Um título destes merece o início do costume: “Eu ainda sou do tempo…”
… em que ver uma série como The X-Files era um compromisso semanal. Nos anos 90, a televisão não era apenas um ecrã, era um ponto de encontro. Acompanhar séries era uma experiência muito diferente daquela que vivemos hoje. Longe das plataformas de streaming e da facilidade em ver os episódios todos de seguida, a solução era esperar pela chegada de Fox Mulder e Dana Scully, semana após semana.
The X-Files não era apenas entretenimento, era ritual. A música de abertura, era hipnótica e, assim que soava, largávamos tudo e vínhamos a correr, de onde quer que estivéssemos, para nos sentarmos em frente à televisão.
O tempo entre episódios era quase sagrado e enquanto se esperava, trocavam-se teorias no café, discutia-se com amigos na escola, e as revistas alimentavam a curiosidade com as entrevistas e a especulação. Não havia spoilers instantâneos, no máximo tentávamos adivinhar o que viria a seguir.
Hoje, o cenário transformou-se por completo. Com o streaming, séries do género de The X-Files passaram a estar disponíveis e ao alcance de um clique. Fazer maratonas é a norma e os episódios, que antes se estendiam por meses, são consumidos em poucos dias, até mesmo horas. A gratificação é imediata, mas talvez falte o sabor da expectativa. Os fóruns deram lugar às redes sociais, mas perdeu-se o charme daquela ansiedade coletiva, daquele tempo em que todos esperavam pelo mesmo momento televisivo: a emoção era intensa, mas lenta, e a paciência era parte da recompensa.
Esta mudança não é apenas tecnológica, também é emocional, The X-Files era uma experiência partilhada, e até mesmo quem não assistia levantava o sobrolho ao ouvir um “I want to believe” (eu quero acreditar), porque as séries, e esta em particular, deixavam marcas nas conversas do dia a dia. Hoje, as visualizações são individuais, feitas em horários distintos, diluindo a sensação de comunidade.
The X-Files continua a conquistar os fãs, alguns dos quais procuram reviver a experiência de assistir a um episódio por semana – há grupos de fãs organizados que seguem o ritmo original resistindo à tentação das maratonas – para manter viva a sensação de antecipação, comentando e partilhando teorias, como nos velhos tempos. Esta nostalgia permite preservar uma ligação com o tempo em que a televisão tinha o poder de reunir e alimentar a imaginação, o que até é profundamente humano: aquela espera, à antiga, permite que se dê mais tempo às coisas que realmente nos apaixonam.
“The Truth Is Out There” (a verdade está lá fora) e uma boa parte da magia está mesmo em esperá-la.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










