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Nas imagens divulgadas, o arcebispo de Denver, James Golka, aparece com uma mão pousada sobre o ombro de Trump. Foto © The White House

Instrumentalização política?

Irmãs da Caridade criticam bispos que rezaram com Trump e agradeceram a Deus pela sua presidência

| 26/10/2026

“Onde estava a preocupação com os pobres? Com as famílias imigrantes que estão a ser separadas?” A pergunta é das Irmãs da Caridade de Nova Iorque (EUA), que, numa declaração publicada na sua conta de Instagram, criticaram os 12 bispos católicos norte-americanos que participaram num encontro com Donald Trump na Casa Branca, durante o qual terão rezado por ele e pelos Estados Unidos e agradecido a Deus pela sua presidência. Entretanto, dois desses bispos acusaram a Casa Branca de ter instrumentalizado politicamente o momento.

O encontro realizou-se a 22 de outubro, na Sala Oval. Nas imagens divulgadas, o arcebispo de Denver, James Golka, aparece com uma mão pousada sobre o ombro de Trump, que se encontra sentado à secretária, enquanto os restantes bispos estendem as mãos na sua direção. No encontro participou também Paula White-Cain, pastora cristã norte-americana ligada ao movimento carismático e pentecostal, e conselheira espiritual de Trump.

Segundo a informação divulgada juntamente com o vídeo, Golka conduziu a oração, durante a qual os responsáveis católicos agradeceram a Deus pela presidência de Trump e pediram bênção, misericórdia e orientação divina para o Presidente e para os Estados Unidos da América.

O vídeo, com 27 segundos, foi publicado nesse dia por Margo Martin, assessora especial do Presidente e conselheira de comunicação da Casa Branca, e posteriormente partilhado pela conta da campanha de Trump, a apenas 12 dias das eleições intercalares norte-americanas.

 

Bispos acusam Casa Branca de instrumentalizar oração

A Conferência Episcopal dos Estados Unidos (USCCB) esclareceu ao National Catholic Reporter que a reunião não foi organizada pelos bispos norte-americanos nem estava associada à Conferência Episcopal.

E dois dos bispos participantes vieram já criticar a forma como a Casa Branca utilizou as imagens. O arcebispo de Milwaukee, Jeffrey Grob, e o bispo de Des Moines, William Joensen, afirmaram que o momento de oração foi “manipulado” ou “explorado” para fins políticos, a menos de duas semanas das eleições.

Num texto intitulado “Um pedido público de desculpas”, Grob afirmou que as fotografias e o vídeo foram divulgados pela Casa Branca sem o consentimento dos participantes.

“Sinto uma profunda tristeza, não apenas pela dor que causei, mas também pelo facto de algo tão sagrado para um grupo de líderes religiosos, a oração ao nosso Pai Celestial, ter sido manipulado dessa forma”, afirmou, citado pela Newsweek.

O arcebispo explicou que os bispos tinham passado cerca de 90 minutos reunidos com responsáveis e assessores da Casa Branca para discutir temas como a aplicação das políticas de imigração, os vistos para trabalhadores religiosos, o aborto e os benefícios fiscais destinados a apoiar o ensino privado. Só depois foram conduzidos à Sala Oval, onde Trump os recebeu.

“Fomos então orientados a colocar-nos atrás dele e a rezar”, relatou Grob. Depois da oração foram tiradas várias fotografias, mas, segundo o arcebispo, os bispos não sabiam que estava também a ser gravado um vídeo.

Grob explicou ainda que, quando aceitou o convite, tinha sido informado de que poderia existir uma oportunidade para “rezar em privado com o Presidente”. Depois da divulgação das imagens, começou, porém, a receber mensagens de pessoas preocupadas com o facto de ter “inadvertidamente participado num evento político menos de duas semanas antes de umas eleições nacionais”.

“Viemos de boa-fé para tentar trabalhar pelo bem dos nossos semelhantes, aliviar o seu sofrimento, construir o bem comum e rezar com um presidente, não para posar para uma oportunidade fotográfica política em benefício de alguns”, esclareceu. “Nunca deveríamos ter sido colocados nessa posição pela Casa Branca.”

Também William Joensen reconheceu que deveria ter sido mais cauteloso: “Gostaria de ter sido mais astuto e menos ingénuo perante aqueles que exploraram o nosso encontro para fins político-partidários.”

O bispo garantiu, contudo, que continuará disponível para dialogar e rezar pelos responsáveis políticos, acrescentando que nenhum dos bispos pretendia, com a sua presença, apoiar “qualquer partido político ou qualquer candidato individual”.

O próprio Joensen afirmou, depois da polémica, que há “muitas coisas relacionadas com esta Administração que estão claramente em desacordo com a nossa fé católica”.

 

“Sabemos o que foi mostrado ao mundo”

Foi precisamente o significado público das imagens que levou as Irmãs da Caridade de Nova Iorque a manifestarem-se. Numa declaração publicada na sua conta de Instagram sob o título “Autoridade”, a congregação começou por reconhecer que os cristãos são chamados a rezar por aqueles que os governam. Mas questionou aquilo que ficou de fora da imagem apresentada ao público.

A publicação das Irmãs da Caridade no Instagram

A publicação das Irmãs da Caridade no Instagram.

“Não podemos saber tudo o que foi dito à porta fechada. Mas sabemos o que foi mostrado ao mundo”, escreveram.

“Onde estava a preocupação com os pobres? Com as famílias imigrantes que estão a ser separadas? Com aqueles que sofrem sob a violência da guerra? Com os marginalizados cuja dignidade está ameaçada? Com o cristianismo a ser distorcido e transformado num instrumento de poder político?”, questionaram as religiosas. “Estas não são preocupações partidárias. São preocupações do Evangelho”, acrescentaram.

Para as Irmãs da Caridade, não é indiferente a forma como um gesto religioso é apresentado publicamente. “As imagens transmitem mensagens. O silêncio também transmite mensagens”, sublinharam.

A crítica ganha particular significado num momento em que vários responsáveis católicos norte-americanos têm contestado as políticas migratórias da Administração Trump. Apenas nove dias antes deste encontro na Casa Branca, o bispo Brendan Cahill, presidente da comissão de migrações da USCCB, e Walter Kim, presidente da Associação Nacional de Evangélicos, tinham divulgado uma declaração conjunta apelando à “compaixão e sabedoria cristãs no debate sobre a imigração” [ver 7MARGENS].

Reconhecendo a responsabilidade dos governos de manterem fronteiras seguras e devidamente geridas, os dois líderes religiosos denunciavam aquilo que descreveram como a disseminação do medo, a separação de famílias, a privação do devido processo legal e a estigmatização dos migrantes.

 

Mais de 1.800 apelam aos bispos que peçam desculpa

A polémica em torno das imagens levou também o Letters from Leo, projeto do jornalista católico norte-americano Christopher Hale, a promover uma carta dirigida aos 12 bispos que participaram no encontro, pedindo-lhes que apresentem desculpas “ao povo de Deus e ao Papa Leão XIV”.

Segundo Hale, mais de 1.800 pessoas tinham já subscrito a iniciativa no sábado, 24 de outubro.

Quanto às Irmãs da Caridade, estão presentes em Nova Iorque desde 1817, quando três religiosas chegaram a Manhattan para abrir um orfanato. Ao longo de mais de dois séculos, desenvolveram trabalho nas áreas da saúde, educação e apoio às populações mais vulneráveis.

Cuidaram de feridos durante a Guerra Civil norte-americana, dirigiram o Hospital St. Vincent, em Greenwich Village, e acompanharam pessoas com VIH/sida numa época em que estas eram ainda fortemente estigmatizadas.

Atualmente, a congregação conta com cerca de 123 religiosas, com uma idade média de 86 anos. Algumas têm continuado a manifestar-se junto do centro de detenção de Delaney Hall, em Newark, e a congregação financia passaportes para que crianças norte-americanas filhas de pais detidos possam permanecer no país.

Não admira, por isso, que as religiosas reivindiquem o direito de intervir publicamente na vida da Igreja. As mulheres consagradas, recordam, “serviram a Igreja sem o poder institucional concedido à sua hierarquia” e, quando a consciência assim o exigiu, “desafiaram as próprias instituições às quais pertenciam”, porque têm algo maior: a “autoridade moral”.

E terminam a sua declaração remetendo a questão para além das divisões partidárias: “A nossa primeira lealdade não é a um presidente, a um partido político, nem sequer a uma instituição. É ao Evangelho de Jesus Cristo.”

 

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