
Há vinte anos que ‘aporto’ todos os verões a este belo lugar do litoral alentejano. Aliás, falhei dois verões, em que estive a trabalhar fora. E senti falta.
Casei em 2004 e ‘deixar pai e mãe’, significou também abarcar inteiro este lugar de férias. Há um encanto especial nesta terra. Os meus sogros começaram aqui a veranear nos anos setenta, com mais uns poucos casais. A filha de um deles casou com o Rui Veloso, que depois lançou a conhecida música. A partir daí, o crescimento. Mas não demasiado. Ainda tem pinta de aldeia; as pessoas ainda se encontram espontaneamente, no larguinho ou no pão quente, num dos dois mini mercados ou na rua principal.
Todos os verões, muita família, amigos e conhecidos de muitos lados. Todos os anos chega mais alguém. Casais com muitos filhos pequenos, uma alegria. Parece que tudo aqui converge. A minha natural melancolia não tem grandes hipóteses. A praia é libertar-se de muita coisa. As conversas fluem, baixam-se defesas, despem-se hesitações. Muita boa conversa naquela praia alentejana.
O Sol intenso, a areia quente, as falésias a perder de vista, retalhadas pela força do vento e das ondas do mar; as várias praias e enseadas, grandes ou pequenas, a ilha do Pessegueiro. Paisagens belíssimas, temperadas, longe, pelas chaminés de Sines, que recordam o trabalho (que ficou entre parênteses) e a outra parte da vida e da ‘civilização’.

“Há vinte anos que ‘aporto’ todos os verões a este belo lugar do litoral alentejano.” Foto: Porto Covo. © Teresa Salgueiro
Aqui vivi a infância dos meus filhos: as longas sestas deles bébés, as noites pouco dormidas, vincos na cara, cabelos desgrenhados. Agora são as suas adolescências, outros desafios. Adolescentes em bando povoam a praia e a vila, o portinho. À noite, andam de casa em casa, ou ficam no parque. Pensamento coletivo e grandes teses, sempre com a “mulher do Mickey” a ajudar. Mas aqui a noite acaba cedo. Noitadas madrugadoras são fora daqui, em Vila Nova de Milfontes.
E as pequenas tradições da última semana de agosto: as festas da Senhora da Soledade (não conheço outro lugar com esta evocação Mariana), com os seus cantores de verão, mais ou menos pimba; o banho madrugador de 29 de agosto; a corrida aos patos nessa tarde; a procissão noturna. Quem terá inventado ou juntado tudo isto? São momentos cultuais, quase litúrgicos, espaços de identidade. Muitas memórias que ficam.
Padres amigos aqui fazem férias ou passam de visita. Calhando domingo, sempre alguém organiza Missa na casa com jardim doutro alguém. Missas caseiras que os mais pequenos não esquecem e os adultos agradecem!
Há quem organize outras atividades e encontros, jogos e mais. Agradeço e às vezes alinho mas prefiro ler, conversar, espraiar, nadar, sem muita ordem nem iniciativa. Essas ficam para o resto do ano! Assumo a passividade da areia, que a todo o tempo recebe a força do mar. Ou como a alma humana que tudo recebe do Criador. Renovo a vitalidade necessária para o novo ano que começa em setembro (só no calendário é que começa em janeiro!). Aqui ou ali, acompanho o meu filho surfista, uma peladinha, algum vólei ou spikeball, sem muita ordem nem iniciativa. Descansar também é um verbo cristão e, como escreve o P. Vasco, só “avança quem descansa”!

“Mas aqui a noite acaba cedo. Noitadas madrugadoras são fora daqui, em Vila Nova de Milfontes.” Foto: Porto Covo ao entardecer. © Teresa Salgueiro
Pedro Salgueiro









