Há dias em que acordo com a sensação de que o mundo inteiro está a desabar silenciosamente, e que sou a única a ouvir. Não estou a ser dramática, estou a constatar. O mundo atingiu o maior número de guerras em mais de 70 anos. Conflitos complexos: disputas políticas, étnicas, religiosas e territoriais que originam crises humanitárias e instabilidade em várias regiões do planeta.
Aproximam-se as eleições. Sinto como se estivesse numa espécie de antecâmara, como se cada promessa feita fosse uma pá de terra no enterro da esperança que ainda resta. Talvez seja apenas exaustão, já que descrença não é, no entanto pareço alguém a tentar fazer fogo com dois pauzinhos, molhados.
As urgências hospitalares estão caóticas, e não, não é uma sensação. Nem é preciso lá estar para sentir o vazio que ali mora. É como se o país inteiro estivesse doente, frágil, numa maca – se as houver – numa espera que não termina. Dou por mim a sentir uma culpa absurda só por agradecer por não ser eu a estar lá, e por não poder resolver o problema. Este vazio não é filosófico, é físico, é um frio o que se sente.
E temos a Venezuela e a incrível operação cirúrgica dos EUA, a estratégia travestida de humanidade. Cresce o vazio, e não é porque a opinião me falte, mas porque me falta energia para a manifestar. É o vazio e um mundo que gira cada vez mais em torno da força e cada vez menos da razão.
Em Minneapolis, uma mulher foi assassinada por um agente do ICE. É impossível ficar indiferente. Há algo de profundamente cruel e revoltante quando alguém desarmado, que age na defesa e proteção dos que são perseguidos, é silenciado de forma tão violenta. É inaceitável! E o vazio pela perda de uma vida instala-se, parecendo não ter intenção de sair.
Falemos de um outro vazio, o de quando alguém pede ajuda e a resposta é “E quanto é que me pagam?”. Onde está a boa vontade, o altruísmo? Entre colegas de trabalho, colegas de escola, vizinhos, profissionais de saúde — do público e privado — tudo parece medido, pesado e tarifado, e até a generosidade aparenta ter sido privatizada. É como se a consciência tivesse sido substituída por uma tabela de preços.
Pergunto-me: em que momento começou esta desumanização? Onde está o instinto, a reação perante alguém que precisa de ajuda ou corre perigo? Se há pessoas a perder a vida por falta de socorro, de meios, de tudo, como é possível que a resposta seja um cálculo, traduzido em inquéritos sem fim?

Escultura “Melancolia” do artista húngaro Albert Gyorgy. Margens do lago de Genebra, Suíça.
O vazio que vivo neste tempo, em que tudo parece demasiado grande, demasiado rápido, demasiado cruel, é o vazio por continuar a acreditar, mesmo quando acreditar dói.
Continuo, escrevo. Tento dar forma ao que me escapa e talvez seja isso que me salva, esta teimosia em transformar o vazio em palavras, como quem acende uma vela: não vai iluminar o mundo, mas impede-me de desaparecer na escuridão.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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