Hala Yacoub, 26 anos, é uma jornalista palestiniana cristã que vive em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, e estava a pintar as paredes da casa que está a renovar com o noivo quando soube da morte do seu amigo, Mohamed Salama, jornalista como ela e como o noivo.
“Ele é um dos cinco jornalistas mortos em Gaza na semana passada [final de Agosto], depois de Israel ter lançado um míssil, seguido de outro momentos depois, quando as equipas de resgate chegaram”, conta ela, num depoimento publicado no Metro, do Reino Unido.
“Vivendo na Cisjordânia ocupada, só posso ficar a assistir enquanto os meus amigos e colegas – jornalistas como eu – são mortos por Israel, um por um.”
Hala Yacoub estará no Porto (neste sábado), em Braga (terça, dia 11) e em Lisboa (dia 18) para falar sobre a sua experiência do que é ser uma jornalista cristã a viver sob ocupação. A conversa de sábado será na Igreja de São José das Taipas (Rua das Taipas, 175), a partir das 21h; na terça, dia 11, em Braga, decorre na Aula Magna da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica, às 21h15; em Lisboa, será no dia 18, a partir das 18h30, no Terraço do Graal (Rua Luciano Cordeiro, nº 24, 6.° A).
Pelo menos na conversa de Braga, na próxima terça-feira (e talvez também em Lisboa) junta-se a Hala Yacoub outro cristão palestiniano, Nicolas Ghobar, de Belém (também na Cisjordânia ocupada), que nos últimos anos tem vindo a Lisboa por altura do Natal, para vender artesanato produzido por famílias cristãs da cidade.
No texto citado, Hala Yacoub conta que entrou na faculdade aos 18 anos, pensando ser advogada. Dois anos depois, ainda “na universidade, tudo mudou”. Conta ela: “Acordava e descobria que um novo amigo ou colega de turma tinha sido levado pelo exército israelita de madrugada – um por vender falafel, outro por fazer uma banca de livros. Desapareciam e depois ouvíamos das suas famílias e advogados sobre as incursões nas suas casas.”
Nasceu daí o seu actual trabalho: Hala começou a falar sobre os seus amigos, a escrever sobre eles nas redes sociais e a partilhar as suas histórias. Esteve numa ONG, continuando a fazer esse trabalho. “Em algum momento desse percurso, percebi que me tinha tornado jornalista.”
Detida, alvejada e ameaçada

Dois amigos e colegas de Hala em trabalho. Foto © Hala Yacoub.
Foi nessa pesquisa pela verdade que Hala conheceu o seu noivo. “Ele tinha mais experiência do que eu e passámos mais tempo juntos. Levou-me com ele para o terreno e ensinou-me a fotografar.” Viajavam pela Cisjordânia ocupada, “indo a comunidades em risco de deslocação forçada e ouvindo as suas histórias”.
Ao regressar a casa, sentiam – e conversavam – que alguma coisa estava a mudar dentro deles. “Cobri histórias sobre a expansão dos colonos, como as incursões afectavam as crianças nessas áreas e os agricultores que lutavam pelas suas terras”, recorda, para resumir: “Ao realizar este trabalho, fui detida em postos de controlo militares durante longas horas, fui alvejada com granadas de atordoamento, fui ameaçada por soldados e fui alvejada por colonos israelitas – tudo por causa do trabalho que faço para mostrar a verdade.”
Os últimos dados referem que mais de 270 jornalistas já foram assassinados pelos bombardeamentos de Israel, desde Outubro de 2023, após o ataque do Hamas, que matou cerca de 1200 pessoas, e levou outras 250 como reféns – muitas das quais acabariam mortas em Gaza, pelos raptores ou pela falta de condições de sobrevivência.
O Comité para a Proteção dos Jornalistas considera estes dois anos os mais mortais, desde que a organização começou a registar dados, há mais de 30 anos. E vários outros, além de Mohamed Salama, também eram nomes e rostos concretos para Hala: Hossam El-Masry, Mohamed Salama, Moaz Abu Taha, Mariam Abu Daqqa.
Hala Yacoub e o noivo não são os únicos a ser assediados, perseguidos ou alvejados pelo exército israelita ou por colonos. Em Setembro do ano passado, o 7MARGENS publicou uma carta de Alice Kisiya, cristã palestiniana de Al-Makhrour (Beit Jala), que também tem cidadania israelita, e que viu a sua casa roubada e destruída por colonos no Verão do ano passado.
“Roubaram-nos a terra e a casa, confiscaram-nos a tenda. Apesar disso, não desistimos.”
Com o apoio do exército, os colonos obrigaram a família de Alice Kisiya a sair do terreno que lhes pertencia. Por quatro vezes – em 2012, 2013, 2015 e 2019 – a casa e o restaurante da família foram destruídos, por quatro vezes Alice e os seus a reconstruíram. Por causa de um acidente que teve a ir trabalhar para pagar as dívidas, Alice perdeu uma perna e tem hoje uma prótese metálica. E o sobrinho, nascido em 2015, estava lá no dia 31 de Julho de 2024, “quando os colonos atacaram e destruíram cruelmente os seus brinquedos, partindo-os em pedaços e atirando-os para fora da terra”, contava ela.
Serão histórias como estas que Hala Yacoub contará nas três conversas em que participa em Portugal.
[Nota actualizada no dia 8, às 16h30: O artesanato de Belém, que estará também à venda no encontro de Braga e talvez no de Lisboa, pode ser visto e comprado directamente na Rua Anchieta, 10 (nos anexos da Basílica dos Mártires, ao Chiado), em Lisboa ou através do telefone 913 140 720 (Nicolas). Aos custos das peças, que podem ser consultadas vendo as imagens e o respectivo custo nas imagens e listas nesta ligação, deve somar-se o preço dos portes de correio: uma encomenda de 20 quilos custa cerca de 100 euros, com dois quilos paga-se cerca de 20 euros. Os pagamentos serão feitos por transferência para uma conta que as famílias palestinas mantêm em Portugal. Os preços indicados, que são de 2021, podem ter tido ligeiras actualizações.]










