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A lição de uma catedral raiana

| 24/09/2024

“[…] fomos curados pelas suas chagas.”
Isaías 53, 5

Ciudad Rodrigo

Foto: Catedral de Santa Maria, Ciudad Rodrigo. © Paulo Renato Gregório

 

Pode um edifício expressar o que somos ou devemos ser? Pode uma construção humana exprimir, mesmo sem o desejar, os movimentos contraditórios da humanidade, os seus paradoxos, as suas assunções, rebaixamentos e quedas? Creio que sim. Forma e função, o objecto arquitectónico pode entender-se também como uma escultura, tantas vezes mutante – ao sabor de quem a vai relendo, refazendo ou destruindo. É, nesse sentido, uma manifestação de transcendência, uma estrutura que transcende a sua utilidade, ao inscrever beleza no espaço urbano, rural ou natural – ou, pelo contrário, ao destruir a harmonia circundante, seja qual for o fim dessa disrupção, se algum deseja ou consegue ter. Exprime com eloquência as lutas, as convulsões e as demandas da humanidade, discreta mais eficazmente. Ciudad Rodrigo oferece-nos uma dessas obras.

Não fossem duas edificações mais elevadas, mal distinguiríamos ao longe essa pequena urbe, plantada a poucos quilómetros da fronteira. Ainda surpreendidos pela quase abrupta mudança de arvoredo entre Portugal e Espanha (as densas matas de carvalhos negrais do Vale do Coa dão lugar a sobreiros e azinheiras, cada vez mais raros à medida que os quilómetros se estendem), pensaríamos que essa cidade – das poucas que ostenta o título no nome, não acontecesse esquecermos o seu estatuto – pouco mais seria do que uma grande vila, uma das muitas que pontuam e matizam as largas extensões do interior hispânico. Discretamente, esse par de construções oferece-lhe, todavia, distinção.

Nas minhas congeminações de viajante bissexto (e quase mendicante), penso nela como uma das chaves de Castela. A forma denticulada do seu perfil dá razão ao meu entendimento – e a sua inscrição no espaço também. Não fossem as torres da catedral e do castelo – e Ciudad Rodrigo viveria naquele lugar como uma das “cidades invisíveis” de Italo Calvino, tão bela quanto enigmática e inquietante.

Não são, todavia, as ruas e as fortalezas, as casas e as muralhas, que ali espelham o percurso convulsivo de uma humanidade atribulada. Encontramos esse reflexo na discreta eloquência da principal igreja do burgo e da região, apurada ao longo de séculos. Eu, pelo menos, julgo tê-lo encontrado.

O primeiro confronto com a catedral sucede hoje de forma estranha. Ao entrar por uma porta rasgada na muralha abaluartada, o viajante depara-se com o exterior dos edifícios que rodeiam o claustro e com os volumes da sacristia e da capela-mor. Só depois de circundar a sé – fitando e lendo as portas laterais, românicas, do Enlosado e das Cadenas, o volume da capela do Pilar e a fachada meridional, com as suas janelas esculpidas – se depara com a frontaria, virada a poente, na sua mais evidente estranheza. Não sei como sucederia nos séculos XII e XIII, data do levantamento original, mas creio que o percurso seria o inverso.

O que hoje vemos não é, contudo, o que podiam ver os homens, mulheres e crianças da Idade Média. Torre e fachada foram desenhadas pelo biscainho Juan de Sagarbinaga (1710 – 1797) na segunda metade do século XVIII e construídas entre 1764 e 1770, ocultando (ou protegendo) o que existia de medieval. Perplexos, observamos o paradoxo que ali se apresenta. A largura medieval, quase atarracada, apesar da altura considerável das três naves, foi deliberadamente contrariada pela elevação de uma torre imponente, espelhando com algum anacronismo a monumentalidade dos edifícios de Juan de Herrera (1530 – 1597) e as propostas arquitectónicas de Sebastiano Serlio (1475 – 1554). Ao românico e ao gótico das origens antepôs-se um tempo greco-romano idealizado e recriado, bem visível no novo pórtico axial, cujo frontão sustentado por meias-colunas não deixa dúvidas de quão clássico era o ideal perseguido. Não houve, no entanto, rasura. O que era medieval continuou a sê-lo, mesmo escondido. Aquela segunda metade do século XVIII sentia já o sopro romântico vindo da Alemanha e de Inglaterra, que via na Idade Média um tempo matricial. Talvez por isso tenham subsistido na nova fachada duas janelas românicas que iluminam a capela do Santíssimo Sacramento.

“(…) e sobretudo de uma Lamentação perante Cristo Morto, esculpida por Lucas Mitata (c. 1525 – 1598), sem conseguir tirar os meus olhos de uma impassível e anónima Santa Mulher, ápice inaudito do grupo humano que segura a Virgem desmaiada.” Foto © Ruy Ventura

 

Não é, no entanto, a convivência pacífica de estilos arquitectónicos que mais nos surpreende e faz pensar, ao contemplarmos essa fachada principal onde a lembrança de outras catedrais da Raia está bem patente. O que mais nos incomoda é a escultura involuntária em que a torre foi transformada por várias balas de canhão lançadas pelas tropas napoleónicas, durante a Guerra Peninsular: uma peça que teima ser contemporânea, apesar da idade. Infelizmente contemporânea… Andaram bem os responsáveis pelo restauro quando decidiram manter ali todas a marcas da guerra passada – não só como lembrança de um tempo longínquo, mas também (e sobretudo) como aviso. Admonitória, esta obra de arte pública ainda assim manifesta esperança. Mesmo bombardeada e escalavrada, a torre resistiu. Não se desmoronou. Recorda-nos, sem querer, as palavras de São Paulo: “abatidos, mas não destruídos” (2 Cor 4, 9). Bombardeados, mas nunca derrubados.

De onde terá vindo tal fortaleza, tal capacidade de resistência ao fogo inimigo? Certamente, da solidez da estrutura arquitectónica e dos seus silhares concatenados, dirão – e bem. Lendo o edifício a meu modo, encontrei todavia outra explicação, menos técnica (nada técnica, aliás). Para lá chegar, visitei o museu da catedral, deambulei em silêncio pelo seu claustro, percorri as naves, senti-me protegido pelas abóbadas medievais e extasiado perante as complexas e belíssimas nervuras da capela-mor, traçada por Rodrigo Gil de Hontañon (1500 – 1577) na primeira metade do século XVI, lamentei a venda do retábulo de Fernando Gallego (1440 – 1507) e seus colaboradores (sem deixar de agradecer o vazio aberto na ábside por essa ausência), meditei ante o inigualável alabastro de uma Virgem com Menino quatrocentista, quiçá hispano-flamenga, e sobretudo de uma Lamentação perante Cristo Morto, esculpida por Lucas Mitata (c. 1525 – 1598), sem conseguir tirar os meus olhos de uma impassível e anónima Santa Mulher, ápice inaudito do grupo humano que segura a Virgem desmaiada.

“A declaração de vitória é, no entanto, contrariada pela estátua aí colocada. O Cristianismo é paradoxal – e isso parece querer dizer-nos aquela Virgem de pé. Está mutilada. Embora sorria, tem o rosto erodido.”  Foto © Ruy Ventura


Há naquele claustro pequeno e belamente singular três imagens medievais de Santa Maria. Duas estão identificadas com um título. Uma terceira, não. Quem saia do museu, é bom caminhar no sentido contrário ao dos ponteiros dum relógio. O primeiro grupo escultórico está relativamente incólume e representa a Virgem dos Anjos, ladeada por dois mensageiros celestiais. Recorda, quanto a mim, a discreta mas vincada matriz franciscana daquela catedral raiana. Andando um pouco, encontra-se a entrada renascentista do jardim claustral, com efígies do arquitecto Pedro de Güemes e do cónego fabriqueiro Juan de Villafaña. Em frente, existe um nicho onde alguém pintou com tinta vermelha, hoje desmaiada, o costumado victor de tantas igrejas espanholas, mas sobretudo de algumas universidades, com Salamanca à cabeça. A declaração de vitória é, no entanto, contrariada pela estátua aí colocada. O Cristianismo é paradoxal – e isso parece querer dizer-nos aquela Virgem de pé. Está mutilada. Embora sorria, tem o rosto erodido. A mão direita foi quebrada. Ao Menino resta somente o corpo com túnica cintada, pois não tem cabeça nem mãos nem uma das pernas. É esta a vitória que nos propõe o claustro de Ciudad Rodrigo. Se avançarmos um pouco, surge-nos a edícula concheada da Virgem da Paz, recamada de estrelas semeadas por um céu azul. Está sentada – como Trono de Sabedoria. Também ela sorri, apesar do rosto escalavrado. Os braços direitos, dela e de Jesus, desapareceram. Sobram os esquerdos. O dela segura o ombro do Menino, com carinho. O d’ Ele sustenta um livro fechado, bem visível – como se no-lo oferecesse. Deu-me que pensar este percurso feito de contradições, este espelho de uma humanidade convulsiva e perturbada, em que a vitória e a paz se revelam nos sorrisos, resistentes no meio de inquietantes e evidentes sinais de violência e mutilação.

Colocado perante estas imagens – e lendo o epitáfio de Benito Sanchez, “maestre que fue desta obra”, no qual roga que “Dios le perdone” –, apeteceu-me ficar por ali, circulando por aquele quadrado abobadado em várias épocas, a ler e a reler o que via, acompanhado pelas mil e uma figurinhas grotescas das bases e capitéis. Faltava-me, porém, uma resposta. Não haverá salvação? Não será possível fugir de tanta violência, de uma vitória que é derrota, de uma paz que evidencia guerra? Fitei o livro fechado do Menino e terei lembrado um texto comovente de São Francisco de Assis (c. 1181 ou 1182 – 1226) sobre “a mais perfeita alegria”. Afinal, a catedral e o santo foram contemporâneos.

Nossa Senhora da Paz. Ciudad Rodrigo. Espanha

2(…) surge-nos a edícula concheada da Virgem da Paz, recamada de estrelas semeadas por um céu azul. Está sentada – como Trono de Sabedoria. Também ela sorri, apesar do rosto escalavrado.” Foto: Nossa Senhora da paz. © Ruy Ventura

 

O que procurava foi-me oferecido pelo pórtico medieval daquela casa da igreja, oculto por detrás da torre de Sabarbinaga, bombardeada – e esculpida – pelos franceses. Não foram as inúmeras cenas e figuras, entalhadas na pedra pela capacidade dos mestres da Idade Média, que completaram a minha reflexão, sendo embora cativantes. Foi a palavra dita e repetida. Há quem chame àquela entrada esplendorosa o Pórtico da Glória, recordando decerto a obra magna da catedral de Compostela. Essa não era, contudo, a designação mais eloquente. A resposta à minha inquietação estava e está noutra expressão onomástica: Pórtico do Perdão.

Deveria ter começado por ali, pensei… O perdão está incólume, ao contrário da paz e da vitória. Apresenta-se como narrativa e caminho de salvação, na companhia do “coro” dos Apóstolos e de muitas outras figuras. Entre essas personagens, não faltam representações de São Francisco de Assis, recebendo os estigmas e pregando aos pássaros (a dor compassiva e o enlevo desiludido). Não tenhamos, portanto, ilusões. Retornemos ao claustro. A sua entrada fazia-se, curiosamente, por uma estranha porta oblíqua. Ali percebemos deveras que a única glória – a do perdão – se apresenta como condição para chegarmos à vitória e, depois dela, à paz. A luta interior cessa, mas deixa cicatrizes pela vida fora, mutilações, uma inapagável erosão – não fôssemos esquecer o paradoxo humano e cristão: pelas chagas somos, afinal, curados.

 

Ruy Ventura é historiador de arte (CHSC – Universidade de Coimbra), poeta e organizador de Por Mim Fora – antologia de poemas de Sebastião da Gama, publicada no dia 10 pela Officium Lectionis [ver 7MARGENS].

 

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