[domingo xix do tempo comum ― c ― 2025
1º. dia da semana nacional da mobilidade humana]
1. Coragem. Solidariedade. Esperança.
Cantar. Libertar. Testemunhar. Vigiar.
Pátria celeste. Estrangeiros e peregrinos. Pequenino rebanho.
Tesouro. Coração. Lâmpadas.
Enunciadas assim, estas palavras parecem uma nuvem
formada desde as leituras ouvidas em silêncio.
Protegendo e conduzindo-nos enquanto povo estrangeiro,
Deus fecunda-nos com a sombra-neblina da sua Palavra.
Prossigamos, então, não a pé, mas de etapa em etapa,
como na volta a Portugal em bicicleta.

[Não podemos encostar a bicicleta! © fotografia: Joaquim Félix]
2. Durante o verão, temos a perceção de que o nosso país
― como outros, aliás ― é uma casa-de-povos.
Nas ruas ou viajando através das estradas
cruzamo-nos com turistas, nacionais e estrangeiros;
emigrantes, que anualmente visitam as famílias;
e estrangeiros a trabalhar em muitos setores.
Há populações que duplicam e até quadruplicam.
E, como é natural, proporcionam desafios maiores,
desde logo na resposta dos cuidados hospitalares
e nos serviços de hotelaria e restauração.

[Migrante em Itália. Também Portugal é casa-de-povos! © fotografia: Joaquim Félix]
3. Portugal acolhe de braços abertos os seus emigrantes.
É reconfortante o carinho de certas comunidades
que lhes dedicam convívios ou reservam, para esta altura,
a festa maior da paróquia para que nela possam participar.
O contacto com as raízes confere estabilidade e paz,
inclusive em termos psicológicos,
pois dá consistência antropológica à identidade.
4. Os povos dispõem de belos cancioneiros do regresso.
Muito justamente, os emigrantes desejam ser reconhecidos,
nem que seja por cicatrizes de antigas feridas que já não doem.
Não foi assim que Euricleia, a ama, reconheceu o regressado Ulisses,
ao lavar-lhe os pés, vendo a cicatriz causada por um javali?
Entre nós, quem não recorda, desde meados dos anos 80 do século XX,
as «Festas dos emigrantes» com a participação
do grupo de música tradicional Colheita Alegre?

[Migrante em Itália. Os povos dispõem de belos cancioneiros do regresso. © fotografia: Joaquim Félix]
5. Gostaria de apresentar-vos uma cantora, Arpi Alto,
originária da Arménia, mas a viver no estrangeiro.
É conhecida por interpretar os temas míticos do mundo da música,
inclusive das canções da Bossa Nova, do Brasil.
Em 2021, lançou um álbum muito singular com nove canções,
o qual intitulou «Minha alma nas montanhas».
Nele, Arpi combina a riqueza da música folclórica arménia e jazz.
Os ritmos étnicos ancestrais entrelaçam-se com o jazz clássico.
Anahit Ter Petrosyan, sua mãe, fez os arranjos e acompanha-a ao piano.
A propósito deste álbum e de quem o ouvir, disse Arpi:
«Minha alma nas montanhas levá-lo-á para a Arménia,
minha casa nas montanhas e lugar onde me sinto em paz».
Quem dera pudésseis ouvir, mesmo se em arménio,
as nove canções ou, pelo menos, Hamayak ou Sareri Hovin Mernem,
cujas letras facilmente se encontram na internet.
6. Na Faculdade de Teologia falo dela aos alunos,
quando estudamos as anáforas (orações eucarísticas) da liturgia arménia.
E, claro, refiro-me também à beleza delas, das orações e de Arpi Alto.
Apresento-a para salientar que, quando cantamos as nossas raízes,
ou a elas regressamos, desde a condição de estrangeiros no mundo,
enchemo-nos de coragem para avançar no caminho da vida (cf. Sab 18,6).
É verdade, e com um ânimo tal
que somos estimulados a estabelecer como que uma lei divina:
sermos solidários tanto nos bens quanto nos perigos (cf. Sab 18,9).
Sempre que isto acontece, como o povo de Deus na sua travessia,
começamos a cantar os hinos e as canções dos antepassados.

[Jovens (parte) do grupo DESPERTAR, da paróquia de Fragoso. © fotografia: Elisa Cruz]
7. Sei que os jovens do grupo Despertar, desta paróquia,
têm interpretado alguns temas do grupo Colheita Alegre.
Dirijo-me a vós, não só para vos entusiasmar a cantar tais canções,
mas também para que possais pensar sobre um importante desafio.
Qual? Dar continuidade ao que praticastes, de forma corajosa e solidária,
no tempo do Natal, visitando os estrageiros a viver na comunidade.
Visitastes migrantes de quatro países: Brasil, Peru, Cabo Verde e Angola.
Agora, sugeria-vos que desenvolvesses, com o apoio da paróquia,
um projeto bem fundamentado que visasse a sua melhor integração
e a promoção dos seus dons ao serviço da comunidade.
Estou persuadido de que o projeto poderia ser apoiado financeiramente
pela Fundação Jornada, há dias apresentada, em Lisboa,
por Marta Figueiredo e D. Alexandre Palma.
8. Hoje é o 1º. Dia da Semana Nacional da Mobilidade Humana.
Eugénia Costa Quaresma, da Obra Católica Portuguesa de Migrações,
escreveu uma Nota na qual nos convida a ler a Mensagem do Papa
e a revisitar e partilhar os vídeos produzidos
pela secção migrantes e refugiados
do Dicastério para o desenvolvimento humano integral.
Nela enuncia vários desafios que poderiam fazer parte do projeto.
Leio apenas três das questões que ela coloca:
«Como ajudar os migrantes a tomarem consciência
de que são missionários de esperança nos países que os acolhem?
Como acompanhar a Fé em terra estrangeira, entre diversos povos?
Como têm sido acolhidas nas comunidades as orientações
para uma pastoral intercultural?».
Posso ajudar-vos, até porque, na comunidade onde vivo,
também há estrangeiros de Cabo Verde, de Moçambique e da Roménia.
Ao Victor e à sua esposa, Marinela, funcionários do Seminário Conciliar,
além de condições dignas de trabalho e salário, e bom ambiente,
gostaria de dedicar-lhes o discurso que Ana Blandiana, também romena,
proferiu na cerimónia de entrega dos Prémios Princesa de Asturias.
9. Na presente situação mundial,
com o aumento da mobilidade humana por causa das guerras,
não podemos abandonar a nossa bicicleta-da-fé,
nem podemos andar nela, na bicicleta, como Renato Amoroso,
que, no filme Malèna, do cineasta italiano Giuseppe Tornatore,
passava os dias da sua adolescência, com os seus colegas,
a seguir Malèna, a lindíssima mulher de um soldado
que tinha sido enviado para a II Guerra Mundial.
As nossas músicas não são para serem lançadas ao mar,
tão-pouco as cartas de amor pela fraternidade humana.
10. Como ouvimos, «a fé é a garantia dos bens que se esperam
e a certeza das realidades que não se veem» (Hebr 11,1).
Se «ela valeu aos antigos um bom testemunho» (Hebr 11,2),
a Abraão e a Sara, e a tantos outros crentes,
porque não há de valer-nos palavras e gestos que geram credibilidade?
Por ela, a fé, não havemos de confessar que também somos
«estrangeiros e peregrinos sobre a terra»? (Hebr 11,13).
Sim, neste mundo, onde quer que nos encontremos,
somos buscadores de uma «pátria melhor», a celestial (Hebr 11,16).

[Buscadores de uma «pátria melhor», a celestial. Sky Mirror, 2015, Anish Kapoor. Piazza Mignanelli, Roma © fotografia: Joaquim Félix]
Se tivéssemos consciência da condição passageira na pátria terrestre,
por certo que, sem irresponsabilidades, a «Lei dos Estrangeiros»
poderia ser melhorada nalguns aspetos muito sensíveis.
Mais, ninguém ambicionaria ou invadiria territórios de nenhum país,
ao contrário do que sucede, por exemplo, na Ucrânia e na Palestina.

[O ser humano tem dentro de si um coração na forma de navio. Escultura em Pizzo, Calabria, Itália. © fotografia: Joaquim Félix]
11. O ser humano tem dentro de si um coração na forma de navio.
Por isso encontramos rostos estrangeiros em toda a parte.
Se compreendêssemos bem as parábolas de Jesus,
a que hoje ouvimos e a do domingo passado,
― que também são para nós ―,
acolheríamos de bom ânimo as suas palavras iniciais:
«Não temas, pequenino rebanho,
porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino» (Lc 12,32).
Comportando-nos como prudentes e vigilantes administradores,
não faremos dos bens terrenos um tesouro para encalhar o coração.
Nem nos entregaremos ao consumo até à embriaguez,
― como sucede, por exemplo, nas «rotas do álcool» ―,
ou espancaremos os irmãos, estrangeiros ou não.
Tendo isto presente e sabendo que de seguida Deus nos vai servir,
permiti que termine com a pergunta de Jesus:
«Quem é o administrador fiel e prudente
que o Senhor estabelecerá à frente da sua casa,
para dar devidamente a cada um a sua ração de trigo?» (Lc 12,42).

[Não podemos abandonar a nossa bicicleta-da-fé. Bicicleta abandonada no trilho dos Passadiços do Tinhela, Murça. © fotografia: Joaquim Félix]

[Jovens do grupo DESPERTAR em ação, dinamizando o Dia dos Avós. © fotografia: Elisa Cruz]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 10 de agosto, domingo xix do tempo comum ― c ― 2025, 1º. dia da semana nacional da mobilidade humana, proferida pelo padre Joaquim Félix na comunidade paroquial de Fragoso (S. Pedro), Barcelos.










