
Presépio da Igreja Metodista Unida (IMU) em Claremont, na Califórnia (EUA): “Já não havia mais portas onde se pudesse bater.” © Foto reproduzida da página da Igreja na internet.
Era uma vez uma noite fria de Dezembro. Uma noite alta, negra e fria, muito, muito fria. A povoação dormia, silenciosa e aconchegada. Nas ruas desertas, apenas uma jumentinha que carregava uma mulher muito jovem e muito bonita. À arreata, um varão de respeitáveis barbas negras.
A mulher gemia, aflita, porque o filho que trazia no ventre decidira nascer naquela povoação, naquela noite alta, negra e fria, muito fria, de Dezembro. O grupo calcorreou todas as ruas. O homem bateu a todas as portas, pedindo pousada, nem que fosse por uma só noite. Ou não abriam ou diziam que não tinham lugar, que tivessem paciência. Já saíam da povoação e já não havia mais portas onde se pudesse bater. E foi então que viram uma cabana onde costumavam acoitar-se alguns animais.
Aí quedaram e aí entraram. Havia muito feno e palha e o bafo dos animais irradiava imenso calor.
O homem ajudou a mulher a deitar-se num canto, bem no interior, onde o feno era mais fofo. Uma vaca e um burrinho, ali bem perto, deram um jeito e a mulher deitou-se. Dali a instantes, toda a cabana se enchia com o choro forte e saudável do Menino que nascia. A Mãe elevou-o nos braços e embrulhou-o no seu próprio manto, que outra coisa não tinha e deitou-o na tosca manjedoura onde os animais comiam.
A vaca e o burrinho, com o espanto nos grandes olhos, não paravam de fitar o Menino. Depois, levantaram-se e colocaram-se ao lado dEle, bafejando-O. Também a jumentinha que os transportara e que, cerimoniosamente, ficara à entrada, decidiu ajudar. Aproximou-se da manjedoura e bafejou com amor aquele Menino. O homem e a mulher ajoelharam diante dele. Só eles sabiam que tinha acabado de nascer o Salvador do Mundo.
Depois, um dia, foram viver para uma terra chamada Nazaré. Ao Menino foi posto o nome de Jesus. O homem era carpinteiro e durante muitos anos, pai e filho, com a mãe Maria, foram uma família muito feliz.
O Menino brincava com os outros meninos da sua idade, mas desde cedo demonstrou uma sensibilidade fora do comum e uma enorme atenção para tudo que fosse pequenino e frágil. Reporta-se a esta época o episódio narrado no ternurento poema do pedagogo e poeta, João de Deus, chamado Hino de Amor e que eu sei de memória, desde aquela longínqua infância dos meus tempos de menina: “Andava um dia/em pequenino/nos arredores de Nazaré/em companhia/ de São José/ o bom Jesus/ o Deus Menino…” Não vou encher papel com ele, pois toda a gente o conhece.
Este Menino cresceu, fez-se homem e o seu braço forte ajudava o pai na carpintaria. Viviam humildemente, mas, como já disse, muito felizes. Tinham o quanto baste em bens materiais e os bens espirituais eram derramados sobre eles de uma forma constante e abundante.
E um dia, este Menino que se tinha feito homem, aparentemente igual a todos os homens, abandonou a carpintaria, despediu-se dos seus e fez-se ao Mundo, pois para isso tinha nascido. Andou muito, de terra em terra, de vale em serra, calcorreando cidades, aldeias e montes. Tal como fizera seu pai, naquela longínqua noite fria de Dezembro, bateu Ele agora a todas as portas.
“Vai, vende o que tens e segue-me, se queres entrar no Reino dos Céus”.
“Deixai tudo e segui-me. Eu sou o Bom Pastor e vós sereis as minhas ovelhas.”
“Eu venho mandado por meu Pai. Tudo quanto vos digo é por ordem dEle.”
“Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a vós mesmos.”
“Amai-vos uns aos outros, como eu e o meu Pai vos amamos.”
“Dai, dai aos pobres, porque, quem dá aos pobres, terá um lugar no Céu.”
“Tudo quanto fizerdes em meu nome, é a mim que o fareis.”
“Eu sou o Amor, a Verdade e a Vida.”
“Eu sou o vosso Rei, o Messias prometido pelo Baptista, mas o meu Reino não é deste Mundo.”
“Em verdade, em verdade vos digo: todos os reinos perecerão, só o Reino dos Céus permanecerá para sempre.”
“Vinde, vinde comigo, deixai vossas redes e vossos barcos à deriva. Outros pescarão peixes no vosso lugar. De vós, eu farei pescadores de homens.”
“Pregai aos homens o que vos digo. Levai-os ao arrependimento e perdoai-lhes os pecados. Em verdade vos digo que aqueles a quem os perdoardes, serão perdoados e aqueles a quem os retiverdes, serão retidos.”
“Pregai todas as virtudes, mas não esqueçais a caridade. Sem ela, nunca entrareis no Reino dos Céus.”
E este Homem, este Rei, este Deus, assim foi pregando. Pelos caminhos, pelas praias, pelos campos, pelos montes, pelos vales, pelas fontes, mares, rios e desertos. Juntava-se sempre grande multidão a ouvi-Lo, mas muitas eram as portas e os ouvidos que se Lhe fechavam. E muitos conspiravam contra Ele:” Diz que é Rei, diz que é filho de Deus, cura pessoas ao sábado, viola as sagradas leis. É um amotinador, um fomentador de rebeliões, deverá ser silenciado antes que nos desacredite.”
E Anás e Caifás e Pilatos não quiseram a responsabilidade do sangue deste Homem, mas consentiram na sua morte. Aceitaram-na, satisfeitos por se livrarem dEle.
E quando chegou a hora, colocaram-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos, pregaram-No numa Cruz, no alto da qual, apenas por escárnio, mandaram que se escrevesse: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus.”
Mas do alto da Cruz, este Homem clamou aos Céus: “Pai, perdoa-lhes, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem!” E depois, expirou.
Ressuscitou ao terceiro dia, como estava escrito nos livros sagrados. Subiu aos Céus em corpo e alma e em corpo e alma, três dias depois, apareceu aos discípulos. E em corpo e alma, continua este Homem de porta em porta, pedindo abrigo. E sempre, sempre, tantas portas se lhe fecham! E Jesus, o doce Jesus, sempre intercedendo por nós, vai clamando: “Perdoa-lhes Pai, não é por mal, não sabem o que fazem. Sê misericordioso, Pai. São todos teus filhos e meus irmãos. Deixa-me continuar a tentar, Pai, não os julgues já.”
E a verdade é que este Homem, este Jesus todo feito de amor por nós, vai continuar a bater, a bater sempre às nossas portas. Abrir-se-lhe-ão, todas, um dia?
Maria do Céu Nogueira é escritora.










