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Políticos
"(...) a própria verdade passou a ser sentida como opressiva por vastos setores da população." © jornal digita "Postal"

[Crónica da Europa]

Muito a fazer em era de pós-verdade

 

Vivemos numa era de pós-verdade. Isso não significa que os políticos europeus mintam mais do que no passado. A mentira sempre existiu na política, do absolutismo à propaganda moderna. O que mudou é mais profundo: a própria verdade passou a ser sentida como opressiva por vastos setores da população. Não porque seja falsa, mas porque, quando aceite, parece implicar impotência, sacrifício sem sentido e ausência de futuro. Escuta, Zé Ninguém! É assim que os governantes populistas se dirigem ao que chamam o “povo”.

Este é o primeiro pilar da era da pós-verdade: a crise da verdade é, antes de tudo, uma crise de agência política. As pessoas não abandonam a verdade por ignorância ou estupidez (os “deploráveis”), mas porque uma descrição fiel da sua situação económica, social e geopolítica conduz ao sentimento de irrelevância. Quando a verdade apenas enumera constrangimentos — dívidas, reformas inevitáveis, limitações energéticas, guerras próximas e distantes — negar a realidade torna-se uma forma de autopreservação psicológica. O populismo europeu cresce precisamente aí: oferecendo pertença, ação e sentido onde falha a política normal.

Num livro politicamente remoto, As Cinco Fases da Religião Grega (1912) Gilbert Murray, denunciou como falta de ânimo (failure of nerve), a passagem do mundo clássico — fundado na razão cívica, na responsabilidade política e numa religião pública disciplinada — para o mundo helenístico, marcado pelo fatalismo, pelas religiões de mistério e pela fuga à responsabilidade histórica. Após guerras intermináveis e o colapso da pólis, a razão não foi derrotada por erros intelectuais, mas por exaustão moral. A lição do prof. de Oxford é semelhante à do mister Rui Borges: “Quando nos faltar a inspiração, que não nos falte a atitude”.

“O perigo maior não é apenas geopolítico. É civilizacional. Quando a razão política se reduz à tecnocracia e a razão religiosa se fragmenta em fundamentalismo e espiritualismo difuso, a sociedade europeia perde as defesas que a sustentaram no pós-guerra.” Gravura: Populismo. © jornal digital regional Capeia Arraiana

Desde os anos 1960, apesar da integração europeia e do Concílio Vaticano II, assistimos a traumatismos semelhantes. A religião cristã nas suas variantes racionais, institucionais e teologicamente mediadas — pilar histórico da democracia europeia — é corroída por dois extremos convergentes: o fundamentalismo religioso, que absolutiza a fé contra a razão, e o espiritualismo New Age, que dissolve a verdade em experiências subjetivas. Monsenhor Lefebvre e os cardeais Burke e Sarah, com o seu disciplinarismo férreo, são irmãos gémeos, mas separados à nascença, de Jacques Bergier e Timothy Leary com o seu Turn on, tune in, drop out. Rejeitam mediação, discernimento e responsabilidade histórica. Florescem quando a política abdica do sentido. A pós-verdade nasce também da erosão simultânea da razão cívica e da razão religiosa.

Daqui decorre o segundo fator da pós-verdade: o erro estrutural dos governos tecnocráticos em tentar restaurar a verdade antes de restaurar a agência, aquilo a que romanticamente se chamava liberdade. Dar lições, corrigir factos ou invocar “necessidades técnicas” de nada serve quando os cidadãos sentem que as decisões lhes escapam. Quando o Parlamento francês não consegue alterar a idade da reforma aos 62 anos; quando o Labour britânico neutraliza as suas correntes mais combativas (Andy Burnham); quando a Alemanha encerra centrais nucleares em nome das abstrações defendidas pelos Verdes; quando em Portugal não se consegue transformar o Serviço NS em Sistema NS, que integre o público e os privados, o problema não é técnico nem moral, é político. Ora a verdade em política não se impõe por autoridade técnica nem discursos moralizantes; emerge quando os cidadãos se reconhecem como participantes.

Daqui resulta o terceiro pilar: precisamos de agência primeiro, e verdade depois. Existem questões, como a imigração, que são como incêndios. Enquanto este incêndio não for apagado pelo consenso cívico, ficamos sempre desconfiados de que alguém esteve a obter votos, vender vistos gold ou substituir a natalidade. Governar em contexto pós-verdade exige restaurar o consentimento democrático, reconhecer derrotas políticas sem humilhar os vencidos, desacralizar políticas públicas e admitir erros passados. A tradição europeia — da democracia cristã ao personalismo político — sempre soube que a verdade exige mediações institucionais, morais e comunitárias. O que destrói a verdade não é o conflito democrático; é a exclusão.

A guerra na Ucrânia torna este ponto incontornável. O Putinismo não é apenas um regime autoritário; é a combinação de autoritarismo político, hiper-neoliberalismo predatório e misticismo nacional. A fé deixa de ser racional e encarnada na história para se tornar instrumento de legitimação da força. Orbán, Le Pen, Farage, Ventura e outros populistas europeus participam da mesma convergência: conservadorismo incendiário, política do inimigo interno, ação como prova de verdade, estetização do poder e estado de emergência permanente.

O perigo maior não é apenas geopolítico. É civilizacional. Quando a razão política se reduz à tecnocracia e a razão religiosa se fragmenta em fundamentalismo e espiritualismo difuso, a sociedade europeia perde as defesas que a sustentaram no pós-guerra. O Concílio Vaticano II, a democracia cristã e o personalismo afirmaram precisamente o contrário: fé e razão, liberdade e verdade, só sobrevivem juntas.

A democracia não sobrevive sem verdade. Mas a verdade não sobrevive sem agência, sem uma cultura racional — política e religiosa — que a sustente. Fundar a democracia exige devolver às pessoas a capacidade de agir e de compreender. Só então a verdade voltará a ser libertadora.

 

Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.

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