
Carta do padre Abel Varzim, em 22.12.1941
Na antevéspera da noite de Natal de 1941, o padre Abel Varzim dirigiu uma extensa carta ao presidente da Junta Central da Ação Católica, em que dava conta de uma reunião absolutamente extraordinária (e secreta) que ele e o padre Joaquim Alves Correia tinham tido na véspera, na sede nacional da LOC (Liga Operária Católica), à Rua das Janelas Verdes, em Lisboa.
O autor da carta chamou-lhe “um facto inédito” e contou o seguinte:
(…) Falámos a 18 homens que desejavam ouvir-nos, mas que militam em campos diferentes do nosso. Entre eles, estavam cinco que já sofreram os maiores tormentos pelo seu ideal; um deportado, depois de muitas torturas, em Tomor (sic), durante largos anos; outro com três anos de ‘campo de concentração’ do Tarrafal, em Cabo Verde, obrigado a trabalhar com uma picareta, tendo sido sempre empregado de escritório; outro ainda com vinte e oito meses de prisão no desterro no forte de Angra, etc. O nosso contacto durou três horas e meia.
O texto continua a relatar o contacto que não foi com extraterrestres, mas com militantes credenciados do Partido Comunista Português e vem transcrito e analisado numa obra da autoria do madeirense Edgar Silva, intitulada Vendaval de Utopias – Os católicos da revolução e o PCP, 1965-1976, editada pela Página a Página.
A obra resulta de uma tese de doutoramento em História, elaborada no âmbito do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, sob a orientação do prof. Paulo Fontes e co-orientação do prof. António Matos Ferreira. O estudo centra-se na compreensão dos movimentos sociais, temporalmente delimitados à última década antes do 25 de Abril de 1974, e especialmente centrados nos processos de diálogo e de ação articulada entre os setores católico e comunista, em torno de causas comuns
A obra, com cerca de 400 páginas, apoia-se num vasto trabalho de levantamento em largas dezenas de fundos e arquivos, públicos e privados, fontes impressas, manuscritas, datilografadas e multimédia, e em entrevistas em profundidade a meia centena de atores/testemunhas dos setores e acontecimentos analisados. Tem ainda a particularidade de contextualizar e lançar um olhar histórico-sociológico sobre os antecedentes de vários dos processos relatados, recuando, em alguns casos, ao último quartel do séc. XIX.
Cooperação em três frentes: paz, sindicatos e presos

Edgar Silva, foi padre e assistente do MCE, é o coordenador do PCP-Madeira e autor de Vendaval de Utopias – Os católicos da revolução e o PCP, 1965-1976
Para além dos capítulos mais de enquadramento e fundamentação, o trabalho recorta e analisa três áreas específicas, em que se verificaram processos relevantes de aproximação e trabalho conjunto entre comunistas e católicos: o movimento em torno da paz, com especial destaque para a luta anticolonial; a frente sindical e a decisão autonomamente assumida por cada parte de transformar por dentro os sindicatos criados pelo regime salazarista e de se abrir à ação conjunta; e, finalmente, a defesa dos presos políticos e das suas famílias, que culminou, em 1969, na criação da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Estas três áreas correspondem a outros tantos capítulos do livro, que são, por assim dizer, o coração da obra.
Para quem menosprezasse o alcance e significado dos diálogos e ações entre os dois campos, ou os considerasse episódicos ou pontuais, o retrato (talvez melhor: o filme) captado por esta investigação obriga a romper com essa visão, mesmo considerando estar-se perante movimentos quantitativamente minoritários. E a compreender que, dessas ações, não foram poucos os “católicos da revolução”, ou seja, aqueles que, através das lutas em movimentos sociais, se capacitaram que não bastava melhorar o regime; era necessário uma viragem revolucionária para mudar de regime.
Voltando à carta do padre Abel Varzim, datada de 1941, ela torna claro que o Partido Comunista já nessa altura se mostrava interessado em explorar as possibilidades e viabilidade de encontrar pontos de convergência e terrenos comuns de luta com os católicos. Como sublinha o autor do estudo, um encontro com as caraterísticas daquele que aconteceu supôs uma vontade recíproca de o realizar, um caminho de confiança mínimo construído e condições organizativas de grande melindre, pelos riscos que se corriam.
PCP em 1943: “A mão estendida aos católicos”
Vendo estas movimentações retrospetivamente, torna-se provável que, da parte do PCP, se estava em plena preparação de uma estratégia que viria a ser aprovada em 1943 e que ficou conhecida como “A mão estendida aos católicos”. Não se tratava de uma convergência entre organizações, mas de uma abertura a convergências ao nível das bases, através do estabelecimento de laços de confiança recíproca, em torno de objetivos sociais e políticos. Tratou-se de um reconhecimento de que a eficácia dos objetivos de ganhar lutas sociais e, mais amplamente, mudar de regime e instaurar a democracia não poderia prescindir de movimentos sociais mais alargados e, por isso mais fortes.
No caso da luta pela paz, ainda que vários movimentos já tivessem uma longa história em Portugal, eles ganham vigor e expressão com a repercussão da guerra do Vietname, e sobretudo com o desencadear da Guerra Colonial, em 1961. O processo que levou à vigília da Capela do Rato, em finais de dezembro de 1972, pode ser um caso ilustrativo da convergência entre pessoas de diferentes proveniências e sensibilidades, numa fase em que se multiplicavam os casos e as movimentações contra a guerra em África.

Libertação de Maria da Conceição Moita, a 27 de Abril de 1974, da prisão de Caxias. Xexão, como era chamada, foi um dos rostos da vigília da Capela de Rato, em finais de dezembro de 1972, e que pode ser um caso ilustrativo da convergência entre pessoas de diferentes proveniências e sensibilidades. Foto: Direitos reservados.
Também a organização da Conferência de Roma, de solidariedade com os povos das colónias portuguesas, em 1970, que contou com 177 organizações de 64 países, teve um envolvimento significativo do PCP. Conjugando setores e sensibilidades diversas, incluindo da democracia cristã de Itália, conseguiu-se aquilo que foi um acontecimento de grande relevância internacional e uma derrota histórica para o regime português: a audiência concedida pelo Papa Paulo VI aos líderes dos movimentos de libertação, em guerra pela sua independência.
Mudar os sindicatos oficiais e desencadear as lutas
Mas foi talvez na frente sindical que os diálogos e iniciativas das bases entre militantes comunistas e membros da JOC e da LOC permitiram uma forte articulação com vista ao controlo de vários e significativos sindicatos oficiais (caso dos Bancários, nas duas principais cidades, e dos Têxteis em várias zonas do país, com destaque para a da Covilhã, Metalúrgicos no Porto e em Braga, entre muitos outros …). E, tão importante como isso, foram as lutas que tais listas unitárias permitiram travar.
O livro permite perceber a importância da passagem da Ação Católica de um movimento generalista a movimentos especializados por setor, idade e, durante algum tempo, género, conjugado com a difusão do método da revisão de vida (Ver-Julgar-Agir), iniciada pela JOC de Cardijn, na Bélgica, e introduzido em Portugal por duas figuras — Abel Varzim e Manuel Rocha — que estudaram em Lovaina e contactaram de perto com o movimento operário católico.
A atenção mais acentuada aos meios de vida e seus problemas, o confronto dessa realidade com o Evangelho e o discernimento quanto à ação a empreender ao nível local, diocesano e nacional permitiu o desenvolvimento de uma consciência da realidade que dificilmente poderia desenvolver-se sem o aprofundamento da dimensão política.
Por outro lado, fica em evidência, sobretudo para um país fechado, emudecido por um regime repressivo e censório, a importância que revestiu, quer para os militantes comunistas quer para os militantes católicos, a participação em dinâmicas e eventos internacionais e a criação de redes de trabalho e de solidariedade que transcendiam as fronteiras do continente. Num ano em que continuamos a comemorar a Revolução do 25 de Abril, Edgar Silva mostra que as dinâmicas sociais, por caminhos diversos, mas com força crescente, à medida que se foram articulando e alargando, deram, também elas um contributo que se mostraria decisivo para a adesão da população ao movimento dos militares que derrubaram o regime na madrugada de 25 de Abril.

Pormenor da capa do livro “Vendaval de utopias – Os católicos da revolução e o PCP”, de Edgar Silva
Nota: Depois da apresentação em Braga, na última sexta-feira 20 de setembro, o livro Vendaval de Utopias será também apresentado em Aveiro em 1 de outubro próximo, à noite, em local a designar.









