“O dia de hoje é um marco na História da Igreja [Anglicana], pois o papel de Arcebispo de Cantuária foi dado a uma mulher pela primeira vez nos seus quase 500 anos de História”. Assim anunciava a emissora pública BBC, na manhã desta sexta-feira, 3 de outubro, que Sarah Mullally será a nova arcebispa de Cantuária e líder da Comunhão Anglicana.
Apesar do ceticismo de muitos relativamente à possível escolha de uma mulher para o relevante cargo, a decisão final da Comissão de Nomeações da Coroa foi mesmo a de, ao final de um processo de cerca de 11 meses, nomear a até agora bispa de Londres.
E esta não foi a primeira vez que Sarah Mullally, 63 anos, fez História. Em 1999, com apenas 37 anos, tornou-se a mais jovem diretora de enfermagem de Inglaterra, depois de se ter especializado como enfermeira oncológica. Já na Igreja de Inglaterra, foi a primeira mulher a presidir à ordenação de duas diáconas como presbíteras; em 2020, desempenhou o papel principal como consagrante de dois bispos, um papel que sempre tinha sido desempenhado pelo próprio arcebispo de Cantuária, tendo sido igualmente a primeira vez que uma bispa integrou uma cerimónia de sagração. E quando, em 2018, foi nomeada bispa de Londres, nunca nenhuma mulher antes dela tinha assumido esse cargo.
Tendo assumido a fé criistã aos 16 anos, começou a estudar teologia ainda durante a sua carreira nos serviços de saúde, tendo sido ordenada como diácona em 2001 e como presbítera no ano seguinte. Serviu como ministra a meio tempo, pro bono, durante cinco anos numa localidade ao sul de Londres. Desempenhou vários cargos na Igreja de Inglaterra, até ser ordenada bispa de Crediton, sufragânea da diocese de Exeter, em 2015, de onde foi chamada para Londres.
Segundo o Religion News Center (RNC), Mullally saltou para o plano nacional, quanto à vida da Igreja de Inglaterra, depois de ter sido solicitada a liderar as reformas de proteção e salvaguarda relativas aos abusos no interior das comunidades cristãs. Terá sido uma das vítimas a requerer que fosse uma bispa a assumir essa função, considerando que uma mulher suscitaria mais confiança do que o resto do episcopado dominado por homens.
Nos últimos anos, uma das funções que assumiu foi a de presidir ao órgão que procurava orientar a decisão da Igreja de Inglaterra relativamente à benção de casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Em 2023, descreveu a decisão de finalmente permitir que os padres anglicanos pudessem abençoar esses casais como “um momento de esperança para a Igreja”.
Porém, reconhecendo as profundas divisões que persistem na Comunhão Anglicana sobre o tema, a bispa de Londres disse então: “Sei que o que propusemos como caminho a seguir não vai longe o suficiente para muitos, mas longe demais para outros”. Um dos seus desafios como arcebispa de Cantuária será agora lidar com estas e outras divergências.
“Muitas vezes falhámos em levar a sério o abuso de poder”
Na primeira declaração que publicou após a nomeação, Sarah Mullally afirmou estar consciente de que se trata de “uma responsabilidade enorme”. “Mas encaro-a com uma sensação de paz e confiança de que Deus me levará ao colo, como sempre fez”, partilhou.
“Em cada etapa desta jornada, durante a minha carreira de enfermagem e ministério cristão, aprendi a ouvir atentamente as pessoas e a gentil inspiração de Deus para procurar unir as pessoas e encontrar esperança e cura”, recordou a nova líder da Igreja de Inglaterra. “Quero, muito simplesmente, encorajar a Igreja a continuar a crescer na confiança no Evangelho, a falar do amor que encontramos em Jesus Cristo e a que ele molde as nossas ações”.
Mais tarde, Sarah Mullally discursou na Catedral de Cantuária, onde agradeceu às mulheres que a precederam pelo “apoio e inspiração” e garantiu querer ser “uma pastora que permita que o ministério e a vocação de todos floresçam, seja qual for a tradição”.
Na sua alocução, que pode ser ouvida no vídeo abaixo, a bispa deu particular destaque ao tema dos abusos. “Como Igreja, muitas vezes falhámos em levar a sério o abuso de poder em todas as suas formas”, reconheceu, prometendo que, no seu novo papel, escutará os sobreviventes e os vulneráveis. E apontando: “Todos nós devemos estar dispostos a ter luz sobre as nossas ações, independentemente do nosso papel dentro da Igreja”.
Casada e mãe de dois filhos já adultos, Mullally é a 106ª clériga a assumir o cargo, sucedendo a Justin Welby, que se demitiu na sequência de um escândalo de falhas na proteção de menores [ver 7MARGENS].
Ao cargo de arcebispo de Cantuária estão inerentes diversas funções, desde a de bispo da diocese de Cantuária, Primaz de Toda a Inglaterra e Metropolita, e ainda primus inter pares – ou primeiro entre iguais – dos Primazes da Comunhão Anglicana global, que reúne cerca de 85 milhões de pessoas em 165 países. Na Câmara dos Lordes, o arcebispo de Cantuária é ainda um dos 26 bispos que constitui o grupo de Lordes Espirituais.
O Lorde Jonathan Evans, presidente da Comissão de Nomeações da Coroa, considerou ter sido “um grande privilégio” coordenar este processo de escolha. “O discernimento começou com a consulta pública, que ouviu as vozes de milhares de pessoas expressando as suas esperanças em relação a nomeação, e continuou até à reunião final da Comissão”, sublinhou.
Se o processo da eleição demorou 11 meses, Mullally terá ainda de esperar quase meio ano para assumir as responsabilidades do(s) novo(s) cargo(s). De facto, segundo o protocolo, vai ser necessário que o Cabido dos Cónegos da Catedral de Cantuária assuma que ela é a nova arcebispa, o que deverá ocorrer em dezembro; no mês seguinte, no dia 26, terá lugar na catedral de São Paulo, em Londres, a cerimónia de confirmação, tornando-se aí Sarah Mullaly legalmente arcebispa de Cantuária; finalmente, o ato de ‘instalação’, que marcará o início oficial de funções, já na catedral de Cantuária, só deverá ocorrer em março, em data a definir, não sem antes ela prestar homenagem ao Rei.
Notícia atualizada às 19h41, com as informações relativas ao discurso na Catedral de Cantuária e os pormenores do ato de instalação.










