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Autores - Maria Aldina Brás

Maria

| 04/06/2025

“Quando a Humanidade for Maria,
 como ninguém mais quererá ser dominador dos outros,
 não haverá lugar para dominadores e dominados.”(1)

Num impulso de limpeza e arrumação em casa, deparei-me, no fundo de uma prateleira, com um livrinho muito pequenino e amarelecido do Padre Mário de Oliveira (1937-2022), “ Maria de Nazaré”, que tinha sido adquirido pelo meu namorado e depois marido, pelos anos 70.

Gostaria de partilhar convosco a sua apresentação, através de um excerto do próprio livro.

“Nascido no meio de um pequeno Povo de Pobres e acolhido por ele como uma mensagem com sabor a boa nova, este livro não poderá agradar a toda a gente…

É um livro que vai escandalizar muita gente, como escândalo é o Evangelho para os religiosamente conservadores, os quais, como os velhos Judeus, no tempo de Paulo de Tarso, continuam fazendo da Fé um suporte das suas tradições e creem mais num Deus conservador, convenientemente fabricado por eles, do que no Deus Criador que o é em cada momento e, como tal, para os Homens que O reconhecem, é permanente surpresa. Mas alegre e saudável surpresa!

“Quando a Humanidade for Maria, os filhos dela não serão mais vítimas de outros, não ficarão por crescer, por desenvolver, por dignificar, pois a Humanidade renovada, outra Maria, colocará toda a riqueza ao serviço de todos os Homens e do Homem todo.”

Não faltarão também aqueles que olharão este livro com desconfiança: dos Pobres pode sair coisa de jeito?!

E serão até capazes de sorrir, ao ver a convicção que nos anima e que, no livro, vai tão manifestamente repetida de que, com os Pobres que o são conscientemente, é que Deus consegue fazer progredir a História para a sua meta final, ou seja para aquele Reino de Verdade e Justiça e Liberdade, aquele Reino onde a Fraternidade será a normal situação, pois terão desaparecido, definitivamente os sub-Homens, como são todos os oprimidos e opressores, os dominados e dominadores, os explorados e exploradores. Classificarão até de «loucura» esta visão, dado que dos Pobres não se costuma esperar nada de grande.

Mas, afinal, «loucura», como «escândalo», sempre será o anúncio do Evangelho: «pregamos Cristo que é escândalo para os Judeus e loucura para os gentios» (1.a  Cor. 1, 23).

É este um livro que fala de Maria. Ou, talvez, dito com mais propriedade: fala do Deus de Maria.

Situados numa aldeia rural, semelhante à de Nazaré e na condição de pequeno Povo de Pobres, quisemos, durante um período de tempo, relativamente longo, olhar para Maria e, alegremente, descobrimos nela uma companheira de vida! …

Foi mesmo um dos pobres deste Povo rural que, uma noite, tendo manifestado desejo de falar alto, junto dos outros, sobre o que ia sentindo, à medida que nos reuníamos para olharmos Maria mais de dentro, nos revelou a alegria duma descoberta que fizera: – antigamente, disse, passávamos um mês que se dizia de Maria e, ao cabo dele sabíamos tanto como no primeiro dia. Desta vez, não: cada dia que passa, é mais uma página dum livro que vamos lendo…

Achámos que ele dissera o que, afinal, todos experimentávamos, mas que ainda não soubéramos exprimir. Maria era, pois, para aquele Povo de Pobres, um livro vivo. E, durante aqueles dias, fomos tentando ler por ele.

Estas páginas apresentam o que fomos capazes de ler em Maria!

Repete-se, anda à volta do mesmo tema. Não é de estranhar. Os Pobres não são especialistas e também não sabem dizer muitas coisas brilhantes. Dizem o que sentem.

Em geral, quando conseguem vencer o medo e dizer o que sentem, dizem a Verdade! E a Verdade é assim como uma criança!…para ver o que os Pobres sentem só sendo pobre também.

Não é verdade que, quando o Pobre de Nazaré – o carpinteiro, filho de Maria (Marc.6,3) – começou a falar em público, os teólogos e leguistas de então se permitiram acusá-lo de blasfemo e de mau intérprete da Lei, concretamente no que respeitava ao descanso sabático, ao culto do Templo, ao amor do Próximo e à ordem social estabelecida?

Ah! Não vai faltar, igualmente, quem olhe para este livro, onde os Pobres, singelamente, apresentam Maria, tal como a viram, com um livro irreverente!

Alegramo-nos com isso, porque, numa sociedade estruturada tão ao contrário do que Deus quer, anunciar a Verdade é, necessariamente, uma irreverência…, mas apenas à mentira e à injustiça estabelecidas que teimam passar por Verdade e Justiça aos olhos do Povo.

É irreverente este livro, mas foi com Maria que aprendemos a ser irreverentes. É ela a maior contestatária de todos os tempos, porque não se limita a discursos, mas contesta com a vida. Pensemos que ela, sendo do Povo dos Pobres, teve a ousadia de viver o Amor numa sociedade de egoístas, de viver a Liberdade numa sociedade onde os opressores eram temidos, de viver a Verdade numa sociedade onde a mentira era a norma, numa palavra, de viver imaculada numa sociedade corrompida. Ninguém mais irreverente do que ela. Mas que sadia irreverência esta de Maria!

É este um livro para incomodar, porque apresenta Maria, esposa de José e mãe do carpinteiro de Nazaré que, pelos 33 anos, foi preso, julgado em Tribunal civil e condenado injustamente à morte e executado na Cruz, como andando a sublevar o Povo contra a Autoridade romana que então, dominava a Palestina. E, como Mãe deste condenado, Maria, longe de se envergonhar, está presente, de pé, junto à cruz! Uma Mulher assim é, necessariamente, incómoda para muitos!….

É que nós, olhando Maria, descobrimos que é mais fecundo, no sentido da vida plena, quem se dispõe a viver a sua dignidade de pessoa humana…Estará, então, a raiar a manhã dum novo Dia, aquele Dia que já é realidade plena em Maria!”(1).

O padre Mário de Oliveira, da Lixa. Foto da sua página de Facebook.

O padre Mário de Oliveira (1937-2022), da Lixa. Foto da sua página de Facebook.

 

Esta introdução tocou-me. Tal e qual, como no mencionado grupo de pobres, Maria foi para mim a Companheira de vida, tantas vezes imprescindível Companhia. E pobre é também o sofredor, o injustiçado, o excluído.

Não estou, contudo, a propor a leitura de todo o livro, até porque, uma vez que foi escrito há 50 anos, não contém a visão actual do que Maria manifesta. Teilhard de Chardin incluia-A no complexo e intemporal «eterno feminino». Eu diria, dado o significado de feminino, “Eterna Feminina”. Mas quem sou eu, para propor termos?

Em relação a Fátima, como diz Frei Bento, apesar do “mau gosto” anterior, a situação foi revertida nas últimas décadas e hoje “continua a ser o que sustenta o catolicismo português” (2).

Termino com a enorme emoção que senti ao ler a recente notícia: “Juntos na casa da Mãe: A Diocese peregrina a Fátima”, da qual menciono apelas algumas das palavras de D. José Ornelas: “A nossa Igreja, neste caminho de transformação pastoral que estamos a percorrer, quer anunciar e testemunhar o percurso humano, materno e último de Maria — mulher e mãe de uma nova geração — que é, constantemente, exemplo para a Igreja”. “Sigamos, pois, o caminho do santuário, unindo a nossa alma à de Maria, para que também o nosso pensamento e o nosso coração se transformem. Assim nos tornaremos verdadeiros agentes de renovação na Igreja e no mundo.”

 

(1) Mário de Oliveira, Maria de Nazaré, Porto, Afrontamento, 1974
(2) António Marujo, Frei Bento: “Explicaram-me o eco dos penedos, mas não o puro mistério que é Deus”, 7Margens, Abril 2025

 

Maria Aldina Brás é geneticista médica e professora aposentada da UNL.

 

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