
Foto © photochem_PA from State College, PA, USA, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
Corriam amargos os anos oitenta. Apesar da revolução de Abril, o país mal se tinha despedido de uma economia de crise, presa, na origem, do orgulhosamente sós, fazedora da mais inclemente pobreza, herdeira da miséria imerecida dos nossos avós.
Esta história é verdadeira e tem início nas antigas portagens da A1, ali mesmo, à saída de Lisboa, em Sacavém, rumo ao Norte. As mãos frias da longa espera percorrem de imediato as mãos do condutor. O gesto, acompanhado de um caloroso afago, como se nele se concentrasse todo o calor do mundo. “Ai! Que quentinho! Aqui é que se está bem!” E um silêncio tímido acompanhou o arranque do meu Uno branco. “Eu vou para Leiria”, explicou. “É lá que eu trabalho.” Mas não terá gostado muito do meu semblante, a passageira insólita, que acabava de entrar no meu carro.
Mais à frente, já em Aveiras de Cima, onde então terminava o troço da A1, disse-me sem pestanejar: “O senhor é, de certeza, da PJ. Tem mesmo ares disso. As perguntas que me faz indica isso mesmo.” E porque insistisse eu em não desvendar quem era, ela acabou por aventar, que, de facto, eu não era da PJ, mas sim da Guarda Republicana. Isso é que era. “Os guardas batem muito e já houve uns que se meteram comigo.”
Uma hora andada, de falas curtas, a síndrome policial dominara cada quilómetro percorrido. Chegados ao local do trabalho da minha passageira, parei o carro. Ignorando o gelo da manhã, envolvido pela neblina, dirigi-me à bagageira, para de lá tirar um presente. Todos os anos comprava sempre uma ou duas prendas a mais, não fosse ficar mal quando, na noite de Consoada, se abrissem as prendas e faltasse alguma, tão apreciadas eram elas por toda a família – é que não era todos os dias que se recebiam presentes vindos da capital…
Incrédula, a senhora que me acompanhava desde a saída de Lisboa, não quis receber a prenda que lhe oferecia. “Mas por quê, se o senhor não me conhece de lado nenhum?” Entretanto, curiosas, as colegas foram-se aproximando da cena: “Olha, esta já o engatou!” Sem controlo, as lágrimas caíam-lhe abundantes pelo rosto tisnado de frio. “Se nunca ninguém na vida me deu uma prenda!” Despedi-me depressa e rumei para minha casa, por 200 quilómetros mais. Avancei na estrada, solitário, mas com a alma em alvoroço. Salomé, chamava-se ela. Com uns trinta e tal anos, andava na vida, desde os 17, desesperada. “Em Lisboa, o meu homem ficava-me com tudo o que eu ganhava. Aqui, à beira da estrada, estamos todas por conta própria. Mas o que temos é muito medo. Às vezes, calha-nos cada um… E os homens de farda são quase sempre os piores. Muitas vezes, nem nos pagam.” De prenda na mão, Salomé ficou a cirandar por entre as colegas e os homens ougados…
À noite, já em casa, as prendas batiam certas! Relembro ainda quanto foi quente aquela noite de Natal. Repousava, entretanto, os olhos na Escritura: não saiba a tua mão direita o que faz a esquerda.
Boas Festas!
Manuel Vilas Boas é padre e jornalista.










