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Ku-txinga: dos hábitos às mudanças tradicionais

| 24/06/2019

Ku-txinga: dos hábitos às mudanças tradicionais

by | 24 Jun 19 | Entre Margens, Últimas

Ainda que leve muito tempo, por vezes séculos, culturas e tradições são susceptíveis de mudanças. Em muitas sociedades, os valores e diferentes saberes são transmitidos através de mitos e de rituais. Estes são fenómenos existentes em todos os povos.

Cada povo realiza-os de maneira diferente, mas eles têm o mesmo significado, que se resume na regulação social colectiva e individual das pessoas. Além disso, os mitos, por exemplo, educam e estabelecem regras de funcionamento, enquanto que os rituais, cumprindo com a mesma função, chegam ao ponto de desempenhar um papel psicológico e tranquilizador. Dão a certeza, a quem os faz e acredita neles, que a acção realizada através deles terá sucesso. Realizar o ku-phahla, ritual de pedido de bênção aos antepassados, é informar os mortos sobre o que se passa no mundo dos vivos. Este é um ritual de evocação dos espíritos dos mortos, transmite a confiança de que a bênção pedida acontecerá a contento.

Vem este introito a propósito do interesse que tenho tido em analisar a equivalência de rituais e ver de que modo é que ambos podem conviver ou trocar saberes a partir da sua função. E pensar nesse intercâmbio pressupõe convivência ou incitação a uma mudança, com intuito de não colocar em causa a vida, a saúde ou a dignidade humana. A propósito do fomento de mudança, falarei do ku-txinga, aquilo a que emlinguagem antropológica se designa por leviratoou seja, a purificação de uma viúva pelo seu cunhado e por sororato, quando uma mulher morre e, em sua substituição, uma irmã ou uma prima fica com o seu marido. Casos há em que esta substituição é realizada em vida, pelo facto de a esposa titular ser infértil – mas esse é outro assunto.

Começo por questões ligada à equivalência cultural, abordando um caso de substituição de um ritual por um equivalente, em contexto de convivência, dentro de uma mesma tradição. Na tradição muçulmana, por exemplo, tal como preconiza o Alcorão, o jejum deve observar-se no mês de Ramadão. Durante essa época, todos os muçulmanos devem abster-se de ingerir líquidos e de se alimentarem, do nascer ao pôr-do-sol. A função de jejuar é a de colocar as pessoas a fazerem um sacrifício de purificação e de se colocarem no lugar dos outros seres humanos carentes.

Porém, há algumas exceções: mulheres grávidas, idosos e crianças. No tocante às mulheres, elas podem adiar o jejum para uma outra altura em que o possam realizar; ou podem, à semelhança dos idosos e das crianças, podem colocar no centro das suas vidas, durante esse mês, a prática de actos de solidariedade e de caridade. Quer dizer que a pessoa é convidada a substituir a abstenção de se alimentar pelo objectivo de alimentar ou cuidar de quem é carente. É isso que designo por substituição da função de uma cultura pelo seu equivalente; neste caso, estamos ainda dentro da mesma cultura.

Em diferentes tradições da cultura bantu de Moçambique, há um ritual de expurgar a morte. Este centra-se na purificação da família, da casa, bem como de todos os objectos nela contidos, e da(o) viúva(o) do(a) falecido(a). Na etnia tsonga, por exemplo, esse ritual, que se designa  ku-txinga, é/era[salvaguardam-se os casos de focos de existência de pessoas que ainda realizam esse ritual utilizando os procedimentos actualmente proibidos) realizado com recurso a uma relação sexual desprotegida, que um familiar do defunto – irmã(o) ou prima(o) – deve(ria) manter com a (o) viúva(o)].

Desde 2008, porém, o Ministério de Saúde de Moçambique, dado o elevado índice de doenças por transmissão sexual, interditou a realização dessa cerimónia, em consenso com a Ametramo (Associação dos Médicos Tradicionais Moçambicanos), que congrega as pessoas que desempenham um papel importante na realização desse ritual. Assim, passou a recorrer-se a ervas para realizar o banho de purificação da(o) viúva(o). O recurso a folhas de determinadas árvores é uma tradição existente, entre os makondes, outro grupo étnico moçambicano. Entre os tsongas, por razões de saúde, o ritual de purificação não foi banido, passou a ser substituído por uma função similar, existente em outras culturas.

A aceitação da substituição constitui uma reviravolta nos hábitos dos ronga, que consequentemente altera a tradição – mesmo se progressivamente, pois acredito que ainda haja quem resista ao apelo feito pelo Ministério de Saúde e pela Ametramo.

Se em todas as culturas, em síntese, existem costumes e rituais ligados aos principais momentos da vida das pessoas – nascimento, rituais de iniciação, rituais de passagem, rituais ligados ao casamento e à morte – esses rituais não devem ser homogeneizados, em nome do que é clássico ou comum fazer-se, nem realizados, na perspectiva da classe ou cultura dominante. Há peculiaridades e subjectividades a preservar, até porque o modo de realizar esses rituais tem uma função social específica, para os seus membros. Entretanto, se esses modos de fazer colocam em risco a vida das pessoas, estamos aí perante um hábito, uma cultura ou uma tradição que deve ser mudada. E no caso do exemplo que dei, trata-se de facto de uma mudança e não de um corte da tradição.

 

Sara Jona Laisse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica e membro do Graal-Moçambique, Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

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