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Autores - Maria Aldina Brás

Personalidade e Sexualidade na Saúde e na Religião

| 18/10/2024

Cadeados do amor na Ponte do Açougueiro em Liubliana, Eslovênia. Foto © Petar Milošević / wikimedia

 

A biologia moderna clarificou o desenvolvimento da personalidade, permitindo ver que o essencialismo não define a constituição da personalidade, de forma adequada. Recentemente, G. Oliveira Martins escreveu: “A sociedade democrática pressupõe a liberdade e a igualdade, a igualdade e a diferença e o valor inviolável da dignidade da pessoa humana para todos” (1). Ano após ano, por um longo processo de desenvolvimento biológico e tecnológico, sabemos hoje que a genética, o ambiente, a informação, a cultura, a história, incluindo a das religiões, estão envolvidos na grande complexidade que é a vida actual. O sexo combina genes de dois indivíduos, sendo que populações que se reproduzem sexualmente podem combinar genes vantajosos mais facilmente do que populações celibatárias. O sexo desempenha um papel importante em dar estabilidade à espécie humana e promover a diversidade genética.

A sexualidade humana “é uma componente fundamental da personalidade, um modo de ser, de se manifestar, de comunicar com os outros, de sentir, de expressar e viver o amor”. (2)

O sexo faz parte da pessoa inteira, a vertente biológica não se pode separar da vertente psicológica. Ela manifesta e expressa o mistério da pessoa como realidade relacional, isto é torna-se o lugar humano da realização conjunta de si mesmo e do outro. Ela acompanha a maturação da pessoa, nas suas faixas etárias, infância, adolescência, juventude, idade adulta e envelhecimento, de onde temos que ter presente que não podemos sobrecarregar humana e moralmente a pessoa (3).

Relativamente ao vínculo de casal, amor romântico e evolução no homem, Garth e seus colaboradores, integrando evidências de uma ampla gama de disciplinas, afirmaram que o amor romântico é um dispositivo de compromisso evoluído e universal: i. o amor romântico é um “dispositivo de compromisso” para motivar o vínculo de pares em humanos, ii. o vínculo de pares facilitou a história de vida dos humanos ajudando a fornecer o investimento massivo necessário para criar filhos, iii. manter vínculos de pares de longo prazo (junto com relacionamentos familiares) facilitou a evolução da inteligência social e habilidades cooperativas, iv. atenuar mecanismos de busca de parceiros; v. tem assinaturas comportamentais, hormonais e neuropsicológicas específicas; vi. está ligado a melhor saúde e sobrevivência, vii. desafia a existência de casamento arranjado, não-monogamia, divórcio e infidelidade, viii. a mente do relacionamento íntimo parece ser construída para regular e monitorar relacionamentos. (4).

“Amor e felicidade tocam-se, cruzam-se, lutam, podem mesmo ser amigos, mas têm vidas separadas. A felicidade é estarmos à altura do que nos acontece, ninguém o pode fazer por nós.” In: “Talvez para sempre” de José Gameiro”

João Garcia, no Prefácio do livro, referido na legenda acima, escreve: “Gameiro não tem um receituário para a felicidade. Fala-nos de situações que nos podem ensinar a viver – ou a morrer, como aquela em que o marido deixa escrito, depois de muitos anos a acarinhar a mulher, vítima de AVC: “Agora decidi pelos dois, logo vou despir-te, vou embrulhar-me no teu corpo e vamos adormecer….”

No meu modo de ver, realço a indiscutível noção de que o assumir da verdade, a nosso respeito, é um ato genericamente bom e esta deve ser comunicada. “Para simplificar Recanati (1986) , se o falante A afirma algo ao falante B, expressando algo que o falante A considera verdadeiro, com a intenção aberta de que o falante B venha a considerar essa coisa como verdadeira também, e a coisa dita dá ao falante B razão para acreditar naquilo que o falante A considera verdadeiro, e o falante B reconhece a intenção do falante A de dizer algo que transmite abertamente o desejo de dar ao falante B razão para acreditar naquilo que o falante A considera verdadeiro, e o falante B reconhece essa intenção aberta – somente então obtemos o que é denominado intenção comunicativa reflexiva.”(4)

Duas pessoas que começaram a namorar e não discutiram, se isso significava exclusividade sexual/íntima/romântica têm um relacionamento que é categorizado como monogamia implícita. Da mesma forma, duas pessoas que decidiram “ficar firmes”, mas se basearam em suposições sobre o que isso significava, também são categorizadas como monogamia implícita. Ao contrário, um casal que passou por uma cerimónia religiosa cujos votos contêm referências à exclusividade, ou que se casou civilmente em um país que tem leis antiadultério, é classificado como monogamia explícita. Em relação à não monogamia encoberta, talvez o exemplo mais óbvio, seja a “traição” paradigmática, ou “infidelidade”, mas também é a violação das regras, acordos ou expectativas negociadas de envolvimento em um arranjo não monogâmico baseado em consentimento; visto da perspectiva de todos os envolvidos, é a não-monogamia encoberta, mas pessoas diferentes ocupam várias posições em relação à sua encoberta: é encoberta para a pessoa que está encobrindo um sentido diferente do da pessoa que está sendo “traída”, e se a terceira parte sabe sobre o relacionamento existente, esse é ainda um sentido diferente. (5)

Num estudo deste ano, no Reino unido, foi examinado o interesse por múltiplos parceiros em grupos de heterossexuais. Os homens eram seis vezes mais abertos a tal comportamento do que as mulheres, sendo estas pouco abertas ao interesse em mais do que um parceiro. Embora todas as formas de não-monogamia fossem indesejáveis em relação à vida de solteiro e à monogamia, o interesse por aquela parecia surgir apesar do desânimo social (6).

Outro trabalho recente, este no Canadá, refere que a preferência masculina por mulheres mais jovens, que são geralmente de baixa estatura, têm maior risco de complicações obstétricas. A mortalidade materna decorrente da seleção sexual e da escolha do parceiro teria o efeito de, a longo prazo, levar os homens a preferir mulheres mais jovens, muitas vezes resultando em, acasalamentos quase infantis, que ainda continuam a ser uma causa significativa de mortalidade materna (7). Ademais, sabemos que várias doenças, incluindo a depressão, têm como factores psicossociais desencadeantes, o ambiente comunitário, algumas das religiões, o status sócio-económico, a disfunção da relação conjugal e a humilhação (8). De lembrar também, que a não-monogamia em relações sexuais, aumenta a incidência e a probabilidade de infecção causada por agentes sexualmente transmissíveis.

Por outro lado, o Papa Francisco afirma que o prazer sexual “é um presente de Deus”. Só quem nunca experimentou um acto sexual por amor, pode ter dúvidas acerca desta afirmação. O mistério da nossa sexualidade é único para cada ser humano. “Seja bendita a sua fonte! Alegre-se com a esposa da sua juventude. Gazela amorosa, corça graciosa; que os seios de sua esposa sempre o fartem de prazer, e sempre o embriaguem os carinhos dela.” Provérbios 5:18-19.

Sophia e Lev Tolstoi

“Sophia e Lev Tolstoi: ela foi a sua musa, assistente e confidente, a primeira leitora das duas primeiras grandes obras do marido, aconselhando-o, até” (7MARGENS)

 

Este escritor russo, autor de “Guerra e Paz”, deixou-nos a seguinte frase: “Aquele que conheceu apenas a sua mulher e a amou, compreende mais de mulheres do que aquele que conheceu mil.”

O jovem filósofo americano Kyle York que tem escrito sobre ética do amor, aponta vários pontos em defesa da monogamia: o primeiro é a facilidade prática, ao juntar outra pessoa, é evidente que se torna mais difícil caminhar juntos, dialogar, planear; o segundo será a intimidade e consequentemente a diversidade de influência e interacção mútuas; outra razão é a especialidade, uma pessoa não se sente amado/a, quando há um/a substituto/a, ou mesmo um/a preferido/a.(9)

Eu adiciono aquele que é realmente o ponto que me é mais sensível: os filhos/filhas. Será saudável e fácil alguém conseguir conciliar, a não-monogamia com filhos/filhas e.g. adolescentes? A pediatra especializada em Medicina do Adolescente, Helena Fonseca, escreveu três artigos neste jornal, no final do mês passado, sobre a adolescência, a que chamou “idade da turbulência”. Terminou com a frase: “Urge descobrir abordagens inovadoras que nos permitam ir ao encontro das reais necessidades das famílias.”

 

Bibliografia:
1-Oliveira Martins G: 7Margens, 2024
2-Magistério Católico: Orientações educativas sobre o amor humano, 1983
3-Cf. “Bioética para todos” de J R Costa Pinto, SJ, 2006
4- Garth e tal.: Perspect Psychol Sci., 2015
5- Cardoso D: Open Res Eur., 2024
6- Thomas AG et al.: Arch Sex Behav., 2024
7-  Santos J et al.,:  Reprod Sci., 2019
8- Shromona D et al.: PLoS One, 2024
9- Kyle York: Journal of Social Philosophy, 2024.

 

Maria Aldina Brás é geneticista médica e Professora aposentada da UNL.

 

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