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Despedida. Paliativos
"Quem muito ama jamais morre." Foto © Freepick

[Dicionário particular]

“h” de helena e de hora

| 23/04/2025

 

Chamava-se Helena e era a minha mãe, aliás, ainda é a minha mãe: as mães vivem para sempre no coração dos filhos, são eternas porque muito amam, e quem muito ama jamais morre, pois, o Amor tem o poder de eternizar. Partiu na sua grande viagem há sete anos, no ano em que faria os seus 88 anos, viajou no primeiro dia do mês de fevereiro, na mesma estação do ano em que nasceu, em pleno inverno.

Talvez por ser proveniente de uma família católica, tradicional, mas com muita tendência para o matriarcado – ao que sei, as mulheres da minha família eram independentes, estudaram, trabalhavam, organizavam a casa, a vida, os filhos e os maridos – talvez por isso a minha mãe era metódica, organizada e tinha uma memória incrível, tudo aquilo que eu não sou nem tenho, lamentavelmente, devo ter “puxado” a outro lado qualquer da família.  Valorizava a pontualidade, não apenas nos seus compromissos diários, mas também nas ocasiões especiais, e desesperava com os meus habituais atrasos e esta minha noção, ou a falta dela, de que o tempo tem mais tempo do que aquele que o tempo tem.

Para a minha mãe cada instante era precioso, dormia muito pouco, sei que acreditava que a vida era uma dança entre o tempo e as escolhas que foi fazendo, e a hora da morte seria um momento especial, de união com o sagrado, para o qual deveria estar preparada, pronta para se despedir, pois a pontualidade na hora da morte poderia ser um sinal de respeito para consigo mesma e para com aqueles que ficam.

Helena, minha mãe, era uma força da natureza, emocionalmente muito inteligente, benfiquista ferrenha, gostava de ver futebol e ouvia os relatos ao domingo à tarde, num pequeno transístor que ficava em cima do frigorífico. Gostava de tourada e de filmes românticos, viveu sempre atenta e aberta ao mundo, aos outros e ao tempo que ia passando sem dar tréguas, sem abrandar o ritmo, sabia que a vida era um sopro e que a hora da morte chegaria e era uma certeza.

A minha mãe fez questão de planear a sua partida ao detalhe, quer ao nível das questões burocráticas e legais, quer nos pequenos pormenores. Tenho a certeza que não falhou nada e como sabia que eu era distraída, repetiu-me as indicações vezes sem conta, para que não me esquecesse e algum aspeto falhasse. Tenho a certeza que não deixou nada por dizer, partiu sem bagagem, sem peso, sem qualquer tipo de arrependimento, hesitação ou rancor, até porque com ela não havia perguntas sem resposta. Tentou, com todas as forças e ânimo, combater uma doença oncológica. Sempre lúcida, consciente, preocupada com todos os que iriam ficar.  Certamente com pena de não poder continuar a sua viagem terrena, Helena estava pronta e esperava “que Jesus a viesse buscar”. Partiu acompanhada pelas duas mulheres mais importantes da sua vida, a filha e a neta, fechou os olhos na certeza de que a missão estava cumprida.

Estou hoje convicta de que a sua partida foi um reflexo da forma como viveu: cheia de amor, de alegria, de sorrisos e gratidão por tudo o que lhe foi permitido viver e partilhar com aqueles que eram o seu lugar favorito para estar. A pontualidade na hora da morte, para ela, foi a certeza de que havia vivido cada dia como deveria ser: sempre na intensidade de se dar, de se dar ao Amor e aos outros.

A minha mãe, Helena, partiu há 7 anos, no primeiro dia do mês de fevereiro, pontualmente às 20 horas, respeitando o limite horário para as visitas se retirarem da unidade de cuidados paliativos em que se encontrava, e isso diz muito sobre quem foi e da forma como viveu.

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

 

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