; “Exultemo-nos de alegria no Senhor, que chamou ao seu amor divino esta virgem santa e gloriosa”; “Vem, esposa de Cristo, recebe a coroa de glória, que o Senhor te preparou para sempre”; “os jovens e as donzelas, os velhos e as crianças! Louvem todos o nome do SENHOR, pois só o seu nome é sublime e a sua glória está acima do céu e da terra” (SL 148:12-13). Na sua análise, a irmã Teresa Forcades repara: “Boca, sabedoria, língua, direito, assembleia, palavras, inteligência, honra, o que é recto, coração e lei são as palavras e expressões associadas aos doutores (homens). Ser protegida, ser olhada, ser acompanhada, não sucumbir, ser sensata, ser prudente, sair para receber Cristo, manter a lâmpada acesa, ser celebrada, ser amada, santidade, glória, esposa de Cristo, coroa e louvor a Deus são as palavras e expressões associadas às virgens (mulheres)”.[10]

Há mulheres cuja estima passou pela construção de uma versão de si, por parte do discurso hegemónico, a partir da ocultação, e quiçá destruição, (ou seja, domesticação) do seu património, nossa herança. É o caso da irmã Santa Teresa de Jesus, cuja obra Caminho de Perfeição foi censurada, tendo desaparecido de algumas edições a passagem crítica, à qual pertence o seguinte excerto: “Não basta, Senhor, que o mundo nos tenha encurraladas… que não façamos coisa alguma de valor por Vós em público, nem ousemos dizer algumas verdades que choramos em segredo, senão que deixaríeis de ouvir súplica tão justa. Não creio eu, Senhor, da vossa bondade e justiça, porque sois justo juiz e não como os juízes deste mundo, que – como são filhos de Adão e todos são homens – não há virtude de mulher que não julguem ser suspeitosa.”[11]

A irmã Santa Teresa de Ávila reconheceu que a estrutura social, cultural e religiosa, destina as mulheres ao contexto privado, dificultando-lhes o acesso ao contexto público, e que tal é imoral, pois é um desrespeito pela vontade divina, expressa através dos seus dons e inclinações naturais.

Por responsabilidade dos donos da verdade, perdemos parte de quem somos. Várias mulheres queimaram os seus textos, os seus frutos, pois o que geraram não foram filhos. Foi o caso da irmã Santa Teresa, também, por ordem do seu confessor, assim como de uma das suas discípulas, a irmã Marcela de São Félix. Para além da censura, muitas mulheres teólogas foram perseguidas e presas. A este propósito, escrevera e decidira a irmã Ana de São Bartolomeu, em Obras Completas: “A los demás Padres no les digo yo nada, que ellos se quieren más unos a otros que a nosotras. […] Ésta quémela, no la vea nadie […] estas cosas [son] para nosotras solo.”[12]

Com o mesmo sentido, a irmã prioreza Maria de São José, em Libro de Recreaciones, afirma:“Que también a ellas les toca, como a los hombres, haver memoria de las virtudes y buenas obras de sus madres y maestras, en cosas que sólo ellas que las comunican pueden saber, y forzosamente ocultas a ellos […] que si las escribiesen los hombres, porque en caso de escribir y tratar de valor y virtud de mujeres, solemos tenerlos por sospechosos, y a las veces nos harán daño.”[13]

 

Se, do falo, a fala, a justiça falha

freiras religiosas abusos foto c hemera

“Estas mulheres são consideradas parceiras “seguras” para os padres, não só no que diz respeito ao risco de contrair alguma doença, mas também de preservação da sua imagem, pois a própria estrutura está construída pela culpa e vergonha, e por isso, silêncio e silenciamento.” Gravura: Freiras religiosas abusos. © C. Hemera

 

Como, companheiras, podemos sentir-nos em casa, quando, tal como nas ruas, nos bares, nas faculdades, nos trabalhos, quem pratica a violência sobre nós sai impune? Como eles enchem a boca de um amor e de uma paz abstractos e encobrem crimes, sendo que o encobrimento é, já por si, incentivo a que um comportamento se perpetue? Quem julga? Quantas vezes falamos, no seio das comunidades cristãs, sobre os abusos sexuais praticados por padres, fazendo também as freiras parte das vítimas? Se estes crimes são encobertos, como podemos sentir que a Igreja luta ao nosso lado pela justiça, pela legitimidade e credibilidade das nossas vozes?

Francisco reconheceu publicamente, em 2019, pela primeira vez, que o abuso  sexual de freiras, praticado por padres, é uma realidade na Igreja Católica, falando mesmo de “escravidão sexual”, apesar de, em 1994, uma médica e missionária irlandesa, a irmã Maura O’Donoghue, já ter enviado, para o Vaticano, o estudo que realizou, o mais abrangente até aos nossos dias, com provas da ocorrência destes crimes, recolhidas ao longo de seis anos, em mais de vinte países, enquanto trabalhava na Catholic Agency for Overseas Development – CAFOD, onde acompanhava casos de pessoas com HIV. Neste processo, tomou conhecimento de 29 freiras que haviam sido engravidadas numa única congregação. Estas mulheres são consideradas parceiras “seguras” para os padres, não só no que diz respeito ao risco de contrair alguma doença, mas também de preservação da sua imagem, pois a própria estrutura está construída pela culpa e vergonha, e por isso, silêncio e silenciamento.

Também a irmã Marie McDonald, missionária de Nossa Senhora de África, em “Problems Facing Religious Congregations”, reportou este problema aos bispos do Comité Permanente do Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar – SCEAM, baseando-se em relatórios provenientes de congregações africanas. A recepção com que contou foi o descontentamento destes com o facto de as irmãs terem enviado o documento para fora da diocese, considerando-o um acto de deslealdade. Na verdade, já haviam colocado o bispo a par, mas sem efeito. Outra questão aqui, para além da manutenção de uma imagem de pureza e perfeição podre, custe o que custe, está também a da validade da palavra das mulheres. “Mas ser levada a sério é muitas vezes o obstáculo mais difícil para as irmãs que são abusadas sexualmente”, partilhou Demasure, ex-diretor executivo do Centro de Protecção à Criança da Igreja na Pontifícia Universidade Gregoriana (principal grupo de reflexão da Igreja sobre o assunto), à Associated Press.

Por toda a Índia, freiras relataram à Associated Press, serem apalpadas e beijadas, pressionadas para ter relações sexuais com padres que acreditavam ser representantes de Cristo, e que lhes invadiam os quartos. Uma freira, de 44 anos de idade, apresentou uma queixa à polícia, contra o bispo que supervisiona a sua ordem, acusando-o de violá-la 13 vezes ao longo de dois anos. Um grupo de freiras lançou um protesto público para exigir a sua prisão. Com o que estas mulheres contaram a seguir, por parte da comunidade? “Algumas pessoas acusam-nos de trabalhar contra a igreja”, conta a irmã Josephine Villoonnickal. “Elas dizem: ‘Está a adorar Satanás’. Mas precisamos de defender a verdade.” Quando há alguma resposta a estes casos, esta consiste na transferência do padre para uma nova paróquia.

A irmã Nicole Winfield, correspondente do Vaticano da mesma agência, realizou uma investigação, onde documentou esta realidade nos vários continentes, embora seja mais frequente nos países do sul global. Escutou mulheres que relataram terem sido engravidadas e pagas para abortar, por parte dos próprios abusadores, outras que, ao prosseguir com a gravidez, foram expulsas da congregação, outras que contraíram HIV… Muitas das denúncias foram ignoradas. Foi o caso da ex-freira, a irmã Doris Wagner, que continuou a encontrar a mesma realidade quotidianamente, porque a sua voz não entrava nela, como conta à NPR: Ele estava a pregar na capela. Ele estava a dar-me a sagrada comunhão. Ele estava sentado no pequeno almoço, no almoço e no jantar, na mesma mesa. Eu estava a passar as suas camisas. Se Francisco reconhece esta realidade e deseja agir sobre ela, Doris refere que o tema do aborto, decorrente destes crimes continua a ser ocultado: “E nunca ouvimos um papa ou bispo reconhecer o aborto forçado pelas mãos de padres. Eles tratam sempre o aborto como uma questão feminina, mas nunca falaram sobre padres que forçam o aborto, apesar de saberem que isso está a acontecer”.  Neste sentido, a irmã Doris, durante uma conferência de imprensa organizada pelo grupo responsável pela biblioteca pública que partilha informações sobre a crise dos abusos do clero católico, BishopAccountability.org, propôs que houvesse uma reserva de dinheiro obrigatória, por parte das congregações femininas, para apoiar as irmãs que saem destas. Até que isso aconteça, defende que deveria ser criado um fundo central da Igreja para esse fim, assim como para as crianças cujos pais são padres e que acabam por levar “uma vida de pobreza e vergonha”. É ainda importante ter em conta que muitas mulheres que regressam à vida laicizada não tem formação nem experiência profissional, e que, algumas viveram isoladas durante anos, pelo que a sua rede de apoio é bastante reduzida, ou mesmo nula. É obvio que estas circunstâncias dificultarão ainda mais o acesso a uma vida com condições dignas.

Se, em 2005, durante o papado de Bento XVI, a Comunidade de St Jean foi dissolvida, o seu fundador, o padre dominicano Marie-Dominique Philippe, ao comentar o que acontecera e conduzira a esta decisão, afirma que alguns elementos desta haviam “cometidos actos contrários à castidade com várias mulheres adultas”, assim como consagradas, lemos numa reportagem da Catholic News Service. Ora, o não consentimento das mulheres para ter relações sexuais parece não ser o principal problema. Aliás, as mulheres não são o centro de nada. A gravidade, aqui, é o incumprimento do voto de castidade.

 

Mulheres de todas as religiões, uni-vos!

Mulheres no Vaticano. DVA

“Por vezes sentimo-nos como se fôssemos consideradas estagiárias. Há pequenos gestos, uma mão no ombro, uma falta de consideração, observações quase diárias sobre a aparência e o vestuário”, comenta uma das associadas. Foto © Donne in Vaticano (D.VA)

 

Somos radicais e histéricas se não aceitamos as múltiplas opressões?

Na raiz do Cristianismo está a revolta, a revolta de deus perante a escravização de um povo.

Parece tão pouco cristão falar da raiva. Talvez porque a raiva, nas palavras da irmã Audre Lorde, quando “expressada e traduzida em acção, ao serviço da nossa visão e do nosso futuro é um acto de elucidação libertador e fortalecedor”. Para sobreviver, tivemos, e temos, de reprimir a raiva, de bloquear qualquer espaço onde pudesse surgir. A raiva é um perigo para o sistema. A moral faz com que a confundamos com o ódio, quando é o próprio sistema que gera e se alimenta deste, através do machismo, o racismo, lgbtqia+ fobia, a xenofobia… A irmã Audre Lorde diz-nos também que “o ódio é a fúria de quem não partilha dos nossos objectivos, e o seu fim é a morte e a destruição. A raiva é um luto de distorções entre pares, e o seu fim é a mudança.”[14]

Não, a Igreja não é mãe. Nem todxs somos filhxs. Um homem branco cisgénero heterossexual sente-se seguro nela, sente-se olhado, acolhido, escutado, tido em conta nas decisões. Uma mulher negra trans migrante nem sequer lá está. E se, no máximo, uma mulher negra migrante está, como está?

Apenas agora, com o Francisco, a Igreja acha que temos alguma coisa a dizer. Mas em que condições? Cinco mulheres ocupam o cargo de subsecretária e uma a posição de secretária. As secretárias e subsecretárias são, respectivamente, o segundo e terceiro níveis de gestão na maioria dos órgãos da Cúria. Francisco foi o primeiro Papa a nomeá-las para estes lugares. Todavia, representam menos de 5% de todas as funções directivas na Cúria. Mulheres foram chamadas para fazer parte do Sínodo, pela primeira vez. Mas foram 54, num total de 363. A taxa de votação feminina foi de 15%. É um começo, dizem-nos… Mas é sempre “um começo…”. Falamos do ritmo lento da Igreja, como se se tratasse de uma entidade abstracta, como se não fosse feita por pessoas. Consideramos que um ritmo lento nos permite um maior discernimento para tomar decisões. Todavia, uma coisa é a vivência desse ritmo lento para quem se encontra numa posição de privilégio, outra é para quem se encontra num lugar difícil e injusto de habitar. O ritmo lento é uma desculpa dos poderosos, para adiar o fim do seu mundo.

Em 2016, trabalhadoras do Vaticano criaram a associação Donne in Vaticano, constituída por 100 mulheres, que se reúnem mensalmente, com o intuito de colectivizar e criar visibilidade para as mulheres católicas dentro da estrutura. No seu site, contam-nos: “Os primeiros encontros, na casa de uma ou de outra, geralmente na hora do jantar e, entre uma sanduíche e outra, muitas ideias e projectos, com um único objectivo: conhecermo-nos e criarmos uma rede de amizades entre todas as mulheres empregadas no Vaticano para reforçar a nossa presença, o que não é irrelevante dado que representamos cerca de 21% do total de colaboradores. (…) Foram necessários quatro anos, cerca de trinta versões e rascunhos, diversas trocas de cartas dirigidas à Secretaria de Estado, ao Governatorato, à ULSA e a outros gabinetes. Um longo processo, por etapas, repleto de sugestões, modificações, esclarecimentos, mas também de apoio e apreço pela iniciativa, até que, com a ajuda e aconselhamento, também de alguns homens especialistas em matéria jurídica, o Estatuto tomou a sua forma final e recebeu aprovação oficial.” Numa entrevista à Contacto, partilham a condescendência e o paternalismo que sentem por parte do clero que frequenta o Vaticano. “Por vezes sentimo-nos como se fôssemos consideradas estagiárias. Há pequenos gestos, uma mão no ombro, uma falta de consideração, observações quase diárias sobre a aparência e o vestuário”, comenta uma das associadas.

Precisamos de nos unir, companheiras, nunca esquecendo os diferentes lugares de onde cada uma parte. Se todas sofremos com o machismo, nem todas somos atravessadas pela pobreza, pela lgbtqia+fobia, pelo racismo… Quanto mais perto dxs últimxs estivermos, mais o púlpito deve ser nosso. A imagem de Maria tem sido domesticada, para se dar alguma importância a mais de metade da humanidade, e das pessoas servidoras de base da Igreja (mas simultaneamente direccionar o seu culto para um conjunto de características muito restritas que garantem que a ordem se mantenha). Esta mulher, ainda grávida, anunciou o que seria este Jesus que não separou o político e social do espiritual. Ele apresentando-nos o seu caminho como uma forma de estar no mundo: “Manifestou o poder do seu braço/ e dispersou os soberbos./ Derrubou os poderosos de seus tronos/ e exaltou os humildes./ Aos famintos encheu de bens/ e aos ricos despediu de mãos vazias” (Lucas 1:46-55). Se isto não é um manifesto…

Se acreditamos na Ressurreição e procuramos evocar esta crença e intuição, porque é que, ao olharmos as outras pessoas, nem sempre nos lembramos que a verdade última é a de que “não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todes são uma unidade em Cristo Jesus” (Gál 3:28)?

É claro que esta forma de habitar não se limitaria a incluir, de forma igualitária, as mulheres na estrutura, mas em revolucioná-la.

Sempre estamos tarde demais, e todavia… Não podemos recuperar as que arderam nos adros das Igrejas, mas podemos anunciar que esse incêndio ainda nos permite ver no escuro. Jesus passou, mas, simultaneamente, está por vir, quiçá não sendo homem, nem falando de um Deus Senhor Rei Todo Poderoso, que pintamos de branco. Talvez seja uma periférica, uma mulher negra migrante trans… Reconheceríamos quem dizemos amar e seguir?

 

[1] Carta enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 19: AAS 73 (1981), 627.
[2] Fragmentos em Gredo do Evangelho de Maria, Evangelhos Apócrifos Gregos e Latinos, Tradução e comentários de Frederico Lourenço, Quetzal, Lisboa, 2022, p. 477 – 471
[3] Pio XII, Audiência às Participantes no Congresso Feminino Internacional da Acção Católica, 15.04.1939, OR 90 1.
[4] João Paulo II, Christifidelis Laici, nº50, AAS 81 (1989) 490.
[5] Cf. Pio XII., Audiência Geral, 24.02.1942, OR 47 (26 de Fevereiro 1942) 1: “(…) uma verdade antiga e sempre nova, radicada na própria situação física da vida da mulher.”
[6] João Paulo II, Mulieris Dignitatem, n.30, AAS 80 (1988) 1726.
[7] Sacra Congretation Pro Doctrina Fidei: Declaratio De abortu procurato, nº15, AAS 66 (1974) 740.
[8] Pio XII, Casti Connubi (1930), DH 3708
[9] Carolinyn Osiek e Kevin Madigan, «3. Mujeres Diaconos en la Iglesia Oriental, Textos literários, referencias, literárias, inscripciones», Mujeres Ordenadas en La Iglesia Primitiva, una historia documentada, Aletheia, evd, 2006, p.27
[10] Teresa Forcades I Vila, «VII – Santa Teresa de Jesus e a Escola Teresiana», A Teologia Feminista na História, Presente, Lisboa, 2013, p.55
[11] Ibid., p.33
[12] Ibid., p.57
[13] Ibid., p.58
[14] Audre Lorde, Os usos da raiva: as mulheres respondem ao racismo, A Irmã Marginal, Orfeu Negro, Lisboa, 2023, p.201.

 

Raquel Luís descreve-se como feminista e anti-capitalista. Demora-se em poemas, abraços e perguntas.

 

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