Nós somos aqueles que o Papa amou. Aqueles de quem ninguém falava, de quem ninguém queria saber, de quem ninguém se lembrava das dores, sofrimentos e arrependimentos.
Mas um dia chegaste, Francisco. Atravessaste os nossos muros frios, tornaste-os vidros transparentes e o mundo viu-nos, lembrou-se de nós, os descartados da sociedade. Desarrumaste-nos das gavetas gradeadas onde nos tinham fechado e mostraste-nos, fizeste com que nos vissem.
E não só que nos vissem para nos censurar, criticar ou julgar ainda mais do que já fomos lá fora e somos diariamente aqui dentro, mas fizeste com que nos olhassem com o olhar de Jesus: com compaixão, com fraternidade, com compreensão, com amor. Não era assim que Ele olhava para “os últimos”?
A tua veste branca iluminou a escuridão das nossas almas atormentadas, de cada vez que nos olhastes no fundo dos olhos e disseste: “Jesus perdoa sempre. Ele não se envergonha das nossas fraquezas”, ainda que tenhamos vergonha de nós mesmos por tudo o que fizemos e nunca devíamos ter feito.
Fizeste-te nosso próximo. Porque amaste sempre as periferias, aproximaste-te de nós e interrogaste-te: “Sempre que entro numa prisão penso: porquê eles e não eu?”. E isto dito por ti seguramente fez muito bons cristãos pensar na nossa realidade. Nós que vivemos dias de tanta angústia e noites cheias de tanto vazio.
Vieste encher os nossos corações e deixaste-nos reclinar as nossas cabeças cansadas no teu peito. Acolheste os nossos choros de remorsos como Jesus recebeu a mulher adúltera: sem julgar o passado e sem condenar.

Papa lava os pés a 12 reclusas da Prisão Feminina de Rebibbia, em Roma, a 28 de março de 2024. Foto Vatican Media
Desde o primeiro dia em que escolheste entrar numa cadeia que me pergunto porquê uma cadeia. Jamais algum Papa tinha visitado cadeias como tu! E fizeste-o sempre ao longo dos doze anos em que foste Papa. E ainda mais escandaloso que tudo, muitas vezes estávamos presos e nos visitaste para a cerimónia do lava-pés em Quinta-Feira Maior. Tu a lavar-nos os pés a nós?! Tu a pedir: “Rezem por mim.”?!
Foste de facto um Papa único, uma escolha ousada e perfeita do Espírito Santo. Tu, de joelhos e toalha nas mãos a lavar-nos os pés como um escravo ao seu senhor. Tu, a beijar-nos os pés e as nossas lágrimas a molhar-te as mãos.
Vieste até aos indignos, os marginais, os criminosos, os que “merecem o que estão a sofrer”, os que estão “a pagar por todo o mal que cometeram”.
Então, porque vieste tu ter precisamente connosco? Com tantos reis e países e palácios e presidentes à tua espera?
Vieste porque tu eras bondade, porque tu eras humildade, porque tu eras sinceridade, honestidade, verdade e autenticidade evangélica. Porque tu acreditavas, e várias vezes nos disseste isso mesmo, que qualquer pessoa pode sempre melhorar, recuperar e voltar ao bom Caminho de onde um dia se desviou.
Para ti, nós vivemos privados de liberdade, mas nunca de dignidade humana nem de respeito nem de misericórdia.
Obrigada, Papa Francisco, por teres ultrapassado a agressão dos arames farpados para nos abraçares e dares alento, força e coragem. Jamais te esqueceremos! Por ti prometemos ser verdadeiros Peregrinos de Esperança.
Lígia Pires é visitadora nos estabelecimentos prisionais de Custóias, Santa Cruz do Bispo e Polícia Judiciária/Porto.










