
Kurt Gödel: “O mundo não é caótico e arbitrário, mas como mostra a ciência, a maior regularidade e a maior ordem reinam em toda a parte. A ordem é uma forma de racionalidade.” Foto: Site Universidade de Campinas (UNICAMP)
Kurt Gödel, o grande matemático e filósofo do século XX, chamado por Einstein de “o maior lógico desde Aristóteles” — uma frase cunhada em 1924 que pegou, contribuiu para oferecer uma prova matemática de que Deus existe. Depois de exporem acessivelmente o teorema de Godel, Marks e Haug, dois actuais engenheiros de computadores e electricidade, afirmam que esta é a conclusão: “É necessário que Deus exista. Esta é a etapa final da prova. Deus tem todas as propriedades boas, e a existência necessária é uma propriedade boa. Deus deve, portanto, existir.”(1). No meu modo de ver, esta conclusão é ousada, uma vez que o próprio Godel afirmou que o seu teorema da incompletude mostrava apenas a impossibilidade da eliminação do Espírito e das entidades abstractas. Mas, se não é possível eliminar a presença do Espírito, que crítica nos podem fazer os ateus? E aqui deixo, a minha convicção, Espírito que é Amor, cresce na atracção pelo Outro e no sofrimento, e conduz-nos a não querermos que aconteça aos outros aquilo que nos provocou o sofrimento maior a nós, e mais ainda a outros que sofrem mais do que nós sofremos.
Sobre este matemático, um dos filósofos mais coerentes e influentes no pensamento actual, versou o livro deste ano, “Deus – A Ciência – As Provas – A Alvorada de Uma Revolução” de Michel-Yves Bolloré e Olivier Bonnassies, editado pela D. Quixote, o qual é um convite à reflexão e ao debate. Resultou de um trabalho de cerca de vinte cientistas e especialistas do mais alto nível, durante três anos.
Lembro que, desde há cerca de quatro séculos, vínhamos assistindo ao crescimento do materialismo e muitos ateus quase se renderam à inexistência de qualquer tipo de espiritualidade, alguns talvez até se considerassem mais conhecedores e até mais donos da verdade. Surpreendentemente, o caminho inverteu-se, ao ponto de hoje poder dizer-se que o materialismo nunca foi mais do que uma crença como tantas outras, e que está em vias de se converter numa crença contrária à razão.
Gödel definia assim o seu pensamento: “O mundo não é caótico e arbitrário, mas como mostra a ciência, a maior regularidade e a maior ordem reinam em toda a parte. A ordem é uma forma de racionalidade.”

Está na hora de fazermos crescer, como tantos alertas nos tentam mover, um mundo de Paz, Justiça e Amor. Trabalhemos juntos para caminhar para esse grande Amor no qual deveríamos viver, nos mover e existir, e que ninguém seja deixado para trás, perdido ou esquecido.
Por outro lado, Gödel foi um espião falhado e ainda bem. Vou então, resumir aqui esta actividade menos conhecida. Em 1939, estavam a bom ritmo as descobertas da ciência nuclear na Alemanha. Preocupado com o facto, Leo Szilard, físico e biólogo, persuadiu Albert Einstein em Agosto de 1939 a escrever uma carta ao então presidente Franklin D. Roosevelt, alertando-o sobre o risco de uma bomba atómica nas mãos de Adolf Hitler. À mesma ideia e independentemente chegou o físico vienense Hans Thirring, que pensou envolver Kurt Gödel neste alerta.
Thirring tinha aprendido o suficiente para sentir que o governo dos EUA deveria ser avisado. Como Szilard, e mais ou menos na mesma época, ele teve a ideia de usar Einstein para alertar Roosevelt. Como poderia ser contactado Einstein? A Gestapo, a força policial secreta nazi, interceptaria cada telefonema ou carta de Viena para Princeton, onde Einstein morava.
Thirring ouviu que Gödel visitaria a sua mãe em Viena e levaria sua esposa Adele de volta com ele para Princeton. Por que não usar Gödel como um mensageiro secreto para alcançar Einstein? Thirring confiou a Gödel, em privado, a tarefa de avisar Einstein sobre a bomba de Hitler.
Infelizmente, o plano provou ser um fracasso. A partida de Gödel foi adiada por quase quatro meses por uma avalanche de obstáculos burocráticos. Às vezes, a fuga parecia sem esperança.
Muitas dificuldades se acumularam, nomeadamente, quando a Alemanha anexou a Áustria, Gödel automaticamente se tornou um cidadão alemão e teve que devolver o seu passaporte antigo. O visto para múltiplas reentradas nos Estados Unidos estava no passaporte antigo, e o consulado americano irremediavelmente sobrecarregado não podia simplesmente transferi-lo para o novo. Gödel teve que se candidatar de novo para entrar nos Estados Unidos e, assim, se juntar a uma fila de milhares que estavam desesperadamente a tentar escapar ao Reich.
Os nazis estavam reestruturando a vida académica, e os antigos contactos de Gödel despertaram muitas suspeitas. Parecia que ele era de ascendência ariana, mas onde estava a certidão de casamento de seus avós e a dos avós de sua esposa? A administração enlouqueceu.
O plano de Thirring continuava vivo, e na véspera da partida de Gödel, o destemido físico encontrou-o e retransmitiu a mensagem secreta. Não havia nenhuma certeza de que chegaria ao seu destino. A cada obstáculo, os Gödels corriam o risco de serem apanhados e tinham um longo caminho a levar a cabo.
Em primeiro lugar, conseguir os carimbos finais nos seus documentos em Berlim, depois, através da Prússia, chegar à Polónia ocupada, com as suas estações ferroviárias bombardeadas e os transportes de tropas sinistros a aglomerarem os desvios. Dirigiam-se, então, ao crepúsculo, da Letónia e Lituânia, para dentro da União Soviética de Joseph Stalin. Cada travessia de fronteira levava horas, cada revisão de bagagem um inferno, bater à porta de qualquer compartimento era de mau agouro.
Depois de ter dado a volta a três quartos do globo, Gödel chegou à porta de Einstein, para finalmente cumprir sua missão. Apesar de todos os obstáculos, a mensagem de Thirring havia chegado. Muito possivelmente, poderia salvar o mundo, mas foi aqui que Gödel falhou.
Ele confessou isso a Thirring mais de três décadas depois: ao conhecer Einstein, Gödel não transmitiu o aviso, mas apenas “saudações de Thirring”!
E que aconteceu a Thirring? Sobreviveu ao Terceiro Reich sem se curvar e tornou-se uma das vozes mais firmes contra o armamento nuclear. Naquela época, no entanto, a carta de Einstein a Roosevelt, instigada por Szilard, era do conhecimento público. Thirring sempre se sentiu desconfortável com seu hipotético papel no projecto da bomba. Thirring, que era um pacifista inveterado, imaginava-se como um elo na cadeia causal que levou aos horrores das bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, em 1945. Somente em 1972, pouco antes de sua morte e já enfraquecido por um derrame, soube que sua mensagem nunca havia atingido seu objectivo.
“Como agente secreto, Gödel provou ser um fracasso. Mas, felizmente, o espectro da bomba atómica de Hitler também não foi grande coisa.” (2)
Que nos fique a presença do Espírito! E concomitantemente, que se continue a usar a racionalidade e a bondade para que continuemos a trazer à luz esse grande Amor!
Notas:
(1) J. Marks and S. Haug. In: https://mindmatters.ai/2021/06/godel-says-god-exists-and-proves-it/
(2) K. Sigmund: The spy who flunked it: Kurt Gödel’s forgotten part in the atom-bomb story. NATURE 2024, 627, 26-2
Maria Aldina Brás é geneticista médica e Professora aposentada da UNL.










