Muita chuva, poucas pessoas diante do Parlamento, mas a Associação Coração Silenciado, que reúne vítimas de abusos de membros da Igreja Católica, mantém as críticas aos bispos e aos deputados, que tinha já feito no comunicado divulgado quinta-feira: silêncio e falta de transparência da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) no processo de compensações financeiras, e “total inacção” dos governos e deputados que não deram ainda sequência à Resolução 2533, do Conselho da Europa, de Janeiro de 2024, que prevê “reconhecer os abusos, indemnizar as pessoas e melhorar a prevenção”. [ver 7MARGENS]
O protesto diante da Assembleia da República começou com um momento de “silêncio e comunhão” com crianças e jovens que não conseguiram sobreviver ao abuso sofrido e “à solidão que os levou à morte”, dizia uma declaração de homenagem lida por uma das vítimas presentes. Doze cravos brancos colocados em cima de uma pequena mesa, guarda-chuvas, gabardines a proteger das bátegas fortes que caíam, rosas brancas nas mãos de vários participantes. Doze como símbolo de que ninguém “fica de fora”, como “compromisso de proteger cada pessoa vulnerável dentro da Igreja” e de uma sociedade e uma Igreja “onde ninguém seja ferido e onde a fé nunca mais seja usada para justificar o abuso”.
Nas t-shirts e nos cartazes, mensagens claras: “Basta de encobrimento e ocultação”, “Éramos meninos e meninas, os padres abusaram de nós”, “Amar é sagrado, abusar é crime”, “Era uma menina e foi na sacristia”, “Foi na cama, na sacristia, no confessionário”. Ou, dirigido aos que ocupam as cadeiras do Palácio ao cimo da escadaria: “O que fizeram até agora, senhores deputados?”

Uma pergunta directa para o Parlamento. Foto © Ana Luísa Rodrigues, cedida pela autora.
Representantes de organizações similares vindas de Espanha manifestaram a sua solidariedade. “Não pedimos esmola, mas justiça”, disse o representante da ANIR (Associación Nacional Infancia Robada). E Guido Fluri, da Justice Initiative, organização filantrópica que tem apoiado os esforços das vítimas de abuso no sentido do reconhecimento dos abusos cometido, enviou uma mensagem na qual afirma: “A Europa está a avançar, Portugal não”, facto ainda mais chocante quanto Portugal se posiciona internacionalmente como guardião dos direitos humanos”.
Fazer justiça aos sobreviventes de abusos, acrescentava Fluri, “é fazer justiça pelo próprio país: se o Estado indemnizar as vítimas de abusos, não o estará a fazer contra a Igreja, mas sim pela Igreja”. Esta “é importante e significativa e, por esta razão, deve ser feita justiça” aos sobreviventes de abusos.
Virgílio, vítima de abusos em 1994 por parte de um vizinho quando tinha 13 anos (hoje tem 45), veio de Padrão da Légua (Matosinhos). Sente-se desde há mais de 20 anos ostracizado pelos acólitos e pelo padre da sua paróquia. Apesar de no seu caso o abuso ter sido exterior à Igreja, sente-se “revoltado” por não se sentir apoiado na sua comunidade, apesar de ter sido acólito em 2002.

Cravos brancos numa mesa para homenagear as vítimas que não sobreviveram e puseram fim às suas vidas. Foto © António Marujo/7MARGENS.
Sexta-feira, a CEP enviou um comunicado às redacções no qual, em relação às informações que o Grupo Vita tem dado, divulgava apenas uma informação nova: está constituída a Comissão de Fixação das Compensações Financeiras; ela será constituída apenas por juristas – sete no total, entre advogados e juízes desembargadores: dois indicados pela Conferência Episcopal Portuguesa; dois pela Equipa de Coordenação Nacional das Comissões Diocesanas de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis; dois pelo Grupo Vita; e um pela Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal. A CEP repete também a intenção “firme” de concluir o processo de atribuição das compensações até final deste ano.
Será agora a nova comissão – que deverá começar a funcionar “neste mês de Setembro como previamente anunciado”, o que significa segunda ou terça-feira – que irá avaliar os 65 pareceres já elaborados pelas comissões de instrução, entre os 70 pedidos de compensação já recebidos. A CEP não anuncia os nomes, mas uma fonte bem colocada adiantou ao 7MARGENS que o juiz Pedro Vaz Patto, presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz e que escreve com regularidade no nosso jornal, estará entre os seus membros. José Souto Moura, que já liderou a Coordenação Nacional das Comissões Diocesanas de Protecção de Menores, pode ser outro dos integrantes da comissão, disse a mesma fonte eclesiástica.

T-shirts e cartazes traziam as mensagens de protesto. Foto © António Marujo/7MARGENS.
António Grosso, da Associação Coração Silenciado – um dos presentes no protesto – afirmou ao 7MARGENS que os bispos enumeram os detalhes do “‘quanto’, mas não o ‘como’”. E volta a criticar o que considera o processo de revitimização de várias pessoas, que foram chamadas ao Grupo Vita para contar as suas histórias, algumas pela terceira ou quarta vez. O Grupo Vita tem negado estas acusações, dizendo que apenas em três ou quatro casos houve essas queixas.
Também o sigilo dos pareceres é colocado em causa por António Grosso e pela Coração Silenciado. “Senhores Bispos, queremos os pareceres ‘sigilosos’ escritos sobre cada vítima!”, pedia um dos cartazes. Tal como o facto de ainda não se conhecerem os valores e os eventuais “escalões” das compensações a atribuir.

António Grosso: os bispos apresentam o detalhe do “quanto”, mas não do “como”. Foto © António Marujo/7MARGENS.










