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autores - Rúben Azevedo

Sentido da vida

| 03/06/2024

Caminho de Santiago. © António José Paulino.

“O que buscam afinal os “fazedores”, os “ativos”, e todos os que buscam o sentido último, senão um sentimento, uma visão que os satisfaça? A felicidade, no fundo.” Foto: Caminho de Santiago. © António José Paulino.

 

Em que consiste o sentido da vida? Somos o único animal que coloca esta questão. Sobretudo depois de satisfeitas todas as necessidades materiais. Porque é evidente que o material não chega. Parece bastante evidente que o ser humano não foi feito para estar parado; ele age e deseja agir. O desejo de sentido último é um desejo de ação. Não de uma ação qualquer, não de um mero agitar-se, mas de um agir com propósito. É evidente que há muitos propósitos, mas haverá algum que seja definitivo? Há propósitos que, uma vez cumpridos, requerem novos propósitos, e por aí em diante. Talvez haja quem se contente com um propósito definido para a vida toda, sobretudo se for um criador, um artista, ou um benfeitor da humanidade. Terão esses afinal respondido cabalmente, com a sua própria vida, à questão do Sentido? Ou terão eles afinal continuado de certa forma insatisfeitos, sempre aspirando, enfim, a um sentido último e definitivo?

O que buscam afinal os “fazedores”, os “ativos”, e todos os que buscam o sentido último, senão um sentimento, uma visão que os satisfaça? A felicidade, no fundo. Uma vizinhança com algo extraordinário; um sentimento de plenitude na ação, de autenticidade vital, de alegria, produzindo no mais íntimo de si como que uma sólida e íntima certeza de estar no caminho certo. De “estar no sentido”.

“Estar no sentido” significaria, assim, estar em íntimo acordo consigo mesmo. Menos porque se tenha chegado à meta ou consumado qualquer coisa, mas porque se trilha o caminho (ilimitado?) de uma inefável vizinhança de si próprio, por via do qual se vai apurando uma visão, uma intuída beleza. E cada um destas coisas é, para o próprio, uma revelação de si, uma conquista de (auto)consciência, um tornar-se cada vez mais senhor da sua alegria, da sua liberdade e da sua alma.

Dentro de nós está a verdade, e portanto, o sentido que é o NOSSO caminho. De acordo com o mais inefável e simultaneamente misterioso e absolutamente familiar e íntimo sentimento que podemos sentir, que é essa linha absoluta, esse nervo que somos nós em absoluto. Porque, com frequência, nos nossos sonhos, especialmente nos noturnos, tocamos esse mesmo nervo absoluto, e é como se estivéssemos de repente em casa nesse sentimento.

Começamos a avizinhar-nos do sentido quando, precisamente, por causa desse grito e dessa sede interior por sentido último, começamos a exprimir em palavras e atos essa mesma beleza/verdade a que aspiramos, porque ela sempre esteve dentro de nós.

O sentido, em síntese, não consiste numa meta determinada a atingir durante o tempo de uma vida, mas no avizinhar-se de um sentimento que é nervo da próprio alma. Dizer o que se quer dizer e tem de ser dito; fazer o que se quer fazer e tem de ser feito. Ninguém que tenha tirado de si algo de extraordinário e sublime, de belo e significativo, dirá que a vida não tem sentido. A obra consumada (ou mesmo o consumar da intenção que à obra leva), o dever cumprido, a beleza enfim revelada, se são fruto de uma entrega honesta e integral, e mesmo amorosa, são SENTIDO.

A vida tem sentido? Claro que sim! Tem o sentido que construímos a partir do sentido que nos constrói.

Erram os que veem na morte a prova do não-sentido da vida. “Viver para quê”, perguntam, “se um dia seremos nada?”. Primeiro, está muito longe de estar provado que à morte se segue o “nada”. Porque é absolutamente evidente que absolutamente somos. Perante o absoluto que somos, tal como ele se apresenta a cada um de nós a partir da sua própria interioridade, o “eu sou” que cada um de nós é emerge mais como uma absoluta necessidade do que como um acaso ou subproduto biológico passível de “nadificação”. Enfim, a morte nada mais é que uma aparência, ou pelo menos é assim que nos surge, enquanto não passarmos por ela.

Segundo, porque é errado confundir o fim da vida (a morte) com consumação da vida. A vida humana parece consumar-se menos no tempo do que contra, ou fora, ou acima do tempo. Quer dizer, a linha do sentido da vida é um caminho vertical, i.e., para cima (ou para dentro, o que vai dar ao mesmo), perpendicular, se assim podemos dizer, à linha horizontal cronológica da existência comum. O Homem aspira ao alto, à imortalidade, ao espírito. A vida consuma-se, por conseguinte, sempre que se consuma uma obra do espírito e do ideal, sempre que se tange esse nervo absoluto da alma humana donde desperta o mais sublime dos sentimentos, que é o de se estar absoluta e inefavelmente de acordo consigo próprio.

Sempre que uma beleza autenticamente se exprime e um ser humano descobre, pelo uso correto e reto da sua própria liberdade, as riquezas extraordinárias da sua própria alma, há uma dimensão qualitativa da vida que se cumpre algures. E com ela, é a própria vida que se cumpre, e, à falta de melhor, certifica-nos disso a evidência desse sentimento íntimo e único de “estar no sentido”, que é quanto basta. E perante esse sentimento, que está na raiz da subjetividade, o que é evidente é que a vida É; e que há nela algo de radicalmente misterioso que, em vez de aniquilação iminente da morte aparente, fala de vida que sustenta a vida.

 

Ruben Azevedo é professor e autor de vários livros.

 

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