Há quem diga que a vida é feita de caminhos. É verdade, mas, algumas vezes, são os tapetes que definem o percurso. Não são apenas adornos, são palco, abrigo e memória. Crescemos sobre eles e neles aprendemos a andar, a cair, a levantar. Há tapetes que guardam segredos, risos, lágrimas, e outros que se desenrolam em silêncio, à nossa frente, à espera de serem pisados com coragem.
Há tapetes que voam – quem é que não lembra o tapete do Aladino, símbolo daquilo que tanto procuramos: a liberdade – Sonhamos tantas vezes com a ideia de voar, de fugir às limitações, escapar ao peso das rotinas e dos medos. Por vezes, até conseguimos, quando deixamos a imaginação ganhar corpo, quando acreditamos no improvável, quando ousamos confiar que há algo mais do que aquilo que é dado a ver. É nesses momentos, que o nosso tapete levanta voo e, com ele, voamos nós também.
Por vezes, pela pressa e por não pensar, usamos o tapete para esconder “lixo”. Varremos para debaixo do tapete o que não queremos ver ou pensar: os desentendimentos adiados, os ressentimentos que deixamos acumular, os pensamentos que julgamos desadequados, tudo o que incomoda, desconforta, e é lá que vai ficando, camuflado sob padrões bonitos e tecidos pesados, até que, um dia, tropeçamos. Tentámos fingir, ignorar, mas o pequeno montículo foi aumentando de tamanho até que se transformou num obstáculo. Nessa altura, procuramos desculpas para o esbardalhanço, mas, na verdade, o que nos fez cair não foi o mundo, não foram os outros, foi o que fomos deixando por limpar, por resolver.
O que de pior pode acontecer com o nosso tapete, é ser-nos arrancado debaixo dos pés, de repente, sem aviso, quando nos dizem que alguém partiu, alguém que nos segurava, até mesmo sem o sabermos. O tempo para. O chão foge. Ficamos imóveis, como se a vida tivesse puxado o tapete e deixado o abismo à vista. Nesse instante, não sabemos como respirar, onde pousar o olhar, o que fazer com esse absoluto vazio. É como se o padrão do tapete que conhecíamos desde sempre tivesse sido apagado. Já não sabemos onde pisar, como seguir em frente, onde encontrar segurança e conforto.
Quando o tapete nos foge debaixo dos pés, não é só o equilíbrio que se perde, é a ilusão de que temos o controle de tudo. É nesse momento que percebemos que a vida não é feita apenas de chão firme, mas da capacidade de encontrar apoio, mesmo onde já não há nem chão, nem tapete. É preciso aprender a cair e a levantar com paciência, repensar onde e como pisar.
Há quem diga que o tempo cura. Talvez não cure…talvez ensine a caminhar de novo. A tecer e a estender um novo tapete, mesmo com as mãos trémulas. Alguns tapetes serão feitos de esperança, outros de dúvida, mas todos terão algo em comum: continuarão a apoiar os nossos passos, agora mais delicados devido à consciência que passamos a ter da nossa própria finitude e fragilidade. Mas, pouco a pouco, lá vamos descobrindo que o amor não desaparece. Transformou-se. Está nos gestos que repetimos, nas histórias que contamos, nas lembranças que vão aquecendo o coração. E começa-se a tecer um novo tapete — feito de memória, de gratidão, de sobrevivência.
Mas, afinal, o que será viver senão este aprender a voar de tapete, este esconder porque não há tempo ou coragem para enfrentar? O que será viver senão este descobrir, dia após dia, que, mesmo com o tapete a fugir debaixo dos pés, mesmo a cair, há sempre forma de continuar?
Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Jorge Palma
Nota: Nesta letra ‘t’, em cada palavra, estão duas mulheres, a Ana V. – que me inspirou no “varrer” lixo para debaixo do tapete – e a Elsa M. – cuja partida precoce e inesperada veio forçar a família a procurar fios para tecer um novo tapete, feito de memória, de gratidão, de sobrevivência.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










