
“Cada linha esculpida pelos anos é um mapa da alma que indica o percurso de uma vida vivida com maior ou menor intensidade, mas, certamente, com sentido.” Foto © Alpay Tonga / Unsplash
Às vezes penso que vivemos num mundo obcecado pela eterna juventude e pela intolerância ao envelhecimento e às imperfeições físicas que este vai deixando. Escrevo, escrevo e escrevo sobre isto para despertar os mais distraídos.
Aí vou – os sulcos que se vincam nas nossas testas revelam a força dos pensamentos profundos e das decisões difíceis que tomámos. Em cada ruga dos outros cantos do rosto, um pedaço da nossa história se encerra. Cada linha esculpida pelos anos é um mapa da alma que indica o percurso de uma vida vivida com maior ou menor intensidade, mas, certamente, com sentido. As marcas que o tempo imprime na nossa pele não são cicatrizes de batalhas perdidas, mas, muitas vezes, troféus, ou, no mínimo, medalhas de honra, conquistadas ao longo de uma jornada de experiências, aprendizagens e, claro, crescimento.
Como Meryl Streep tão sabiamente expressou, “Que ninguém tire as rugas da minha testa, obtidas pelo assombro diante da beleza da vida; ou as da minha boca que mostram o quanto ri e o quanto beijei; e nem as bolsas sob os meus olhos. Nelas está a lembrança de quanto eu chorei. São minhas e são belas.”
A beleza, por mais que custe assumir, considerando os critérios asséticos de pseudoperfeição, reside na autenticidade, naquilo que nos torna únicos e irrepetíveis. Cada ruga, cada sorriso, cada lágrima, … revelam um capítulo da nossa biografia, da nossa narrativa pessoal. São estes rastos que compõem o meio que nos transporta até ao presente, guiando-nos através dos labirintos da vida e permitindo-nos alcançar sabedoria e maturidade.
Tendemos a negar as pégadas deixadas pelo tempo em nós, só porque elas se encarregam de nos mostrar que falta menos; porque esteticamente não acrescentam nada; porque não estão legendadas por um texto objetivo que suscite admiração de quem, à volta, não conhece o nosso caminho tal como foi percorrido. Em vez disso, devemos celebrá-las como símbolos da nossa força, resiliência e competências múltiplas, nomeadamente a capacidade de seguirmos em frente, amando as pessoas, as coisas e as causas em que nos envolvemos. São elas que nos definem, que nos diferenciam da multidão e nos tornam indivíduos únicos e especiais.
A aceitação da vida, em toda a sua complexa simplicidade, é o primeiro passo para a valorização do nosso passar por cá. Significa abraçar as alegrias e as tristezas, os sucessos e os fracassos, reconhecendo que cada experiência, por mais desafiadora que seja, contribui para nos tornarmos melhores seres humanos.
Obviamente cada um de nós tem os seus limites, mas também a confiança de que Deus nos protege de os ver ultrapassados. Como diz o povo – Dá Deus o frio conforme a roupa.
Ao valorizarmos a nossa história, reconhecemos o poder que ela tem de nos moldar e de nos guiar a partir de cada agora. As experiências vividas tornam-se ferramentas valiosas para navegarmos por essa espécie de oceano feito de desafios do presente e de promessas de futuro. Cada ruga, cada sorriso, cada lágrima é um pedacinho desta jornada. Precisamos de os abraçar com amor e gratidão, pois eles são a prova dos registos que vamos deixando através do nosso existir.
Sabemos que a vida é um mistério, mas também um presente precioso, que deve ser desfrutado com intensidade e paixão.
Temos de contactar, para sermos mentalmente saudáveis, com as nossas mais diversas emoções, experimentar todas as nuances que a vida tem para nos oferecer e desviarmo-nos das que pudermos se em nada contribuírem para pôr em prática a melhor versão de nós.
Acima de tudo, é urgente, quase me repito, não ter medo de deixar as marcas da vida na nossa pele, na nossa postura e até na nossa voz. São elas que nos definem, que nos tornam realmente diferentes e irrepetíveis.
Disfarçar a evidência do tempo é um ridículo de nós que apaga os maiores testemunhos da sabedoria que vamos adquirindo. Apesar disso, não sou contra quem trabalha em aperfeiçoamentos de imagem, se assim pode dizer-se, nem quem isso usa, apesar de eu não o fazer ou, melhor dizendo, nunca o ter feito. Há tempo e espaço para todos e para que as convicções de cada um possam ser respeitadas.
Aquilo e aqueles a que me oponho de coração e de alma é a quem pretende deixar de ser, para se transformar em qualquer coisa que não o define, que apaga o livro da sua vida, que desonra as propostas feitas por Deus e pela natureza.
Há que não esquecer que os rastos não nos definem, mas apenas testemunham pedaços da nossa história;
A beleza que perdura vem de dentro e estas profundas evidências de nome rugas podem ser um reflexo dessa estética interior;
Aceitar e respeitar o próprio corpo em cada fase da vida é como que uma receita de bem viver. Isto não significa displicência, abandono ou negligência que seja. Traduz, isso sim, desejo de bem fazer connosco mesmos, a partir do que somos, do que vivemos, do que construímos e queremos continuar a construir.
Um destes dias falava-se, num jantar, sobre um programa de televisão no qual, em alguns casos, as pessoas não se tratavam especialmente bem quando se conheciam. E até parecia que, quanto mais velhas eram, mais agressivas se tornavam para o outro. A expectativa parecia ser a de encontrar possíveis casais. Será que essa agressividade traduzia a incapacidade de rir dos próprios ridículos? Será que revelava a dificuldade de celebrar a existência e as suas experiências? Será que manifestava o facto de as pessoas se esquecerem de investir na sua relação com a vida, nos mais diversos domínios que esta contempla?
Fica um alerta para quem quiser – pegar em si e cuidar-se com gratidão, respeito e alegria.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt








