(Para quem leu o ‘h’ e já a conhece, a hiena está de volta! Para quem não teve oportunidade de ler, poderá conhecê-la aqui.)
A hiena caminha vagarosa até ao presépio. Aproxima-se da manjedoura. Silêncio. Os pastores já se foram, os Reis Magos perderam-se em centros comerciais, e só restam a palha e o frio.
Ela olha o Menino e ri. Ri alto, sem pudor, estalando o verniz da história.
Deixaram-te sozinho? Outra vez? Já não bastava junto à cruz, quando morreste, agora também te deixam sozinho quando nasces? Já não te visitam? Não me digas que já esqueceram que o teu Natal não é feito de luzes artificiais, nem de promoções em lojas?
Tenho observado o Natal. Foi sequestrado! Tornou-se um carrossel de consumo, uma anestesia coletiva, é uma farsa. Foste trocado por um Pai Natal obeso, atolado em dívidas, a distribuir cartões de crédito e brinquedos. O teu gesto de nascer pobre é, agora, enterrado sob montanhas de embrulhos e laços coloridos.
Há filas nos centros comerciais, onde os humanos se empurram como animais, a caminho de um matadouro. As árvores de Natal são de plástico e as luzes piscam numa epilepsia coletiva.
Também há um Natal lá longe, é o Natal que traz relatos de turistas endinheirados que pagaram para praticar “turismo sniper” durante o cerco a Sarajevo, na guerra da Bósnia, subindo às colinas para disparar sobre civis como se fosse um safari humano: a morte transformada em espetáculo, em desporto turístico. Lá longe também há denúncias de meninas e adolescentes vendidas a turistas, na Malásia, por uma dúzia de euros, exploradas por redes de turismo sexual infantil: crianças transformadas em mercadoria, enquanto governos fingem não ver.
À medida que o Natal se aproxima, as mesas enchem-se de comida. Tiram-se selfies ao lado do perú assado ou junto às lareiras. Fazem-se brindes nos opulentos jantares das empresas – ninguém se suporta, mas brinda-se. Ali ao lado, os sem-abrigo aquecem as mãos em fogueiras improvisadas, não têm motivo para brindar, não têm mesa, nem perú. É a abundância estacionada ao lado da miséria.
A cada ano voltas a nascer num mundo que continua sem aprender nada. Enquanto te embalam, há quem transforme a morte em espetáculo e a infância em mercadoria. Enquanto uns vestem camisolas com renas e pijamas com pinheiros para te cantarem hinos, há milhões que não têm pão e outros tantos que morrem em guerras.
O meu Natal é cru, sem hipocrisia, é um Natal que ri da ostentação porque expõe o ridículo; o meu Natal mastiga o excesso até restar apenas o osso da verdade, porque obriga a encarar o ridículo da própria festa e a rir da miséria moral.
O mundo precisa de verdade, de coragem para enfrentar, de silêncio para ouvir e ver os invisíveis e precisa de raiva para não aceitar a indiferença como normalidade.
Preciso que rias comigo da mentira, da ostentação, da indiferença, pois só quando o riso faz doer é que se consegue acordar.
Eu sei, que morreste e que o mundo já foi salvo, o problema não é medo ou incerteza na salvação, o problema é a ausência de um Natal que é o teu.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










