“As raízes da cultura estão naquelas obras chamadas clássicas, obras cuja mensagem se não esgotou
e permanecem fontes vivas do progresso humano.”
(epígrafe das edições da Fundação Calouste Gulbenkian)
“… A principal finalidade da vida é aperfeiçoarmo-nos.”
Quando se fala na Yourcenar, nas conversas de café, vem à memória de muita gente a sua homo ou bissexualidade – assunto secundário, que só a ela poderia interessar – e não verdadeiramente as suas obras e a sua personalidade.
Yourcenar é uma famosa sibila e esse facto está espelhado não só na obra mas também nas conversas reunidas em Olhos Abertos com o jornalista Matthieu Galley (edição Relógio D’Água):
“…condeno a ignorância que prevalece neste momento nas democracias, bem como nos regimes totalitários… a ignorância é tão forte, muitas vezes tão completa que pareceria desejada pelo sistema, se não pelo regime.”
Este comentário é de 1980. É uma premonição dos tempos actuais – consumo acrítico de informação duvidosa ou falsa, via redes sociais, difusão de noções disparatadas por “gurus” tecnológicos, etc., etc. – o que necessitaríamos de lhe acrescentar?
E continua:
Cristo sabia que só uma pequena parte do grão cai sobre a terra (…) Só vejo soluções parciais e por isso mais comoventes, com Francisco de Assis, Madre Teresa de Calcutá, S. Bernardo, Mestre Eckhart.
Francisco é o Mestre de todos nós, o do Cântico das Criaturas, o mais contestatário de todos os contestatários.
Este perpétuo influxo de seres dignos de serem admirados e amados, esse impulso quase instintivo para a transcendência, traz algum consolo e tranquilidade.” (ibidem)
Marguerite Yourcenar foi a primeira mulher – após muita disputa interna – “a ser honrada”, em 1980, como membro da prestigiosa Academia Francesa.
“Oferecemos o nosso ombro um ao outro”

Detalhe de Canope, na Villa Adriana (Tivoli, Itália): o lugar impressionou Marguerite, numa visita que fez ao lugar com o pai, aos 20 anos. Foto © LBM1948, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Era deste modo que a escritora se referia à profunda relação que manteve sempre com o pai.
De origem belga-flamenga por parte da mãe, perdeu-a, algumas semanas após ter nascido. O pai, francês, aristocrata, de espírito aventureiro, perdulário, mulherengo, foi o seu educador; depois, o amigo mais velho, o companheiro de inúmeras viagens de índole cultural, sobretudo Paris, Itália, Grécia, Inglaterra… inculcando na filha o desejo de ser escritora.
Educada em casa, antes dos 10 anos, Marguerite inicia o estudo das línguas e literaturas clássicas: latim e depois o grego clássico. Aos 15, além das línguas maternas, lê fluentemente inglês, alemão, italiano, holandês.
Pai e filha conversavam longas horas sobre autores e filósofos clássicos gregos e ocidentais.
Shopenhauer inicia-a no estudo e sabedoria da filosofia budista e a importância do misticismo e do ritual.
Desde muito cedo escreve poesia, romance, mas é em 1926-7 que o pai a felicita pela obra Alexis ou o Tratado do Vão Combate, aos 23 anos.
Falecido o pai em 1929, inicia então uma existência de escritora e de nómada, viajando sobretudo para a Itália e Grécia.
Aperfeiçoa constantemente o que escrevera anteriormente, publicando nas conceituadas editoras Gallimard, Grasset e outras.
O amor e a importância do sagrado… até nas acções quotidianas

Grace Frick e Marguerite (em 1955, na sua casa Petite Plaisance): Yourcenar considerava o amor como sagrado. Foto © FUSAC/Petite Plaisance Trust (Direitos reservados)
Não fazendo distinção entre o amor hetero ou homossexual, considera o amor, os laços sensuais, sagrados.
Define o amor por simpatia quando se sente ternura por alguém: é sempre sensual, mas pode ser carnal ou não. A paixão é apenas saciar um desejo.
O contrário, continua ela, é o puritanismo ou a libertinagem. (ibidem)
Em Paris, em 1937, conhece a americana Grace Frick que se apaixona por Yourcenar, partindo depois juntas em viagem; depois, Grace regressa aos E.U.A.
Marguerite Yourcenar já não tem dinheiro e, como rebenta a Segunda Guerra Mundial, resolve ir para os Estados Unidos dar aulas, até que ela e Grace alugam e depois compram uma casinha, La Petite Plaisance na Mount Desert Island, no Maine.
A escritora toma dupla nacionalidade e retoma a sua escrita.
Grace, a sua amiga e tradutora em inglês, morre em 1979, com um cancro; Yourcenar viverá aí até à sua morte, fazendo várias incursões por Paris, principalmente, para publicar, contactar editores e amigos.
Continuando as suas viagens, regressa sempre à Petite Plaisance.
Sendo a sua obra muito vasta, referiremos as duas grandes obras que a imortalizaram.
Um escritor pensa que fala sobre muitas coisas, mas se tiver sorte, o que deixa transparecer é uma imagem de si próprio. (Jorge Luis Borges, Collected Essays)
“Memórias de Adriano”: a sabedoria que nos protege da morte

Busto colossal de Antínoo (ou Antinous), amante do imperador Adriano. Mármore, obra de arte romana, 130/138 d.C. da Villa Adriana, perto de Tivoli: as estátuas do favortio do imperador Adriano impressionaram Yourcenar na sua visita a Tivoli. Foto © Giovanni Dall’Orto, 10 de junho de 2011, via Wikimedia Commons.
Aos 20 anos, Marguerite visitara, com o pai, a Villa Adriana, as ruínas do palácio do imperador romano Adriano, em Tivoli (perto de Roma). Impressionou-a o lugar, as estátuas do favorito do imperador, Antínoo. Tudo isso levá-la-ia bastantes anos depois, após extensa investigação, a escrever a obra citada (Ulisseia, 1983; edição actual na Relógio d’Água).
A língua grega simboliza a sabedoria, pois quase tudo o que de melhor os homens disseram foi dito em grego. A Grécia inventa a ciência, a razão, o indivíduo, a harmonia entre os homens e os deuses. (ibidem)
Após os amores juvenis, Adriano foi poderoso, aplaudido e por esse motivo foi arrastado por uma espécie de embriaguez. A morte de Antínoo torna-o mais lúcido e consciente das faltas e erros cometidos.
Se eu tivesse sido sábio – exclama o protagonista– teria sido feliz até à morte porque é a sabedoria que nos protege da morte.
A sabedoria protege-nos do poder, comenta a autora, referindo-se ainda à personalidade de Adriano. E acrescenta:
É sempre perigoso ter em exclusividade uma verdade ou um Deus ou uma ausência de Deus (…). Para Spinoza, Mestre Eckhart e penso também Santo Agostinho, Deus é a substância suprema.
(…) Chamo Deus ao que está ao mesmo tempo no mais profundo de nós mesmos e no ponto mais afastado das nossas fraquezas e erros. (ibidem)
“Obra ao Negro”: harmonia e sopro vital
(Editorial Inova, 1973; edição actual na Dom Quixote)
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Um pássaro com uma carta, pormenor do painel esquerdo de “As Tentações de Santo Antão” (1505-1506), de Hieronymus Bosch. Imagem © Hieronymus Bosch, Domínio público, via Wikimedia Commons.
[/speaker-mute]Tal como na obra anterior, o corpo e o espírito de certas personagens unem-se em plena harmonia e no mesmo sopro vital.
O título refere-se a um conceito da alquimia, arte antiquíssima originária da antiga Índia, da China taoista, Pérsia… que pretende explicar a espiritualidade através da matéria e da natureza.
Deste modo, o alquimista evoluiria para fases cada vez mais transcendentes. Os alquimistas foram perseguidos pelas autoridades na Idade Média e séculos seguintes.
Zenão, o protagonista da obra, é originário de Flandres: bastardo, médico, alquimista. É também um incansável viajante. Opõe-se à ideologia do seu tempo e por esse motivo é perseguido e acossado pela Contra-Reforma e pela Santa Aliança entre a Igreja e a monarquia, no tempo do imperador Carlos V. (1)
Na última parte da obra, é preso, julgado e condenado à fogueira.
Antes, regressando à cela, após lida a sentença, o protagonista trava uma grande luta interior, descrita em pormenor pelo narrador.
Zenão resolve então morrer pelas suas próprias mãos, na sua cela, antes do carcereiro lhe prender os pulsos e levá-lo ao lugar da execução.
Competia-lhe a ele decidir se iria acabar na Praça Maior entre apupos ou tranquilamente entre estas paredes escuras.
Amanhã, queimariam somente um cadáver….
Durante uma parte da noite, Zenão prepara o instrumento que vai usar para terminar com a vida.
São profundamente pormenorizados os vários momentos que antecedem a auto-exclusão, a profunda inquietação e o próprio acto da morte.
Finalmente, um pouco antes da madrugada, o acto de suicídio e a sua agonia, estendem-se numa longa continuidade descritiva, até ao momento em que o seu corpo, transcendendo já o espaço vital, paira em cima do seu próprio cadáver, cheio de sangue, escorrendo pela cela.
Ouve ainda, frouxamente, nesse plano, já não verdadeiramente humano, os gritos do carcereiro, longínquos, pedindo socorro, vendo a mancha de sangue escorrendo já fora da porta da cela.
Nas duas obras citadas, embora o narrador seja omnisciente (não está presente, como personagem na acção descrita), envolve-se profundamente dentro das personagens.
Essa é uma característica específica na obra de Marguerite Yourcenar.
A Salvação de Wang-Fô e Outros Contos Orientais
(ed. Leya)
A nossa vida e a nossa morte levam-nos, firme e ternamente pela mão.
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Em todas as suas obras, Marguerite Yourcenar (aqui, em 1982) escreve um post-scriptum. Foto © Bernhard De Grendel, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
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Tal como em todas as suas obras, a autora escreve um longo post-scriptum, considerando que seria mais correcto o título “Contos e Novelas”, devido à variedade temática.
Tal como em toda a obra de Yourcenar, todas as narrativas questionam a vida e a morte, ambas numa profunda simetria e não dualidade.
Todos os contos são bem dignos de leitura.
O primeiro que dá título à obra é passado na antiga China.
É sobre a fidelidade, para além da morte, entre o célebre pintor Wang-Fô que “dava vida às suas pinturas”, mas trocava as suas famosas telas “por um caldo de milho moído”, desprezando as moedas de prata. E o seu discípulo Ling que tudo abandonara, para seguir o velho Mestre.
Mas estas duas vidas livres e errantes, deparam com a inveja do imperador do Reino de Han, que compreendeu que o seu reino de nada valia, pois o pintor era o único que conseguia superar a realidade.
Vingativo, aprisiona-os no palácio. Corta a cabeça a Ling e prepara uma morte ignominiosa para o pintor, mas antes, Wang-Fô tem de terminar uma tela inacabada.
É um imenso mar de jade… a corte e o próprio imperador encontram-se nesse pavilhão para assistir ao trabalho do pintor.
Este dá-lhe certas pinceladas, parecendo agitar a água… ou será que esta se move, naquele momento?
Wang-Fô, sem dar por isso, já pinta com os pés molhados… e a água vai subindo… algo misterioso está a acontecer…
“Nossa Senhora das Andorinhas”
O conto foi imaginado pela autora ao ver uma capelinha com esta designação, nos campos de Ática, na Grécia.
Há neste conto duas forças oponentes: por um lado, a sensibilidade e a tradição das antigas religiões que os camponeses resistem em desprezar, ligados que estão às forças telúricas da terra que dá frutos, à sacralização e ao animismo das águas e de todos os seres, visíveis e invisíveis que habitam na natureza; por outro, o dogmatismo da nova religião pregada pelos monges, opondo a recompensa e o castigo eternos de um Deus justiceiro.
Então, surge alguém que rompe esse antagonismo. Conseguirá?
A resposta vem no fim do conto.
(Além das obras citadas ao longo do artigo, acrescenta-se Le Magazine Littéraire, Dezembro 2014, com o dossier “Yourcenar, vraiment immortelle”).
Nota
(1) – Carlos V (1500-1558), rei de Espanha e imperador do Sacro-Império Romano-Germânico que inclui: Países-Baixos, Alemanha, Áustria, Sul e Norte de Itália, excepto os Estados Papais (bem mais extensos que o Vaticano).










