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O que é a liberdade?

| 27/06/2021

Liberdade. Liberdade de ser

 “A liberdade verdadeira não é outra coisa senão o privilégio de ser.” Foto © Grant Ritchie / Unsplash

 

O que é a liberdade? Ela existe de facto, ou não passa de uma ilusão? O problema da liberdade pode também ser formulado assim: somos realmente autores dos nossos atos, quer dizer, a sua causa primeira, original, vertical, ou são eles necessariamente prisioneiros de uma causalidade horizontal, i.e. fisio-psico-biológica? Admitir a realidade da liberdade – se não em todos, pelo menos em alguns dos nossos atos – é admitir a possibilidade da existência de uma causalidade outra, interior e subjetiva, independente dessa causalidade horizontal. É, no limite, admitir a possibilidade da irrupção, no tempo horizontal, de uma originalidade, por isso mesmo capaz de introduzir novidade radical no devir natural do mundo, influenciando-o. É admitir que o Ser, apesar das determinações naturais do mundo tal como este nos aparece – o Ser manifestado –, não depende delas, está isento das suas próprias determinações.

Neste sentido, a verdadeira liberdade, se existe, consiste num milagre no sentido de uma irrupção no devir, passível de alterar ou quebrar certas regras ou determinações da lei natural. A liberdade, tal como Deus, não pode ser provada pela lógica convencional. É preciso ver a liberdade como algo que se prova a si mesmo no seu exercício, precisamente como um silogismo existencial cuja premissa primeira é a causa subjetiva, interior, sendo o ato manifestado a sua conclusão necessária. Só somos livres se a causa primeira da nossa ação realmente tiver origem em nós, e na medida em que tivermos dela consciência.

Neste contexto, tenho o direito de me considerar realmente livre, quando estou plenamente consciente da razão ou pulsão que me conduz à ação. A liberdade é para si mesma a sua prova, quando ela de facto acontece. Não pode ser provada ou refutada por nenhum argumento exterior que apele à lógica estrita. Não pode ser deduzida de nenhum princípio a priori formulado em abstrato. Nem sequer de um dado empírico objetivo, como seja a mecânica do cérebro.

Mas pode ser “deduzida” a partir da própria radical interioridade do sujeito para si próprio, na lógica da pulsão que leva ao ato, como exercício de consciência, na consciência e pela consciência. De tal maneira que pode, com justiça, ser chamada de verdade existencial. Mesmo que a ciência provasse que o livre-arbítrio é uma ilusão (como há aliás muito quem defenda), não poderíamos nem nos poderiam exigir que nos conformássemos com tal prova, porque ela esvaziaria completamente o núcleo das nossas personalidades e o próprio fundamento jurídico-político das nossas sociedades. Deixariam de fazer sentido tribunais e um sistema de justiça para penalizar os infratores à lei, e todo e qualquer ato seria considerado legítimo, porque fundamentalmente involuntário, o que seria completamente inconcebível e tornaria a nossa vida impossível. A liberdade como fundamento ético é e será sempre uma exigência impossível de suprimir.

Estou, porém, longe de acreditar que liberdade seja coisa completamente dada e conquistada. Muito pelo contrário, a verdadeira liberdade é realmente rara. O ato realmente original é realmente raro. Não há dúvida de que, na maior parte do tempo, o ser humano não é livre, ou é-o apenas parcialmente, porque, na maior parte do tempo, ele é dominado pelas mais variadas forças internas e externas, psicológicas, mas também circunstanciais. Hábitos, rotinas, preconceitos, vícios, pulsões mais ou menos inconscientes, falta de autocontrolo ou akrasia (para falar como Aristóteles), tudo isso contribui para fazer do ato verdadeiramente livre uma flor rara e admirável. Mas julgo que, apesar de tudo isso, a liberdade existe como possibilidade, afirmando-se inclusive no esforço de oposição ou superação desses entraves. A liberdade existe, pode e deve ser aprofundada. É algo do qual não se pode nem deve desistir, porque é precisamente nela que se joga o destino existencial do ser humano.

Mas tal implica necessariamente um aprofundamento da consciência, sobretudo da consciência individual, porque só tal aprofundamento permite uma visão cada vez mais esclarecida e imediata do Absoluto Bem, radicado no mais profundo do que somos. Quanto mais próximos estivermos dessa consciência radical, mais capazes seremos de agir ab origine, quer dizer, de sermos a causa primeira e incondicionada dos nossos atos. Porque agiremos cada vez mais a partir do Ser.

Ora, a liberdade verdadeira não é outra coisa senão o privilégio de ser. Ser de forma cada vez mais incondicionada, mais desimpedida, mais capaz de cumprir as finalidades que a si própria impõe. A liberdade conhece o seu próprio destino. Quer dizer, o sentido da vida emerge precisamente do exercício pleno da liberdade, porque quem conquista princípios de ação, submetendo-se a eles, conquista também fins ou finalidades. Não há dúvida de que a liberdade começa com princípios – sendo o primeiro de todos o da verdade em tudo. E quanto mais próximos estivermos da natureza daquilo que realmente somos, do Ser Incondicionado que radicalmente nos constitui, mais a nossa liberdade converge com a dele, mais a nossa vontade se torna a vontade dele, e desse modo a nossa liberdade se torna cada vez mais ilimitada.

Mas ela tem de ser conquistada a cada dia, todos os dias, um pouco mais. Como diz Torga no poema Conquista, é preciso “quebrar dia a dia/ um grilhão da corrente”:

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente. 

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

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