a finalidade intrínseca[1] da vida
será o seu termo,
prosaico, por certo, e sem glória,
a da paz, a guerra, claro,
e o seu deslumbre, a terra
decepada.
a da ciência, disse o ministro, a inovação,
i.e., a rentabilização empresarial dos seus resultados
de outro modo inúteis.
inúteis e escusos: quem quer saber de explicações
se os mercados oscilam? o PIB sem emenda?
a ciência, recordou o homem, é um enfado,
a cultura, um gasto,
a literatura, um desperdício.
cada teoria, afinal, uma arrogância,
cada conjectura, um devaneio,
as demonstrações não se lêem,
a filosofia, um exercício inútil.
e, no entanto, repete entusiasmado,
há tanto a esperar de vós, ó gente do saber!
sobretudo se souberem cada vez menos
focando-vos no que excita a volúpia
de quem paga.
não imaginem, pois, não formulem, não demonstrem,
não desperdicem fundos públicos no que não multiplica ócios privados,
não gera investimento, não consolida
contas.
(quem vos suportará a reforma depois de tantos anos
a meditar no voo das libélulas?)
e estejam descansados. nada muda,
nem nos vossos títulos
(académicos)
nem nos nossos
(no mercado de futuros):
apenas se articularão melhor.
além disso, como sempre, cuidaremos do cenário:
o teorema de Stone, em holograma, no jantar dos empreendedores, fará furor.
o de Weierstrass no formulário dos fundos, um toque de exotismo.
uma equipa de comunicação acrescentará o necessário brilho.
a tabela periódica pode ilustrar a extracção de lítio pela calada da noite.
(desculpem, sei que o lítio vos perturba, mas sosseguem:
um parecer inovador não tem de ser exacto,
em rigor, basta que seja ligeiramente obscuro,
e, acima de tudo, instrumental. para isso sereis pagos.)
mas há mais.
o potencial inovador da sobreposição quântica é particularmente excitante:
o trabalhador existe e não existe, em simultâneo,
ou melhor, o trabalho existe, os direitos não,
ideia que o governo tem proposto, mas que vem de trás:
como se recordarão, foi do Schrödinger, nos anos 30,
a física dizia-lhe pouco,
mas motivava-o imenso a flexibilização do mercado laboral.
de resto, nada nos move contra o Nobel.
o prémio tem o seu mediatismo, e convenhamos, por vezes, alguma relevância.
a relatividade, por exemplo,
se começou mal,
pura especulação de um funcionário do registo com contrato a termo,
acabou por consolidar a geopolítica:
deslocando Gaza à velocidade da luz, afirma a teoria,
o genocídio prosseguiria lentamente,
séculos a fio,
para regozijo dos colonos e perpetuação do sionismo.
o ministro está nervoso:
mesmo p’ra ele, falar de Gaza é um tropeço.
pigarreia alto.
pressente vagamente a não linearidade do cosmos
e o efeito caótico das variações mais ínfimas.
no telemóvel consulta as cotações das farmacêuticas,
em que investiu,
e percebe que, apesar de tudo, o mundo caminha no sentido certo:
há muito que ninguém investe na erradicação da malária.
nem da pobreza.
a inovação, explica, é precisamente isso:
saber escolher as doenças com maior retorno.
sobretudo aquelas que nem doenças são,
mas incomodam:
a dissolução da idade,
uma assimetria na vagina,
a resistência do esófago às mutações da alma,
ou ao seu comércio.
[1] A “finalidade íntrinseca” do investimento em ciência, esclareceu o primeiro-ministro, Luís Montenegro, na abertura Encontro Ciência e Inovação 2026, a 15 de Julho, é “a aplicação na realidade económica e empresarial do conhecimento”.
Luís Soares Barbosa ( luissoaresbarbosa.com) é professor na Escola de Engenharia da Universidade do Minho e autor, entre outros, de a poesia vende pouco (2023) e meu nome é ninguém (2025), ambos na Officium Lectionis.
Esta rubrica toma de empréstimo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para estes “pequenos poemas da nossa circunstância” ( https://setemargens.com/a-nossa-circunstancia-em-pequenos-poemas-mensais-de-luis-soares-barbosa-no-7margens/ ) e é publicada aos dias 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal.










