Jorge Wemans propôs-nos no 7MARGENS um belo texto para refletir sobre o tempo de criação, a propósito da catástrofe dos incêndios em Portugal. É sobre um outro tipo de catástrofes que aqui quero falar.
Na parada militar de 3 de setembro, em Pequim, captaram um trecho de conversa entre Xi Jinping e Vladimir Putin pois “o microfone estava aberto”. O tema? Longevidade. Putin, empolgado, fala em transplantes de órgãos em série e deixa escapar a palavra: imortalidade. Xi, pragmático, sorri e devolve com um alvo mais modesto e “planeável”: viver até aos 150 anos neste século. O clipe correu mundo porque diz muito sobre o imaginário dos dois ditadores, aquele que desencadeou a violência para o exterior e o que a exerce intra muros. O sonho materialista de vencer a morte, na versão Putin, frente ao pragmatismo tecnocrático de Xi, que prefere metas mensuráveis.
Putin sempre incentivou e financiou estes projetos: biotecnologia, substituição de órgãos, rejuvenescimento artificial — a fantasia da oficina mecânica aplicada ao corpo humano. Entretanto, as ciências suspiram e abanam a cabeça: imunologia, rejeição de órgãos, infeções, limites biológicos… a realidade da criação estraga sempre a narrativa. Xi, pelo contrário, joga no incremental: esticar a esperança de vida com prevenção, IA médica, IA farmacogenómica — e a aspiração de viver 150 anos. É o silício e o aço: cloud e dados a gerir, riscos versus martelos e parafusos a prometer eternidade. A mesma conversa que se escuta ao Kid Mosca, como lhe chama o cientista Miguel Nicolelis; foi este que desenvolveu o conceito da Neuralink na Duke University, EUA, e foram os seus alunos que depois venderam o conceito e a empresa a Musk.
A conversa de Pequim tem pedigree intelectual: a família Huxley. O avô Thomas Henry Huxley considerou-se o “bulldog de Darwin”, a morder calcanhares de quem se considerava religioso e a impor a versão tacanha do evolucionismo. O neto Julian Huxley na UNESCO, batizou o transhumanismo e sonhou “ultrapassar limites” do humano. Já o irmão, Aldous Huxley, ofereceu o antídoto com o Admirável Mundo Novo: quando a engenharia social se alia à engenharia biológica, a liberdade morre. Esta linhagem resume o mau dilema de Pequim.
Xi–Putin, com o tom displicente de conversa de café forneceram um manual vivo e rápido do erro que é tratar o que é humano como um sujeito simples a que se atarraxam melhorias, como se ele fosse um objeto. Confundem-se domínios, misturando “factos” com “valores” como se tudo fosse do mesmo campeonato. Os filósofos chamam a isto “um erro de categorias”. O resultado? Debates enviesados e promessas mágicas que ignoram mediações, riscos e responsabilidades.
É absolutamente verdade que a tecnologia está a transformar radicalmente a condição humana no século XXI; isso impõe o dever de pensar cenários futuros e trabalhar implicações éticas. Também é importante saudar e apoiar as novas tecnologias que trazem possibilidades médicas gigantes para melhorar a vida humana, desde que controlemos os efeitos colaterais. Os transhumanistas sublinham o potencial para melhorias genuínas do bem-estar humano, alcançáveis via transformação tecnológica. Os cientistas valorizam o facto de que só há ganho quando fazem experiências e ensaios — mas o bom senso sabe que é um crime contra a humanidade avançar sem análise séria de riscos e sem instaurar garantias éticas e jurídicas adequadas.
Se nem sabemos ainda o que é o humanismo, como é que alguém se propõe ser a favor do transhumanismo? Esta mania transhumanista dos ditadores da Ásia e dos technobros da Califórnia distrai-nos de como as coisas entram no nosso mundo — desde a nanotecnologia aos computadores, passando por literatura e religião. As fronteiras entre humanos e não-humanos estão sempre a ser redesenhadas por toda a humanidade de forma convolutiva; mas confundir as fronteiras do humano começa por gerar ruído e más decisões e acaba por iniciar violência e guerra. Sim, realmente: que importa a Putin e Musk um milhão ou mais de russos e ucranianos mortos se já estamos a planear o transhumano? O debate sobre “valores humanos desgastados pela tecnologia” está quase sempre mal colocado: o que está em causa é descrever melhor os modos como inovamos e os critérios de responsabilidade que os acompanham.
Esta atitude pede uma mudança de postura: rever o senso comum sobre a natureza, a ciência, a política, a religião e a sociedade, cada vez exige mais ferramentas para as explorar empiricamente: menos slogans, mais descrição rigorosa; menos fetiches de “singularidades”, mais governança de risco. Em suma: progredir, sim; prometer eternidade através de implantes e substituição de órgãos, não.
Fontes:
O “hot mic” de Pequim foi reportado por Reuters, AP, The Guardian, Washington Post, Bloomberg e CBS/AFP, incluindo o trecho sobre “150 anos” e a ideia de “transplantes contínuos” rumo à imortalidade, e que Putin depois confirmou em conferência de imprensa.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.










