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Igreja de São Bento de Massamá

Patriarcado divulgou nota

Queixa de acólito levou à suspensão de pároco de Massamá e já está no Vaticano e no MP

| 07/10/2022

Igreja de São Bento de Massamá

Igreja de São Bento de Massamá, numa foto de Abril de 2019. Foto © GualdimG, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

 

Terá sido um jovem do grupo de acólitos da paróquia de São Bento de Massamá (Sintra) a queixar-se do comportamento afectivamente abusivo do padre Luís Cláudio Ferreira dos Santos, cuja suspensão de funções foi anunciada na manhã desta sexta-feira, 7 de Outubro, pelo Patriarcado de Lisboa.

Numa nota publicada na sua página oficial, a diocese da capital diz ter recebido uma queixa de abusos sexuais contra um padre do seu clero, tendo este sido suspenso do ministério de padre e das suas funções de pároco de Massamá (Sintra) enquanto aguarda “o apuramento da verdade”. A denúncia foi já encaminhada para a Santa Sé e o Ministério Público (MP), acrescenta o texto.

“A Comissão Diocesana de Proteção de Menores do Patriarcado de Lisboa recebeu uma queixa sobre um possível caso de abuso sexual sobre menores, alegadamente cometido pelo Sr. Padre Luís Cláudio Ferreira dos Santos”, lê-se no documento. “Tendo procedido de imediato a uma investigação prévia da acusação, a mesma foi enviada para o Dicastério da Doutrina da Fé [DDF] e em seguida para o Ministério Público.”

O 7MARGENS sabe, entretanto, que em resposta ao inquérito preliminar feito pelo Patriarcado e que tinha sido enviado para o DDF, da Santa Sé já antes do Verão tinha vindo a ordem para que o caso fosse julgado na diocese.

Este caso já tinha sido admitido na carta aberta que o patriarca de Lisboa publicou no final de Julho: “Até à data foram encaminhadas à Comissão Diocesana do Patriarcado de Lisboa, por mim ou diretamente pelas vítimas, 3 denúncias”, escrevia o cardeal. Manuel Clemente referia depois um caso acompanhado pela diocese de Vila Real e o do padre Duarte Andrade e Sousa, afastado do Colégio São Tomás por partilhar conteúdos inapropriados num grupo de WhatsApp, que o 7MARGENS noticiou em primeira mão.

Na carta aberta de 29 de Julho, o patriarca dizia que “a segunda queixa está neste momento a corresponder ao que o Dicastério para a Doutrina da Fé decidiu, após as recomendações” dadas pela Comissão Diocesana. E prometia: “Mal tenhamos o desfecho sobre a mesma, será divulgado.”

Foi o que aconteceu com a nota publicada hoje.

O texto desta sexta-feira pode ter sido também uma forma de antecipar eventuais notícias de jornais: numa reunião de clero que decorreu nesta semana, o bispo auxiliar e presidente da Comissão Diocesana de Protecção de Menores do Patriarcado de Lisboa, Américo Aguiar, disse aos padres presentes: “Preparem-se para a bomba que vai sair no Expresso”. Citou, depois, o nome de Luís Cláudio e disse que o caso estava já na Santa Sé e no MP. Mas, afinal, o Expresso não publicou, até à noite de dia 7, qualquer notícia sobre o caso para lá do comunicado do patriarcado.

 

Férias prolongadas desde Julho

De qualquer modo, a ausência do pároco de Massamá, que tinha alegadamente saído para férias em Julho, estava a ser já notada na paróquia. Mas além das funções em Massamá, o padre Luís Cláudio era também juiz do Tribunal Patriarcal, assistente eclesiástico diocesano dos Cursos de Preparação para o Matrimónio e presidente da direcção da Casa Sacerdotal, onde vivem padres mais idosos ou com problemas de saúde.

A nota do Patriarcado diz que o visado “suspendeu o exercício do ministério pastoral na comunidade que lhe estava confiada” e não refere se a suspensão era estendida aos restantes cargos. Mas de acordo com fontes eclesiásticas ouvidas pelo 7MARGENS, o padre foi levado a pedir a suspensão do cargo de pároco, tal como acontecera já em relação ao Tribunal Patriarcal. Neste caso, escreveu uma carta, algures no início do Verão, a pedir a demissão. Esta sexta-feira à noite, no entanto, o nome de Luís Cláudio Ferreira dos Santos continuava, na página do Patriarcado, na lista dos membros daquele Tribunal.

Página digital do Patriarcado de Lisboa captada nesta sexta-feira, dia 7: o nome do padre Luís Cláudio continua na lista dos membros do Tribunal Patriarcal, três meses depois de o próprio ter escrito uma carta a pedir a demissão.

No espaço de uma semana, este é o segundo padre que fez parte de um tribunal eclesiástico e foi acusado de abusos. Há oito dias, foi a diocese de Braga que, depois de uma reportagem na RTP, anunciou que Manuel Fernando Sousa e Silva, que até há pouco tempo fez parte do tribunal eclesiástico da diocese, tinha sido alvo de acusações de abusos sexuais em Joane (Famalicão) que levaram à imposição de medidas disciplinares ao referido padre. Na sequência do caso, o arcebispo de Braga, José Cordeiro, deslocou-se no domingo à paróquia para, na missa das 11h, pedir perdão publicamente às vítimas e “contribuir para o aprofundamento de um processo de purificação”.

São Bento de Massamá foi desmembrada da paróquia de Queluz, por impulso do padre Luís Cláudio desde 1998. Foi ele que dinamizou o processo de criação da nova paróquia, o que aconteceu em 2002, e dela ficou responsável até hoje. Era, por isso, alguém que conhecia muito bem a comunidade paroquial.

Ali, de acordo com um testemunho ouvido pelo 7MARGENS, o pároco agora suspenso teria por vezes manifestações afectivamente intrusivas em relação a alguns rapazes que frequentavam os serviços da paróquia ou que integravam o grupo de acólitos. Terá sido um destes a queixar-se, mas referindo desde logo que não seria caso único, de acordo com a mesma informação. Mas essas manifestações já viriam do tempo do seminário, acrescenta um responsável do Patriarcado, tal como um gosto vincado por rituais litúrgicos mais tradicionalistas.

Neste momento, está a correr a fase diocesana do processo, depois de ter vindo de Roma a ordem para que ele fosse instruído – o que foi já feito pela vigararia-geral do Patriarcado. A nota oficial publicada nesta sexta-feira acrescenta, aliás, que “o caso segue os seus trâmites e encontra-se em segredo de justiça no foro canónico, assim como no Ministério Público”.

No documento publicado, o Patriarcado “renova o seu compromisso em tudo fazer para erradicar esta dramática realidade dos abusos de menores” e manifesta-se “disponível para acompanhar as vítimas que assim o desejarem”.

 

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