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[Moçambique, margem Sul]

N’fukwa eleitoral: “a sorte está lançada”

| 04/12/2024

Moçambique. Manifestações de mulheres

Moçambique: Manifestações de mulheres frente ao Conselho Constitucional, apelando à Dra Lúcia Ribeiro, enquanto mãe. Imagem TikTok

Mulheres moçambicanas, na sua maioria que perderam ou têm seus filhos internados em hospitais ou em casa, de baixa, como resultados dos tumultos havidos durante as manifestações pós-eleitorais, das últimas semanas, marcharam e ajoelharam-se em frente ao Conselho Constitucional, presidido pela juíza Lúcia Ribeiro. Elas representavam várias outras mulheres de diferentes estratos sociais.

De joelhos em frente àquela instituição de justiça, afirmavam apelar à Dra. Lúcia, na sua qualidade de mãe, para que trouxesse a justiça eleitoral, custasse o que custasse, pensando nos filhos de Moçambique. Rezavam, entoavam cânticos fúnebres e suplicavam “à mãe Lúcia”, o fim do sofrimento que o país tem estado a atravessar. Alguns dos seus cartazes afirmavam “chega de matar povo indefeso, que reivindica os seus direitos de manifestar”. Presume-se, portanto, que as mulheres ainda acreditem na justiça eleitoral, no diálogo e na tomada de consciência de que os problemas ainda podem ser resolvidos sem devastar mais as famílias e o país.

Tomaram a decisão de realizar uma marcha pacífica, após rumores de alguns grupos de mulheres terem sugerido caminhar nuas, em direcção à presidência. Sim, nuas. Em África, a nudez das mulheres tem significados diferentes, em função dos contextos. Existe a crença de que o desnudar os seios ou os grandes glúteos proferindo pragas, resulta em uma grande devastação. É agoirento. Cria n’fukwa.

No sul de Moçambique, por exemplo, deixar os seios ao léu “dá azar”. Desejando rogar pragas a alguém, basta que a mulher pegue nos seios e os vire para o céu e pragueje alguma coisa, que o visado é atingido por alguma maldade. E nisso de azarar, para além do modo de actuar acabado de mencionar; inclinar o tronco, sem roupas e mostrar o interior dos grandes glúteos é, também, uma maneira de rogar praga. É massinguita. No norte do país, mostrar os seios nus não é grave. A coisa má surge quando se mostra a parte de baixo, por trás. É malavi. Mas tudo isso funciona se for uma mulher a fazê-lo.

Essa decisão de não praguejar, por parte das mulheres que se fizeram ao Conselho Constitucional, foi, para mim, uma boa escolha e recordou-me a peça teatral intitulada Amor Vem, encenada pelo grupo teatral Mutumbela Gogo, nos anos 1990, em Moçambique. Entrevistei Lucrécia Paco, uma das actrizes na peça, para me inteirar melhor sobre os pormenores desse evento. Ela contou que, antes de realizarem a peça, o grupo interagiu com mulheres de diferentes mercados moçambicanos a perguntar o que é que achavam de “as mulheres fazerem uma greve de sexo para acabar com a guerra” – decorria o período da guerra civil, em Moçambique, e elas responderam que o melhor seria fazerem muito sexo, para prenderem os homens em casa, a fim de que estes não se fizessem à guerra. Ou seja, terminar com a guerra, com recurso ao amor – daí a peça ter levado o título que levou.

A peça foi uma adaptação feita por Henning Mankell do original intitulado Lisístrata de Aristófanes, numa produção a cargo de Manuela Soeiro, com o elenco constituído por Lucrécia, Adelino Branquinho, Rogério Manjate, Evaristo Abreu, Jorge Vaz e Graça Silva; esta última já não se encontra entre nós. Essa peça é para cá trazida dada a alusão à estratégia de “fazer uma greve de sexo, para acabar com a guerra”. Há nisso nudez. Uma ideia similar a essa, na vida real, é o que me foi revelado, em entrevista, por Leymah Gbowee, em 2013.

Entrevistei a prémio Nobel da Paz 2011 quando veio a Maputo. Durante a minha preparação, várias foram as propostas que me foram feitas, para animar a conversa, logo desde o seu início. Gostei mais da de Graça Samo, feminista e activista social que me sugeriu perguntar: What is the point of a revolution if we can’t dance? [De que serve uma revolução se não podemos dançar?] O gelo ficou logo quebrado, por essa frase fazer referência ao autocuidado nas dinâmicas de luta conta a discriminação social, que inclui o patriarcado. Foi a partir daí que a entrevistada me contou ter liderado um movimento de luta pelos direitos das mulheres e pela paz, no seu país, a Libéria.

Ela e outras mulheres pediram ao Presidente Charles Taylor para as incluir nas conversações a favor do fim da guerra na Libéria. Num momento de impasse, durante esse longo processo conversativo na busca de paz, esta mulher e outras formaram uma barreira para impedir a circulação dos homens-representantes do Presidente, aquando da sua saída de um desses eventos de negociações. Nesse ínterim, ela ameaçou despir-se, caso não se chegasse a algum consenso pela paz. A verdade é que, encurtando a história, tudo isso terminou na renúncia do presidente pela sua cadeira. A nudez, nessa terra e num acto público, poderia ter trazido grandes devastações, disse-o Leymah Gbowee.

As mulheres podem muito no mundo – e sabem-no. Têm força e estratégia de impacto forte, para derrubar forças opressoras. Só que nem sempre utilizam o seu poder. Mas, quando se decidem, o mundo pára. E pára mesmo. Neste momento em que “a sorte está lançada”, as preces por Moçambique, os ossículos divinatórios, estão todos apontados para “aquela mãe”, para que ninguém se recorde que pode fazer uma massinguita ou uma maravi. Enquanto isso, dancemos!

 

Sara Jona Laisse é membro do Graal-Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br

 

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