Viver na Cidade

| 7 Fev 20

Nas margens da filosofia (XIV)

São Paulo, Brasil: segundo Bauman, o paradigma de um novo planeamento arquitectónico. Foto © Pexels/Wikimedia Commons

 

Há muita gente a viver na cidade mas, no entanto, poucos se dão ao trabalho de a escutar. O que implica não só que conheçamos a sua topografia, mas também que estejamos atentos à multiplicidade de gentes que a habitam e à diversidade de modos como o fazem. Porque a cidade é uma grande casa, que simultaneamente se nos apresenta como um lugar de convivência, de conflito e de solidão. É nas cidades que se traçam fronteiras entre pessoas, nomeadamente no que concerne às que consideramos diferentes de nós e que rejeitamos por constituírem um obstáculo a uma desejável interacção.

Nem sempre “viver” e “habitar” se identificam, pois muitas vezes vivermos em cidades nas quais não habitamos. Vivemos numa cidade sem a habitar, quando somos meros utilizadores de um espaço que nos identifica como cidadãos, como moradores num local determinado com o qual estabelecemos uma relação impessoal. Tão impessoal que surge como mero complemento que nos situa – dizemo-nos naturais da cidade X ou Y; assinamos cartas oficiais com uma data e um local; os impostos que pagamos atendem ao lugar e ao bairro onde residimos.

Limitamo-nos a viver quando usufruímos de um espaço em que nos deslocamos, quando temos com os outros relações de mera convivência – pessoas que vemos todos os dias nas lojas, no emprego, nos espaços públicos que frequentamos, mas às quais nada nos liga.

É sobretudo nas grandes cidades que verificamos a oposição entre “viver” e “habitar.” E para que habitar se sobreponha ao mero viver, há que derrubar as paredes fechadas que nos confinam às nossas casas, que nos circunscrevem aos locais de trabalho e aos sítios que frequentamos. A cidade deverá surgir como complemento da vida doméstica e social, fomentando o “viver em companhia”, ou seja, reconhecendo as diferenças e atendendo às múltiplas dimensões da vida pessoal e colectiva. Habitar implica a existência de zonas em que as pessoas se encontrem, estabelecendo pontes e evitando muros. Embora não enfatize particularmente a vida na cidade, a encíclica Laudato Si’  inclui-a também na sua proposta de uma ecologia integral, alertando para o bem estar e para a fruição estética dos lugares, fomentando a convivialidade e a aceitação de outros modos de ser e de estar. Porque a variedade das populações das grandes urbes contemporâneas é muitas vezes experienciada como uma fonte de medos, sendo cada vez mais um factor de impedimento de um coabitar pacífico.

Habitar implica humanizar o espaço em que vivemos, numa tentativa de integrar os seus diferentes habitantes e de combater a tendência cada vez mais acentuada do isolamento em guetos. Estes não surgem apenas, de um modo involuntário, entre as pessoas que, pelas suas dificuldades económicas ou pela sua especificidade cultural, são obrigadas a fugir do centro, agrupando-se em zonas onde a carência é grande e a vida comunitária difícil. Há guetos de ricos onde as casas apenas servem para proteger os indivíduos do exterior, traçando fronteiras entre aqueles que são aceites como “semelhantes” e os que são rejeitados por serem considerados “diferentes.”

Num livro paradigmático sobre este fenómeno – Confiança e Medo na Cidade – o sociólogo Zygmunt Bauman debruça-se sobre o guetificação voluntária das pessoas que vivem em condomínios, nos quais se consideram seguros mas dos quais ficam  reclusos no próprio oásis de segurança que criaram.[1] Bauman analisa a cidade de S. Paulo, no Brasil, considerando-a paradigmática de um novo planeamento arquitectónico. Na sua opinião, os condomínios fechados constituem uma segregação, um real impedimento a uma inter-acção produtiva entre os vários habitantes da cidade. E compara os alarmes e vigilantes destes novos condomínios, com os fossos, torreões e muralhas que, na Idade Média, defendiam os castelos dos seus ataques exteriores.

A incomunicabilidade entre os diferentes grupos de cidadãos é uma nota dominante das cidades contemporâneas, onde a tendência é afastar os indigentes de zonas residenciais abastadas. Segundo Bauman “hoje em dia, existem em todo o mundo casas que servem apenas para proteger os seus moradores e não para integrar as pessoas na zona onde residem.” (ob. cit. pág. 21).

A separação entre zonas ricas e pobres, entre bairros populares e habitações de luxo, é contestada por muitos arquitectos, sociólogos e filósofos, preocupados com a misofobia dominante, ou seja, com o medo e a desconfiança que cada vez mais se fazem sentir na vivência diária dos citadinos. Os estrangeiros são vistos como possível ameaça e, como tal, “procuram-se ilhas de semelhança e de igualdade no meio do mar da diversidade e da diferença.” (pág. 40). Mas quanto mais se isolam as pessoas em espaços fechados, mais pobres ficam as possibilidades de relacionamento e a natural curiosidade de conhecermos novos modos de estar no mundo, elementos essenciais para conviver com a diversidade, entendendo-a como riqueza e não como ameaça.

P.S. – A recente inauguração do novo edifício da revista Brotéria num palácio lindíssimo no coração de Lisboa, reaviva-nos a esperança de que é possível habitar a Cidade, tomando-a como a nossa “Casa Comum”, partilhando experiências e acolhendo o diferente.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa – http://luisarife.wix.com/site; contacto: luisarife@sapo.pt

[1] Zygmunt Bauman, Confiança e Medo na Cidade, Lisboa, Relógio D’Água, 2006, p. 36.

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