
Ruínas do Mosteiro de Clonmacnoise, no centro da Irlanda: os casos de abusos provocaram uma forte perda de influência da Igreja Católica irlandesa. Foto © António Marujo/7MARGENS
O Ministério da Educação da República da Irlanda anunciou ao fim da tarde de dia 3 de setembro a constituição de uma comissão de investigação sobre os abusos sexuais praticados em escolas católicas.
A decisão surge como resposta às 2.395 acusações de abuso sexual, envolvendo 884 supostos abusadores em 308 escolas, referidas num relatório preliminar terminado este mês.
O relatório cobre os anos entre 1927 e 2013 e a maioria das alegações retidas foram relatadas a partir dos registos de 42 ordens religiosas que dirigiam, ou dirigem ainda hoje, estabelecimentos escolares (incluindo internatos) na Irlanda.
A equipa que redigiu o relatório preliminar organizou um processo de escuta das vítimas que foram também convidadas a partilhar as suas opiniões sobre uma resposta adequada do Estado. As que responderam a este convite relataram experiências de abuso sexual em escolas primárias, pós-primárias e escolas de educação especial geridas por ordens religiosas.
A ministra da Educação, Norma Foley, qualificou o relatório como “um documento angustiante, contendo relatos terríveis de abuso sexual”, acrescentando: “A escala e o horror daquilo que as pessoas descreveram nas suas entrevistas são chocantes e o impacto duradouro nas vidas desses sobreviventes nunca poderá ser exagerado. Fiquei profundamente comovida pela coragem, determinação e abertura de todos aqueles que se dispuseram a partilhar as suas experiências.”
O organismo que representa as ordens religiosas católicas na Irlanda pediu desculpas públicas, reafirmando que “lamenta profundamente” que estudantes possam ter sido vítimas de violência sexual nos seus estabelecimentos e prometeu “total cooperação” com a comissão de investigação que vier a ser nomeada.
Casos isolados de abusos sexuais perpetrados por clérigos católicos começaram a vir a público na Irlanda nos últimos anos da década de oitenta do século passado, mas nos anos noventa uma série de investigações públicas revelaram centenas de novos casos. Em agosto de 2018, notícias apontavam para que mais de 1.300 católicos tinham sido acusados de abuso sexual, tendo 82 responsáveis da Igreja sido, até então, condenados.
Este crescendo de denúncias levou inclusive o Papa Bento XVI a escrever, em março de 2010, uma carta pastoral pedindo desculpa pelos crimes cometidos no seio da Igreja Católica na Irlanda. Contudo, o choque público destas revelações teve consequências devastadores na Igreja e na consideração pública de que gozou durante séculos, contribuindo para reduzir a sua influência, acelerar a secularização da sociedade. O escândalo terá ainda contribuído para a aprovação da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo e do aborto, em referendos que tiveram lugar, respetivamente, em 2015 e 2018.










