Quem vive na cidade, sobretudo nas grandes metrópoles, tem muitas vezes a ideia de que no resto do país nada se passa. Verdade que as notícias são raras remetendo esses territórios para uma invisibilidade e silêncio apenas quebrados por um ou outro evento que surge. Não existindo no nosso país a afirmação de um marketing territorial, cabe às organizações desenvolverem o seu próprio plano de marketing e divulgarem as respostas que vão encontrando para os problemas dos seus territórios. Acontece que as organizações sofrem de falta crónica de recursos humanos e financeiros e o tempo que lhes resta é para melhorarem e implementarem, com muito esforço e dedicação, os projetos que se comprometem desenvolver com e para as populações. Quando se fala tanto do interior, talvez coubesse ao poder central criar condições para o desenvolvimento e implementação de um plano de marketing territorial a nível nacional. A invisibilidade dos projectos desenvolvidos e seus protagonistas não é sinónimo de inércia, muito pelo contrário.
Voltando ao que me trouxe a esta prosa. Talvez muitos dos leitores e leitoras nunca tenham ouvido falar da ANIMAR, apesar de no passado mês de setembro ter festejado o seu 32ª aniversário (17 de setembro). A sua fundação em 1993, pretendeu “congregar o entusiasmo e o ativismo de cidadãos e cidadãs, assim como organizações da sociedade civil, com o objetivo de afirmar e dar voz ao desenvolvimento local no nosso país.” A ANIMAR é sobretudo uma rede de organizações e pessoas congregadas na vontade de promoção da cidadania e do desenvolvimento local.
Prémio Cidadania & Território

Entrega de prémio Cidadania & Território 2023/2024. Foto © Animar
A ANIMAR, em parceria com o Fórum Cidadania & Território (já extinto) lançou, há dois anos, o Prémio Cidadania e Território “com o objetivo de reconhecer e celebrar projetos colaborativos que promovam o bem-estar e o reforço do poder das comunidades”. Esta distinção é apoiada pelos Fundos Europeus, através do programa “Pessoas 2030” (Portugal 2030), reforçando assim o compromisso da ANIMAR com o desenvolvimento local.
Após uma breve triagem às candidaturas recebidas no sentido de perceber se cumpriam os critérios estabelecidos no regulamento, nomeadamente a sua inscrição na plataforma dos ODSlocal (Plataforma Municipal dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), foram apuradas dezassete candidaturas submetidas à análise do júri. Acresce que, por uma questão de justiça e de equilíbrio e de acordo com o regulamento, as organizações apenas podiam candidatar-se com um dos seus projetos.
Tendo feito parte do júri nestes dois anos gostaria de vos apresentar os projetos que este ano, entre as várias candidaturas, mereceram a distinção do júri.
Das 17 candidaturas recebidas (algumas foram amavelmente recusadas por não obedecerem aos critérios), o júri, composto por cinco elementos e presidido pelo Prof. João Ferrão, de acordo com o regulamento nomeou um vencedor e atribuiu três menções honrosas. Na ausência do Presidente do júri, coube-me a mim, na cerimónia de entrega dos prémios, dizer umas breves palavras em nome do júri: “Não se pense que foi tarefa fácil a que coube ao júri, já que a qualidade dos projetos apresentados tornou a tarefa bem difícil. A nossa escolha em nada diminui a qualidade dos outros projetos e, importa sublinhar, que qualquer um deles poderia estar neste palco. Resta-me, em nome dos membros do júri, agradecer a todas as organizações a sua participação e felicitá-las pelo trabalho desenvolvido. Finalmente, uma palavra de profunda gratidão para todos aqueles e aquelas que nos diferentes territórios teimam em não desistir em encontrar soluções para os problemas e necessidades das populações. Muito obrigado pelo vosso esforço e por tornarem este país melhor e mais coeso.” Tratando-se de palavras de circunstância, como sempre acontece nestes eventos, e conhecendo eu muitos dos intervenientes nos territórios, elas foram e são verdadeiramente sentidas e expressam a minha profunda gratidão.
Não será pelo valor pecuniário do prémio (mil e quinhentos euros), mais simbólico do que significativo para as organizações, mas sobretudo pelo que representa de reconhecimento do trabalho desenvolvido e da confiança que nele se deposita para a transformação do território. Tratando-se de um prémio, muitos ficarão de fora sem que tal signifique qualquer tipo de desqualificação do seu trabalho, mas apenas uma opinião guiada por critérios que, por mais objetivos que sejam, contêm em si uma carga subjetiva que tem a ver com a forma de olhar de cada um dos membros do júri.
Por isso, e na parte que me toca, há em mim um enorme sentimento de gratidão por todos aqueles e aquelas que nos territórios teimam em empenhar os seus esforços na procura de soluções para os problemas das populações. Eles e elas tornam este país melhor e todos nós somos devedores desse seu trabalho.
Se não é pelo valor pecuniário do prémio, o que motiva as organizações a concorrer?
Teresa Barradas, Coordenadora do Gabinete de Apoio ao Cuidador Informal de Odemira – Cui(DAR)+, um dos projetos que recebeu uma menção honrosa, nas suas declarações ao 7MARGENS foi muito clara quanto às motivações sem menosprezar o valor do prémio:
Efetivamente, não foi o valor monetário a nossa motivação. No entanto, reconhecemos que qualquer apoio financeiro tem sempre impacto na sustentabilidade de projetos sociais. O que realmente nos moveu foi a oportunidade de dar visibilidade a uma iniciativa que, embora local, é inovadora e pioneira a nível nacional no apoio ao Cuidador Informal. Esta distinção permite reforçar o reconhecimento do trabalho desenvolvido em rede, partilhar boas práticas, inspirar outras entidades e territórios e sublinhar que é possível criar respostas de proximidade com impacto social real. Ao candidatar-nos, quisemos também valorizar e motivar os parceiros que diariamente constroem este caminho connosco.
Para Teresa Pouzada, diretora não executiva da ADRITEM, organização promotora do projeto Madrilusa, (menção honrosa) disse ao 7MARGENS que a “candidatura ao Prémio Cidadania e Território surgiu da vontade de dar visibilidade ao impacto humano e social do Madrilusa. Este projeto constitui uma aliança de redes que une instituições, comunidades e territórios em torno da integração dos jovens imigrantes e pretende inspirar outras entidades a adotar práticas inclusivas semelhantes. Candidatar-nos foi uma forma de partilhar histórias reais de transformação e de mostrar que a cidadania ativa começa com pequenos gestos de acolhimento e cooperação.”
Por sua vez, Henrique Mira Godinho, técnico na AguiarFloresta (Associação Florestal e Ambiental de Vila Pouca de Aguiar), do projecto Life Maronesa declarou que “O desafio para apresentar candidatura, veio da colaboração que temos tido com a ANIMAR que foi quem nos lançou o desafio. A ANIMAR faz parte da nossa Board de Stakeholders e tem vindo a acompanhar e colaborar em algumas das actividades que temos dinamizado que estão relacionadas com o apoio ao desenvolvimento de operadores turísticos locais e o trabalho de sensibilização junto da comunidade da região.
Protagonistas do prémio 2025

Entrega do Prémio ao vencedor pela Presidente da Animar, Célia Pereira e José Centeio (membro do júri). Foto © Animar
Tendo feito parte do júri nestes dois anos gostaria de vos apresentar os projetos que este ano, entre as várias candidaturas, mereceram a distinção do júri.
Alterações climáticas e modelo sustentável de produção pecuária
Projeto vencedor: Life Maronesa
Trata-se de um projeto de Governança, informação e ação climática, que visa a implementação de estratégias de adaptação às alterações climáticas através de um modelo sustentável de produção pecuária em modo extensivo.
O projeto LIFE Maronesa é o resultado do trabalho de uma equipa multidisciplinar, que integra diferentes parceiros técnicos e científicos, assim como grupos de Baldios dos concelhos de Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Mondim de Basto e Ribeira de Pena, a região com o maior número de explorações de bovinos da raça Maronesa. Tem como principal objetivo melhorar a resiliência climática das explorações pecuárias e promover o aumento da retenção de carbono na matéria orgânica do solo. Este projeto tenta congregar o saber científico e o saber prático dos criadores através das associações e de empresas de criação de gado bovino (raça maronesa), numa perspetiva ecológica de sustentabilidade e de rentabilidade.
São parceiros do projeto: Instituto Politécnico de Bragança, ACM-Associação de Criadores do Maronês, a empresa Casal da Bouça – Sociedade Agropecuária, Lda (criação de bovinos para produção de carne) e ainda a entidade promotora e coordenadora do projeto a Associação Aguiar Floresta – Associação Florestal e Ambiental de Vila Pouca de Aguiar.
Henrique Mira Godinho, gestor de projecto, em resposta à pergunta colocada pelo 7MARGENS que significado teve para o projecto o prémio e em que medida pode alterar algo na relação com o público envolvido, respondeu:
Não vai alterar a forma como trabalhamos, mas pode criar oportunidade para aumentar a nossa visibilidade e passar a mensagem aos nossos seguidores, que o projecto é mais do que um projecto de pastorícia, é um projecto de criar riqueza económica e social nos territórios do interior do país. Creio ter sido principalmente um reconhecimento do bom trabalho desenvolvido pela equipa do Projecto (Equipa LIFE Maronesa), principalmente dos criadores de gado maronês que trabalham com paixão e tratam dos seus animais todos os dias da semana (de segunda a domingo) e ainda mostram prazer e disposição a receber todo o tipo de público (de académicos a crianças) para partilhar um pouco do seu dia-a-dia.

Workshop gastronómico para elaboração de novas receitas com partes menos nobres da carcaça. Foto © Life Maronesa
Quanto ao futuro, nomeadamente após o final do projeto, Henrique Mira adiantou ao 7MARGENS:
Fazer uma previsão concreta do futuro é sempre arriscado porque o território e a comunidade da Serra do Alvão estão dependentes de variáveis que estão fora do nosso controle, mas que tentamos ao máximo influenciar essas variáveis a favor da comunidade e de outras regiões de montanha do Norte do país. Penso que em termos de números concretos, podemos alcançar no final do projecto um considerável aumento de herbívoros domésticos nas áreas de implementação do projecto e a criação indirecta de novos postos de trabalho relacionados com a criação de gado, comunicação, turismo e gastronomia.
Inclusão e oportunidades para jovens imigrantes
Menção honrosa: projecto Madrilusa
O MADRILUSA é uma iniciativa inovadora que promove a integração de jovens imigrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em Portugal, com foco na capacitação, cultura e empregabilidade. Através de programas de formação, apoio à inserção no mercado de trabalho e criação de redes de acolhimento, o projeto visa fortalecer competências sócio-emocionais e sociocognitivas, garantindo que estes jovens tenham oportunidades reais de participação ativa na sociedade.
Com uma abordagem colaborativa e um forte envolvimento da comunidade, o MADRILUSA quer transformar desafios em oportunidades, promovendo a inclusão e valorizando a diversidade cultural.
Este projeto resulta da parceria da Adritem, Adraces, CoraNE e Federação Minha Terra.
Juntos, construímos um futuro mais justo e inclusivo!
Teresa Pouzada disse ao 7MARGENS que: A menção honrosa é, para nós, um reconhecimento muito significativo. Representa a validação de um trabalho colaborativo entre dezenas de parceiros e imigrantes que acreditaram na integração como caminho para o futuro. É também um incentivo para continuar a construir pontes entre culturas, mostrando que a cidadania se faz todos os dias: nas escolas, nas empresas, nas famílias, na academia e nos municípios.

Luso Academia Foto © Madrilusa
Terminado o projecto, Teresa Pouzada acredita que:
O Madrilusa deixará uma rede consolidada de cooperação entre instituições públicas, associações, universidades e empresas, facilitando o acesso dos imigrantes ao emprego, à formação e à vida comunitária. A Luso Academia continuará ativa como espaço de capacitação e partilha de saberes, com atividades culturais e oficinas de design étnico. Prevemos ainda que a plataforma digital MadriLusa se torne uma ferramenta permanente de apoio ao acolhimento e ao empreendedorismo multicultural. Mais do que um projeto, o Madrilusa tornou-se um movimento de integração e esperança.
Cuidar dos mais velhos é apoiar quem deles cuida
Menção honrosa: projecto Cuidar+
Numa região em que a população tem vindo a envelhecer, constata-se que muitos dos cuidadores são eles também já de idade avançada.
Esta iniciativa preconiza a criação de uma estrutura de apoio e de acompanhamento dos/as cuidadores/as formais e informais, centrado em 3 níveis de bem-estar – Psicológico, Social e Físico – através do seu Gabinete de Apoio à Pessoa Cuidadora, onde esta poderá recorrer para um atendimento e acompanhamento psicológico e social dos/as cuidadores/as, a título gratuito.
Para Teresa Barradas, receber uma menção honrosa significa, acima de tudo, que estamos no caminho certo. Este reconhecimento nacional valida a relevância social do projeto e reforça a importância de continuar a investir no apoio ao Cuidador Informal, uma causa ainda pouco visível mas urgente no país. Para a TAIPA, para a equipa técnica e para todos os parceiros envolvidos, esta distinção é um incentivo: demonstra que o trabalho realizado no terreno é reconhecido e que a resposta que construímos faz a diferença na vida das pessoas.

“No futuro, queremos estar ainda mais próximos das freguesias do interior do concelho de Odemira, onde o envelhecimento está muitas vezes associado ao isolamento e à solidão.” Foto © Cuidar+ (Taipa)
No que se refere à sustentabilidade do projecto referiu que:
A sustentabilidade do projeto tem sido uma prioridade desde o início e está a ser trabalhada em conjunto com os parceiros. Sabemos que o desafio dos cuidadores informais é contínuo e diário, por isso estamos a preparar um plano de ação mais robusto para 2026, que nos permita reforçar e alargar a intervenção. No futuro, queremos estar ainda mais próximos das freguesias do interior do concelho de Odemira, onde o envelhecimento está muitas vezes associado ao isolamento e à solidão. Vamos também investir em novas respostas, nomeadamente: apoio ao cuidador no período pós prestação de cuidados; melhoria do acesso à informação útil para cuidadores e famílias; ações de capacitação e sensibilização comunitária e na criação e partilha de materiais informativos acessíveis. Neste sentido, porque o desafio dos Cuidadores Informais não tem fim, o nosso compromisso é claro, continuar a promover soluções de proximidade que valorizem o papel do cuidador informal e garantam a sua qualidade de vida.
Como é sabido, Portugal é um país envelhecido. De acordo com a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) entre os 308 municípios do país, 188 viram reduzir o número de jovens desde as últimas eleições autárquicas, em 2021.Contudo, 120 municípios fogem à regra e viram o seu número de jovens crescer. Entre estes municípios encontra-se Odemira em que o número de jovens cresceu mais de 12%. Este crescimento deveu-se essencialmente à população imigrante residente no concelho. No país, o número de residentes em idade ativa (15-64 anos) para cada idoso passou de 2,68 em 2021 para 2,59 em 2024.
Rede de mulheres guardiãs da natureza e desenvolvimento sustentável do mundo rural
Menção honrosa: projeto Guardiãs da natureza
O envolvimento e capacitação das mulheres como guardiãs e defensoras da sustentabilidade no meio rural é um elemento incontornável para a concretização de um modelo de desenvolvimento assente na valorização do território e dos valores naturais.
A criação da “Rede de mulheres guardiãs da natureza e desenvolvimento sustentável do mundo rural” irá contribuir para implementar modelos de gestão mais próximos de quem está no território, permitindo o reconhecimento do valor do património natural por parte das comunidades locais e a percepção e apropriação do desígnio da biodiversidade pela sociedade, como fundamental ao desenvolvimento do país, contribuindo para a melhoria o seu estado de conservação e para a regeneração dos seus ecossistemas.
O projeto irá desenvolver-se em territórios que incluem áreas inseridas na Rede Nacional de Áreas Protegidas:
- Parque Natural do Litoral Norte (concelho de Esposende)
- Parque Natural de Montesinho
- Parque Natural da Serra da Estrela
- Reserva Natural das Dunas de São Jacinto / Reserva Natural do Paul da Arzila
- Parque Natural do Estuário do Sado
- Parque Natural do Vale do Guadiana
- Parque Natural da Ria Formosa
- Reserva Natural do Estuário do Tejo
- Parque Natural do Tejo Internacional
- Parque Nacional da Peneda-Gerês
- Parque Natural das Serras d’Aire e Candeeiros
- Paisagem Protegida da Serra do Açor e Sítio Rede Natura 2000 da Serra da Lousã
- Parque Natural do Douro Internacional
O projeto “Rede de mulheres guardiãs da natureza e desenvolvimento sustentável do mundo rural”, insere-se no Movimento das Mulheres pelo Clima, dos países de língua portuguesa para o Mundo.
Esta rede de mulheres guardiãs da natureza desempenha um papel crucial na construção de um futuro mais equitativo e sustentável. Ao valorizar e fortalecer o papel das mulheres nessas áreas, estamos a garantir uma abordagem mais abrangente e holística para a proteção da natureza e a promoção do desenvolvimento sustentável das economias locais.
Procuramos mulheres empenhadas em apoiar soluções de mitigação e adaptação climática. Mulheres que defendam a natureza, que liderem ações para garantir a resiliência do nosso território, cuidando e guardando o património natural e cultural e preservando a biodiversidade.

“Procuramos mulheres empenhadas em apoiar soluções de mitigação e adaptação climática.” Foto © Guardiãs da Natureza.
(Nota: o 7MARGENS solicitou aos quatro projectos contemplados respostas a três perguntas , não tendo recebido qualquer resposta do projecto Guardiãs da Natureza)
Para quem estiver interessado, deixamos aqui os outros projectos concorrentes e respectivos links:
Velhos Amigos em Quiaios
Sexto Sentido
CLAIM – Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes
Aldeias Sem Fronteiras
Quintal Barafunda – Horta em Permacultura
Liga de Craques | Conversas de Balneário e Bola de Ouro
ECF edifícios: Campanha Casa Quenta para Toda a Gente
Gabinete de Apoio Social e Psicológico – GASP
Mercadinho da Comunidade
ECOMARKET – AgroEcologia para Tod@s
Human Coop: Academia da Mente
Espaço T: Galerias Comunitárias +10 +1
Terra Transmutável: Mercadinho da Comunidade












