Os Mais Velhos: “Não quero que a minha alma fique mais pequena”

A mãe do pescador, de Helen Mabel Trevor, 1893, exposto na Galeria Nacional de Pintura, de Dublin (Irlanda). Foto: Direitos reservados
No pequeno centro comercial do meu bairro, entro numa loja de venda de lâmpadas e outros acessórios domésticos para perguntar se podiam ir a minha casa substituir toda a iluminação por lâmpadas led– o que, com tantas urgências, tenho descuidado. Atende-me uma senhora brasileira e palradora.
Deixei fluir a conversa… Disse que o seu anterior emprego foi num lar de idosos na periferia de Lisboa, um “lar ilegal”, esclareceu. Que a dona do lar dava “chapadas” na cara dos velhinhos e a repreendia porque era demasiadamente carinhosa com eles e os “habituava mal”. A minha interlocutora disse-me que várias vezes ameaçou a dona de chamar a polícia e, como os maus tratos continuassem, assim o fez. A polícia foi e o lar foi encerrado depois de alertada a Segurança Social
A nossa calorosa brasileira perdeu o emprego. “Paciência, fiquei sem emprego e agora estou a ganhar menos, afirmou, mas não podia deixar que aquilo se passasse. Pensei na minha mãe que ficou no Brasil…”. Apeteceu-me dizer (não disse por pudor), “venham brasileiros alegres e carinhosos para nos apoiarem nesta urgência de cuidar bem dos mais velhos…”
Passou-se isto segunda-feira de manhã, 17 de Junho. Na crónica anterior, escrevi sobre os mais velhos a partir de uma informação estatística.
https://setemargens.com/os-mais-velhos/. E trago também aqui duas reações a esse texto, que me fizeram pensar: uma amiga interpelou-me dizendo que, apesar de muita coisa má, muita coisa boa também se está a fazer; que escuta muitos desabafos nos transportes públicos de pessoas que trabalham (sobretudo mulheres), tendo que colocar os pais em lares,e quanto isso lhes custa; que falar de “coração culpabilizado” tinha sido forte. Concordo, há cada vez mais pessoas para quem esta decisão é difícil e dorida, e também há boas residências para idosos. É que há tanta solidão nos mais velhos! Temos de começar a imaginar alternativas e têm sido divulgadas experiências bem interessantes noutros países, numa perspetiva inter-geracional.
A segunda reação foi da minha sobrinha mais velha que não gostou que eu usasse a palavra “velhos”. Segundo ela, tal palavra traz um estigma muito forte na nossa sociedade carente de solidariedade entre as gerações. Concordo também com ela, nunca gostaria que alguém chamasse “velha” à minha mãe, ou mesmo a mim que para lá caminho a passos largos…
Mas, em alternativa, não sei se gosto da palavra tão técnica de “idosos”, prefiro falar de “os mais velhos” ou usar a palavra “ancião” – que na sua etimologia significa homem/mulher velho, respeitado e venerado, palavra que não é comum usarmos e épena… Por eles sinto uma ternura especial já que são tão ignorados quando andamos na nossa vida de pressa pelas ruas e cidades e nos impacientamos quando os velhinhos aproveitam para conversar um pouco mais no balcão dos correios ou da sucursal do banco, ou atravessam mesmo as passadeiras devagar.
Curiosamente, há alguns anos, fui abalroada por um carro conduzido por um senhor idoso que não respeitou um sinal de prioridade. O meu pensamento voou para a minha querida mãe, então ainda viva, e tive pena do condutor que estava muito aflito e não tinha à mão os papéis do seguro. Combinámos que ele ia participar à sua companhia seguradora mas nada aconteceu. Passados dias fui à sua loja, ali perto. Interpelei-o calmamente e recebi a resposta típica de um “espertalhaço”: que eu ia com excesso de velocidade e que não tinha nada a declarar. A minha argumentação não o demoveu. Fui comida por parva, pois. Interpelei-o magoada com a desfaçatez dele, mas acabei por ter eu própria de declarar o incidente ao meu seguro, perdendo o correspondente prémio. Alguns amigos riram-se da minha ingenuidade: “e não arranjaste testemunhas?”; “e não chamaste a polícia”?
Não lamento, no entanto, o pensamento compassivo relacionado com a minha Mãe. Tratou-se de compaixão (cum-passio) ou misericórdia, ou empatia, ou cuidado, chamem-lhe o que quiserem. Tratou-se de um sentimento genuíno e de que andamos bastante esquecidos/as.
Conservo na minha estante esta tocante reprodução de uma pintura a óleo – “a mãe do pescador” – de Helen Mabel Trevor (c. 1893), que vi na Galeria Nacional de Pintura, em Dublin, Irlanda: as mãos sinuosas agarradas à bengala segurando o terço, o olhar vivo e arguto emergindo da teia de rugas que é o seu rosto, a placidez da espera num lenço lilás enquadrado pela roupa escura, um meio sorriso doce e cúmplice. Como eu amo aquelas mãos! E reconcilio-me com a forma como fui “explorada” pelo senhor de idade relembrando o conhecido poema de Sophia que fala de um “velho abutre”. Não, não quero que “minha alma fique mais pequena”.
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