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Jürgen Moltmann

Entrevista

Moltmann: descobrir Deus na guerra, quando ao lado morre um amigo

| 04/06/2024

Jürgen Moltmann

Jürgen Moltmann viu morrer um amigo ao seu lado, descobriu a fé a partir daí. Foto © CMI/Marianne Ejdersten

Na Segunda Guerra Mundial, viu morrer um amigo ao seu lado e perguntou: “Meu Deus, onde estás?” Descobriu a fé a partir daí. Neto de um grão-mestre da Maçonaria, Jürgen Moltmann nasceu em Hamburgo (Alemanha), a 8 de Abril de 1926. Em 1944, com 18 anos, foi mobilizado para o exército alemão. Em 1945, rendeu-se ao primeiro soldado britânico que encontrou e, até 1948, circulou como prisioneiro por vários campos. Morreu no último domingo, dia 2.

Enquanto estava detido na Bélgica, Moltmann travou conhecimento com um grupo de cristãos que lhe ofereceu um exemplar do Novo Testamento (e dos Salmos), cuja leitura o aproximou progressivamente do cristianismo.

Em Julho de 1946, numa outra prisão, já no Reino Unido, Moltmann leu um livro de teologia (Nature and Destiny of Man, de Reinhold Niebuhr) que, diria mais tarde, o marcou decisivamente, permitindo-lhe entender em profundidade a questão do sofrimento e da esperança, decisivas no seu futuro labor teológico.

Doutorando-se em teologia em 1952, membro da Igreja Evangélica Protestante, foi professor de teologia na Universidade de Tubinga entre 1967 e 1994, depois de Wuppertal e Bona, tornando-se um dos mais importantes teólogos cristãos contemporâneos. Entre 1963 e 1983 colaborou também com o Conselho Mundial de Igrejas.

Autor de Teologia da Esperança, influenciou gerações de teólogos contemporâneos. Entre outras obras decisivas da sua produção, estão O Deus Crucificado, A Dignidade Humana e Teologia Política – Ética Política.

Reproduz-se a seguir uma entrevista inicialmente publicada no Público em 29 de Abril de 2007 e depois reproduzida no livro Deus Vem a Pùblico – Entrevistas sobre a Transcendência.

Johann-Baptist Metz fotografado em Valadares, em Outubro de 2006: um “grande amigo” com uma “experiência similar,” à de Moltmann, durante a Segunda Guerra Mundial. Foto © Fernando Veludo/NFactos, cedida pelo autor.

Que importância teve, para a sua teologia, o facto de ter feito a guerra e ter sido preso?

Foi um ponto de viragem na minha vida. Venho de uma família secular de Hamburgo. A religião, a teologia e a Igreja estavam longe de mim. Eu queria estudar física, matemática…

 

Admirava Einstein, não era?

Sim. Fui mobilizado, com 16 anos, para as baterias antiaéreas de Hamburgo. Experimentei a destruição da minha cidade em Julho de 1943, depois de um bombardeamento dos ingleses. Sobrevivi dificilmente: caiu uma bomba no centro da cidade e matou um amigo que estava ao pé de mim. Vi-me a gritar: “Meu Deus, onde estás? Porque é que estou vivo e não morto?”

Tive tempo para pensar nos três anos como prisioneiro de guerra na Bélgica, Escócia e Inglaterra. Foi quando descobri Deus e Cristo. Tornei-me cristão e comecei a estudar teologia para descobrir que verdade havia nela.

[O teólogo] Johann-Baptist Metz [que morreu em Dezembro de 2019] é um grande amigo e teve uma experiência similar, tal como Joseph Ratzinger [futuro Papa Bento XVI, que morreu no final de 2022]. O fim da guerra revelou a destruição, as mortes em massa. O facto de sobreviver deu-me a determinação de defender a vida e a liberdade.

 

Deus morreu no Holocausto?

Não. Deus revelou-se-me na paixão de Jesus Cristo, quando me senti abandonado. Descobri Cristo como meu irmão, que partilhou o meu abandono, que morreu gritando “Meu Deus, porque me abandonaste?”

 

As vítimas são o Cristo crucificado?

Sim. Cristo estava entre as pessoas mortas, sinal de que Deus está do seu lado, de que Deus também sofre na história. Compreendi Deus como um Deus de compaixão.

 

Parece que Deus morreu ou desapareceu da Europa…

Não, Deus não está morto na Europa. Essa foi uma ideia estranha, no século XIX. Nietzsche dizia que o homem tinha morto Deus. Deus está a sofrer e carrega o mundo com todas as contradições que vivemos. Na sociedade secular, as pessoas esqueceram-no, temos um forte laicismo, mas isso não é bom. Por outro lado, estamos a entrar numa sociedade multi-religiosa, há uma multiplicidade de religiões à nossa volta. O cristianismo tem de descobrir o seu papel nesta sociedade.

 

O problema das pessoas é mais com as instituições do que com Deus?

Sim, sem dúvida.

Jürgen Moltmann, Bossey

Jürgen Moltmann numa palestra no Instituto Ecuménico de Bossey (Suíça), em Dezembro de 2019. Foto © Peter Kenny/WCC.

Escreveu que a fé cristã deve basear-se na ressurreição de Jesus. Como falar da ressurreição?

Anunciando-a por aí. O espírito da ressurreição é o de amar a vida. A questão da sociedade inter-religiosa é se dizemos sim à vida ou se sacrificamos a vida, vitimizando as pessoas. O que é a vida à luz da ressurreição de Cristo?

 

Há quem queira provas, pondo em causa a historicidade de Jesus. O túmulo de Jesus estava vazio?

Penso que estava vazio, porque os discípulos de Jesus fugiram quando ele foi crucificado. Eles esperavam que ele seria o messias para redimir Israel e entretanto estava a morrer, impotente. Por isso eles fugiram para a Galileia… Depois, Cristo ressuscitado apareceu-lhes e regressaram a Jerusalém, anunciando nas ruas da cidade que Deus tinha ressuscitado Jesus de entre os mortos. Se o túmulo não estivesse vazio, os judeus teriam perguntado como podiam dizer isso.

 

Chegou a aparecer um documentário sobre o alegado ossário de Jesus…

Nos Estados Unidos da América, pode fazer-se algo grande a propósito de Jesus, porque as pessoas gostam dele. Há a história similar que Jesus apareceu na Índia ou casou com Maria Madalena, que os reis franceses descendem dele… Isso é apenas espectáculo, é religião pop…

 

Como pode esse Deus impotente, de que falava, salvar as pessoas?

Um Deus que não tivesse compaixão por nós não seria capaz de nos compreender. Havia um grande matemático e filósofo, Alfred North Whitehead, que escrevia: “Deus é um companheiro sofredor que nos compreende.” Se não fosse assim, Deus não poderia salvar-nos. Não acredito num Deus apático, mas num Deus de compaixão. Este é o seu poder. Não é um superpoder como o da América, mas um poder de compaixão.

 

Relaciona o terrorismo e a indiferença para com a morte. Como se pode vencer esse mal?

Só nas consciências, nunca nas ruas com polícias, bombas ou o exército americano. A vida é melhor que a morte e cometer suicídio e assassínios em massa é contra o Deus do islão e do cristianismo.

 

Só a religião da liberdade pode vencer a religião do medo?

Temos elementos negativos, sobre a destruição da vida na Terra, em todas as religiões. As religiões devem tornar-se religiões da vida contra a morte. Devemos prevenir a destruição da Terra e o terrorismo apocalíptico.

 

Existe o pecado do desespero, que definia na Teologia da Esperança?

Sim, claro. Sem esperança, entramos no desespero. As pessoas não se interessam por nada, há o terrorismo, um grande desespero.

Ernst Bloch, Filosofia

Ernst Bloch numa reunião de intelectuais, em Berlim, em 8/11/1954: “não foi um marxista, mas um judeu reflectindo o messianismo.” Foto © Bundesarchiv, Bild 183-27348-0008 / CC-BY-SA 3.0, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Em que devem as pessoas pôr a sua esperança? Nas igrejas, na religião, na política?

Em Deus, espero, não nas instituições. A única razão pela qual a humanidade deve sobreviver é confiar que Deus quer que a humanidade sobreviva. Se não houver uma boa razão, porque devemos sobreviver?

 

Afirmou uma vez que foi um marxista, Ernst Bloch, quem lhe ensinou a esperança como dimensão que os cristãos tinham esquecido.

Deixe-me dizer que Ernst Bloch não foi um marxista, mas um judeu reflectindo o messianismo. O seu livro O Princípio Esperança cita muito a Bíblia, facto raro na literatura filosófica alemã. Quando o conheci, [na década de 1960], perguntei-lhe: “Você é ateu?” Ele respondeu: “Sou ateu, graças a Deus.” Isso explica a sua forma dialéctica de pensar.

O marxismo dele era tão pobre que foi expulso da sua cadeira em Leipzig, na antiga Alemanha Democrática, exilando-se na Alemanha Ocidental.

A sua filosofia do messianismo judaico, da esperança judaica, inspirou-me muito a olhar para a tradição cristã, na qual a esperança existe. Não o segui, mas escrevi um trabalho paralelo, a Teologia da Esperança.

 

Como distingue a esperança cristã da utopia marxista e dos milenarismos?

A esperança cristã é uma perspectiva do futuro à luz da ressurreição de Cristo. O milenarismo é uma especulação histórica, não tem a ver com a ressurreição do Cristo crucificado. A expectativa marxista do futuro tem a ver com o mundo moderno: há um progresso histórico da necessidade à liberdade, da sociedade burguesa à sociedade socialista e comunista. É parte da crença moderna no progresso. Não tem a ver com a esperança cristã na vinda do Reino de Deus à luz da Páscoa da ressurreição de Cristo.

 

A sua teologia influenciou a teologia da libertação…

O meu primeiro encontro foi com Gustavo Gutiérrez, com o seu livro Teologia da Libertação, publicado em 1971, em que ele citava a minha Teologia da Esperança, publicado em 1964. Ele aplicava algumas das minhas ideias à pobreza de massas. Houve um ponto de conflito não com Gutiérrez, mas com outros teólogos: o modo como usavam o marxismo era tão superficial, no meu entendimento de Karl Marx e da realidade, que não me pareceu bem. Escrevi uma carta a alguns deles e isso provocou conflitos, depois ultrapassados.

Mártires, UCA, Jesuítas

Mosaico dos Mártires da UCA, em El Salvador: “Quando mataram os seis padres mais outras duas pessoas, levaram um livro a Jon Sobrino, que estava cheio de sangue. Era o meu livro O Deus Crucificado. Foto © GuanacoSolido503/Wikimedia Commons

 

Como viu o caso de Jon Sobrino, também censurado pelo Vaticano?

O que ele diz, também digo. Li a notificação da Congregação para a Doutrina da Fé [do Vaticano], um documento muito pobre, teologicamente mau. Estou muito mais do lado de Sobrino. A intenção do Vaticano era limitar a influência de Ignacio Ellacuría [reitor da Universidade Centro-Americana, de El Salvador], que foi morto [em 1989], com mais cinco jesuítas.

Tenho uma relação especial com o acontecimento, porque quando mataram os seis padres mais outras duas pessoas, levaram um livro a Jon Sobrino, que estava cheio de sangue. Era o meu livro O Deus Crucificado. Fui em peregrinação, um ano depois, a El Salvador, aos túmulos dos jesuítas, símbolos desse Deus crucificado.

Jon Sobrino é um dos melhores teólogos da América Central. Este é um debate tardio, supérfluo, desnecessário.

 

Esta experiência dos jesuítas mortos tem semelhanças com a Igreja Confessante na Alemanha, que resistiu ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial?

Sim, deram ambas mártires. Mas há mais mártires nas comunidades e igrejas cristãs resistentes da América Latina.

 

O pastor luterano Dietrich Bonhoeffer fuzilado pelos nazis, é uma referência para si?

Sim. E influenciou também, pelo seu exemplo, muitos teólogos latino-americanos, no sentido de resistirem, mesmo activamente.

 

Defende, na Teologia da Esperança, uma Igreja mais ministerial e carismática. Esta é uma forte crítica à Igreja Católica, mais hierárquica.

Não necessariamente. Nos últimos dez anos, tive uma relação forte com igrejas pentecostais na Coreia e na Nicarágua. É errado o que os bispos católicos dizem, que esses grupos são seitas. Desde sempre houve movimentos sectários no cristianismo. Mas aqui há mais qualquer coisa. Trata-se de uma nova vaga do Espírito Santo: formam-se comunidades e congregações, vão de casa em casa a evangelizar…

Devemos tomar isto mais a sério e não falar apenas de seitas más. Por exemplo, há bairros em São Paulo com um padre para 25 mil católicos. A maior parte das pessoas nunca o vê e ele não pode nunca conhecer toda esta gente. Então, vêm os pentecostais, pregam de casa em casa, formam comunidades, convidam para o culto de domingo, são muito afectivos.

A Igreja Católica tem de caminhar para uma “congregacionalização”. A Igreja para as pessoas já não funciona, precisamos de uma Igreja das pessoas.

 

Tal como Lutero propunha, no início da Reforma protestante?

Sim, mesmo se as igrejas luteranas também se tornaram estatais e estabelecidas. O que precisamos é de igrejas congregacionais. E isso está a ser influenciado pelos pentecostais. Não devemos rejeitá-los, mas ver o que está Deus a fazer através deles. E aprender deles.

Transumanismo. Imagem gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial que cria imagens a partir de descrições textuais) com prompt de Miguel Panão.

Imagem gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial que cria imagens a partir de descrições textuais): “O que devemos desejar, o que é bom ou mau, não pode ser decidido em termos biotecnológicos”, diz Moltmann. Imagem © prompt de Miguel Panão.

Avisa contra uma sociedade mecanizada, um homem criador de si mesmo, frio e passivo. Há esse risco?

Acredito que sim. Esse é um perigo, resultado da separação platónica do corpo e da alma. O corpo seria como um animal ou, agora, como uma máquina. O corpo [como] máquina, o cérebro ligado a computadores – não é um bom progresso. É desejável? Podemos fazê-lo, mas não devemos.

 

Há um paradoxo entre o culto moderno do corpo e da saúde, e o medo da morte e da doença…

A questão é se aceitamos a vida e a morte. Se a morte é parte da vida, morrer é resultado de ter nascido e estar doente é parte do viver. Eu gostaria de não ter doenças mas, em muitos casos, tenho de aceitar estar doente. Tenho dignidade. Será humano submeter-me aos tratamentos clínicos para fazer o meu corpo sobreviver sem a minha alma e a minha mente? Penso que não.

 

Está céptico em relação à biotecnologia?

A biotecnologia diz-nos o que podemos fazer, mas não o que devemos desejar, o que é bom ou mau. Isso não pode ser decidido em termos biotecnológicos. Podemos transplantar todos os órgãos e até pôr uma nova cabeça num corpo. As possibilidades da biotecnologia são enormes, mas temos de saber o que queremos e não queremos. Isso deve ser discutido, tal como debatemos a energia atómica. Será que queremos mesmo as bombas atómicas?

 

O lugar vital para a natureza, de que fala, está cada vez mais ameaçado…

A catástrofe ambiental de hoje já era conhecida há quatro décadas. Em 1972, o Clube de Roma publicou Os Limites do Crescimento, e tudo já estava previsto, mas ninguém acreditou. E continuámos a produzir carros, a queimar e envenenar o ar, a pescar excessivamente… E agora surpreendemo-nos porque os desertos crescem. Temos de tomar o ambiente natural mais a sério do que o fizemos no passado.

 

É uma questão prioritária para a teologia cristã?

Claro. É uma questão de preservar a criação. A Terra pode viver sem seres vivos, mas os seres vivos não podem viver sem a Terra. Destruir a Terra é cometer suicídio.

 

Nas últimas décadas, a teologia feminista desenvolveu-se. Qual é a experiência de ser marido de uma teóloga feminista?

É maravilhosa.

 

A sua teologia influencia a sua mulher ou o contrário?

Nós somos não apenas um casal que se ama, mas também um pai e mãe que amam os quatro filhos. O diálogo teológico é contínuo, falamos do que ela está a pensar e do que eu penso. É uma teologia a duas vozes.

 

Falam de teologia ao jantar?

Não especialmente ao jantar, mas depois… Mas também não antes do pequeno-almoço.

 

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