
“ ‘Encher a vida dos outros com coisas belas, sublimes, edificantes’. Ainda que o belo possa ser apenas sorrir, o sublime seja apenas perdoar, o edificante seja dizer bem ou apenas calar.” Foto © Tim Mossholder | Unsplash
A felicidade como efeito colateral foi referida pelo psicólogo judeu Viktor Frankl no seu livro Em Busca de Sentido, que retrata a sua vivência nos campos de concentração. Diz Frankl: “Não procurem o sucesso. (…) Porque o sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de uma dedicação pessoal a uma causa maior que a pessoa ou como subproduto da rendição pessoal a outro ser.”
Exemplificando, Frankl sublinha a importância da liberdade pessoal neste processo, que é independente das circunstâncias: “Nós que vivemos nos campos de concentração podemos recordar homens que andavam pelos alojamentos confortando outros, dando o seu último pedaço de pão. Eles devem ter sido poucos em número, mas ofereceram prova suficiente que tudo pode ser tirado do homem, menos uma coisa: a última das liberdades humanas – escolher a sua atitude em qualquer circunstância, escolher o próprio caminho.”
Não se trata, porém de uma atitude qualquer, ou de uma escolha qualquer: a felicidade como efeito colateral resulta da “dedicação a uma causa maior do que a pessoa” ou a “rendição pessoal a outro ser”.
O mesmo caminho foi feito por Nelson Mandela, com as mesmas conclusões (ou os mesmos efeitos). Tornando-se uma pessoa espiritualmente superior exatamente durante o seu cativeiro de quase trinta anos, Nelson Mandela inspirou-se diariamente nos últimos versos de um poema de William Ernest Henley, “Eu sou o mestre do meu destino: Eu sou o capitão da minha alma.”
“O mestre do destino, o capitão da sua alma” usou a liberdade para a edificação e não para a ruína: unindo em vez de dividir, perdoando e enterrando, com o perdão, todas as feridas do passado, e podendo seguir ligeiro o seu caminho.
Na ligação entre “escolha” e “bem” há um aspeto mais decisivo ainda: precisamos dela para SER. Porque cada escolha de bem (por mais difíceis que sejam as circunstâncias) é performativa, ou seja, contém em si o poder de nos revelar a nós mesmos e nos colocar no trilho da nossa própria história.
O Papa Francisco chama “poetas sociais” a quem prefere a realidade à ideia e faz do concreto da vida o palco das suas escolhas, tecendo maravilhas num mundo onde Deus pode assim habitar com a Sua graça.
Trata-se, tão simplesmente, de “encher a vida dos outros com coisas belas, sublimes, edificantes”. Ainda que o belo possa ser apenas sorrir, o sublime seja apenas perdoar, o edificante seja dizer bem ou apenas calar.
No atordoamento da nossa vida, preferimos repetir procedimentos e não escolher, nem sequer questionar. Paramos pouco para avaliar o peso de cada gesto, de cada palavra, de cada escolha, como se “no barulho das luzes” nada fizesse a diferença. Mas tudo faz a diferença, a começar pela nossa própria estatura moral e o nosso caminho como seres humanos.
Se a opção por amar (condição de felicidade) constitui efetivamente o critério sobre o valor ou a inutilidade duma vida humana, devemos questionar-nos diariamente sobre o amor. Escolhemos amar? Onde amamos mal? Como podemos amar melhor?
Deixando de ser o nosso próprio eixo (no critério, na referência e na finalidade), podemos viver a mesma vida, porém a vida não é a mesma: enche-se de rostos, de encontros, de profundidade e de propósito.
E a cada dia somos não apenas nós e o nosso pequeno mundo, mas a vida que nos rodeia e Deus amando em nós nas nossas (crescentes) escolhas de bem. Sabemos como acordamos, mas no mistério do amor, não sabemos quem seremos no final. Com a graça de Deus em nós, seremos, sim, seguramente, mais nós mesmos e, colateralmente, mais felizes.
Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária. Contacto: dina.matosferreira@gmail.com









