Há uns dias, publiquei nas redes sociais uma foto que tirei de dentro para fora do carro e que apanhou o espelho retrovisor e o pôr do sol. A qualidade não era a melhor, mas o enquadramento e alguns pontos de fuga davam-lhe profundidade e, por outro lado, fazia algum paralelismo entre o pôr do sol, o dia que está a acabar, que já passou, e o espelho retrovisor, que reflete o que ficou para trás, o passado. Enfim, “cenas” que ficam bem nas “redes”.
Recebo uma mensagem de uma pessoa conhecida: “Então, de volta ao passado? Andas em Síndrome do Espelho Retrovisor (S.E.R.)?”
Achei que era uma piada, mas espante-se quem como eu não sabia: existe uma síndrome assim denominada e será uma de maneira de olhar a vida. Não é um diagnóstico médico, ao que percebi trata-se apenas de uma forma para referir alguém que se concentra no passado, que tem dificuldade em viver o presente e projetar o futuro, ou seja, é como conduzir uma viatura estando concentrado no espelho retrovisor, deixando de prestar atenção à estrada que se tem à frente. Perigoso!
Em geral, esta síndrome afeta quem passou por experiências traumáticas, pouco agradáveis, ou o contrário: ver o passado como algo sempre melhor do que o momento presente, permanecendo obstinado com comparações entre um e outro.
Respondi a quem perguntou que não andava com regressos ao passado e que era apenas uma foto, mas, na verdade, fiquei a pensar no assunto. Porque é que é tão difícil, às vezes, abandonar o passado? Relativizar, esquecer, desapegar? Bem, a principal razão será, certamente, a carga emocional, as memórias, sejam elas boas ou menos boas. No entanto, julgo que teremos sempre tendência para lembrar mais os acontecimentos negativos, sendo que alguns deles tendem a destruir-nos por via do arrependimento, do remorso, da culpa – como diria um amigo, “essa cena judaico-cristã que nos incutiram”.
Por outro lado, é quase impossível dissociarmo-nos do passado, da nossa própria história, daquilo por que passámos e que acabou por nos transformar na pessoa que somos, faz parte da construção da nossa identidade. Apegarmo-nos demasiado ao passado, mesmo não tendo sido o melhor, pode ser confortável e parecer um lugar seguro. É passado, já aconteceu, está controlado, não gera incerteza, não é imprevisto, e isso faz com que o futuro pareça assustador, pela mudança que implica. Mas ficar preso no passado traz consequências desastrosas em termos psicológicos, no desenvolvimento pessoal e, até mesmo, no relacionamento com os outros: olhar para trás, através do espelho retrovisor, limita e afeta a aquisição de ferramentas que permitem evoluir, projetar o futuro e criar laços.
Há uma frase na obra Para além do Bem e do Mal, de Nietzsche, que pode ajudar a concluir este inusitado tema. Diz ele: “Aquele que luta com monstros deve ter cuidado para não se tornar um monstro e se olhas muito tempo para um abismo, o abismo vai começar a olhar para ti.”.
Há que ter cuidado, não com as fotos que se tiram e que apanham os espelhos retrovisores dos automóveis, mas com os aspetos sombrios, para não sermos consumidos por eles. E atenção à contemplação excessiva das memórias: observar as mesmas coisas repetidamente condiciona o cérebro e cria, neste caso, um retorno ao passado, negligenciando a experiência maravilhosa que é a de viver o presente e olhar o futuro.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










