
“A vida é uma viagem, uma aventura, um encontro com a realidade da nossa existência que avança num fluxo contínuo, acompanhando o movimento perpétuo da Terra. E todos estamos implicados nesse processo.” Foto: Peregrinos de Santiago. DR
«Todo aquele que uma vez foi peregrino deve estar sempre pronto a partir de novo e a recomeçar a viagem. De nada serve dizer: já não sou um peregrino. Foste uma vez, não é assim? Então o caminho da peregrinação espera por ti novamente. Põe-te a caminho. A caminho!» (1).
A vida é uma viagem, uma aventura, um encontro com a realidade da nossa existência que avança num fluxo contínuo, acompanhando o movimento perpétuo da Terra. E todos estamos implicados nesse processo.
«O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor» (2)
Se adormecesse, a vida fluiria silenciosa, afastando-se de mim, e eu só veria o reflexo das pessoas e dos factos tangíveis da existência nas margens das águas. Então, perderia o sentido do meu caminho de peregrino e o desejo de desvendar o mistério do mundo, pensar e amar, que é o que há de mais importante na vida.
Ir em busca de uma esperança que nos liberte do medo de enfrentar as realidades de um mundo sempre em mudança e escolher um caminho que nos incite a acreditar nos valores simples da vida humana e a defendê-los, é a nossa condição de peregrinos.
«Nada deste mundo nos é indiferente» (3)
Cidades destruídas pelas guerras, cidades vazias, sem vida. Há nelas silêncio, mas é um silêncio de morte, de ruínas, de terra agonizante.
Terras de cor cinzenta, calcinadas pelo fogo dos incêndios, habitações, campos e florestas que arderam como palha. Agora nada resta. Os, outrora, campos cultivados, florestas verdes, jardins floridos, ruas com casas, apenas permanecem na memória do tempo.
Milhares de pinguins bebés da região Antártica, jazendo agonizantes devido ao degelo que derreteu a neve que os protegia. Amontoados, as suas sombras alongadas projectam uma visão fantasmagórica e trágica naquela brancura imaculada de neve.
Milhões de deslocados, vítimas das guerras, da crise climática, da pobreza, das perseguições políticas e religiosas no Sudão, na Síria e em muitos outros países, em busca de emprego e de paz, esperando ser tratados com dignidade e compaixão.
Em embarcações frágeis e inseguras, crianças, mulheres e homens, atravessam a imensidão do mar, enfrentando os maiores perigos. O caminho é longo, a viagem insondável e os barcos podem aportar às margens da morte.
Onde está a Terra das Promessas? Olham a terra, olham o céu e não sabem contra quem se revoltar, que Deus interpelar.
Nas cidades onde trabalham, eles caminham apressados, invisíveis. Vivem nas periferias onde encontrarão outros pobres dos países que os acolheram. Eles são os «outros», os nossos irmãos pobres, estrangeiros ou nacionais, «expulsos» das nossas vidas.
Como é que eles vivem? Como enfrentam, todos os dias, o viver num mundo hostil, perante a indiferença de tantos de nós que deles afastamos o nosso olhar e os abandonámos nas grandes metrópoles da riqueza e do progresso? Como é possível não sucumbir à desgraça, continuar a ser corajoso e arrancar uma prece, um grito de esperança num futuro melhor?
Quando poderemos voltar a percorrer, em paz, os lugares de ressonâncias bíblicas da Palestina e do Médio Oriente, tão caros ao povo cristão, judeu e muçulmano:
Jerusalém, repousando na sua brancura, Belém, cidade sagrada, Damasco e Antioquia por onde andou e pregou S. Paulo, o lago de Genezaré, em Tiberíades, onde Cristo caminhou sobre as ondas, a cidade de Ur, onde terão pastado os rebanhos de Abraão, Beirute, a cidade branca, à beira –mar, com a sua mistura de civilizações, Alepo, cidade mártir da Síria, devastada por uma sangrenta guerra civil , onde «o rapaz de Alepo » que « /de seu, é certo, nem a sombra possuía, / nem a que a luz estende, quando é opaco o corpo/………/ percebeu, por fim, que não havia regresso aonde voltar. » (4)
Voltaremos, de novo, a caminhar por ruas de casas brancas, onde na primavera florescem rosas e brincam crianças nos jardins?
«Não haverá uma nova relação com a natureza sem um ser humano novo» (5)
Esta é busca e é amor e nada é profano; pessoas, animais e plantas, tudo é sagrado.
Há a queda e há a redenção e da imensidão do abismo do mal, o homem fará renascer a esperança porque ele foi criado à imagem de Deus e Deus, nele, fará maravilhas.
Há a beleza e a luz que emanam dos gestos humildes de abnegação e coragem «[…] / dos (santos) que não foram canonizados/ […] / olharam o mundo com amor e os / homens como irmão. / Do chão que pisavam / rebentava a esperança num mundo de justiça e de salvação.» como nos lembra Maria de Lourdes Belchior no seu belo poema «Dia de todos os santos» (6). Eles ajudarão a salvar o mundo.
E da Terra ferida pela maldade e cupidez dos homens, voltaremos ao primeiro dia da Criação e reaprenderemos a ver, contemplar e sentir a grandeza das florestas, o resplendor do sol sobre as montanhas, a imensidão do mar, a beleza das cores das flores, a pureza do ar, o cheiro a terra húmida, o canto comovente das aves na primavera, a serenidade da hora vespertina, e o silêncio da noite que traz paz à nossa alma e gravaremos no coração estas horas de felicidade tão tranquila, que são como momentos de inocência e de bênçãos nas nossas vidas que guardaremos para todo o sempre.
«Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança» (7)
Notas
(1) Lagerqvist, Par – «Tobias o peregrino». Editorial Estúdios Cor, trad. Alexandre Fernandes, 1965, p. 211
(2) Papa Francisco – «Louvado Sejas Carta Encíclica Laudato Si». Apostolado da Oração, 2.ª ed., 2015, p.33
(3) Ibidem, p.25
(4) Barbosa, Luís Soares – «longos dias breve o medo». Officium Lectionis, Porto, 2022, p. 12
(5) Papa Francisco – «Louvado Sejas Carta Encíclica Laudato Si». Apostolado da Oração, 2.ª ed., 2015, p. 107
(6) Lopes, E. J. M. – Rezar. Livro de orações, selecção e organização de textos e imagens de E.J.M.L, desenhos originais de Francisco Providência, 2018
(7) Papa Francisco – «Louvado Sejas Carta Encíclica Laudato Si». Apostolado da Oração, 2ª ed., 2015
Maria do Céu Sousa Fernandes é professora aposentada e foi presidente da Fundação Bracara Augusta entre 2000 e 2013.










