
Foi na semana passada que os líderes da organização internacional de vítimas Ending Clergy Abuse (ECA) se reuniram com o padre jesuíta Hans Zollner e outros especialistas em proteção de menores. Foto © Simone Padovani/Ending Clergy Abuse
É uma parceria inédita: pela primeira vez, uma rede global que representa sobreviventes de abusos sexuais no seio da Igreja Católica em todo o mundo está a unir forças com alguns dos maiores especialistas em proteção de menores dentro da própria Igreja. Em conjunto, começaram já a desenvolver uma proposta de novas regras a implementar na instituição para que a “tolerância zero” anunciada pelo Papa Francisco se torne, verdadeira e definitivamente, uma realidade.
Foi na semana passada que os líderes da organização internacional de vítimas Ending Clergy Abuse (ECA) se reuniram pela primeira vez com o padre jesuíta Hans Zollner (que dirige o Instituto de Antropologia da Pontifícia Universidade Gregoriana e que em março do ano passado se demitiu da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores), o bispo Luis Manuel Alí Herrera (atual secretário da referida comissão), o também jesuíta Ulrich Rhode (especialista em direito canónico), e ainda diversos embaixadores junto da Santa Sé, bem como vários consultores jurídicos ligados às associações de vítimas.
Após três dias de debate e reflexão, o grupo conseguiu chegar a “um consenso em torno de mudanças radicais nas leis, políticas e práticas da Igreja Católica, incluindo: a remoção permanente do ministério de qualquer clérigo que tenha abusado de uma criança ou de um adulto vulnerável; a criação de uma agência independente com autoridade para conduzir investigações e emitir recomendações e relatórios públicos; a transparência obrigatória em todo o processo; e penalidades severas para qualquer bispo ou funcionário da Igreja Católica que não cumpra esta política”, pode ler-se no comunicado divulgado pela ECA.
O texto oficial da proposta será ainda trabalhado e concluído ao longo do verão, “com a intenção de apresentá-lo antes da fase final do Sínodo sobre a Sinodalidade do Papa Francisco, em outubro”, adianta a rede internacional de associações de vítimas.
Em Portugal, “em algumas dioceses há progresso, noutras não”, diz Zollner

Pedro Strecht, coordenador da Comissão Independente, e o padre Hans Zollner, em maio de 2022. O jesuíta mantém o contacto com a realidade portuguesa. Foto © Ecclesia/HM
A ideia de organizar este encontro surgiu na sequência de uma reunião entre alguns elementos da ECA e o padre Hans Zollner, em setembro do ano passado, conta o jesuíta ao 7MARGENS, a partir de Roma. “Os membros da ECA vieram levantar as suas vozes no início do Sínodo sobre a Sinodalidade e solicitaram um encontro comigo. Nessa ocasião, entregaram um rascunho do seu pedido de ‘tolerância zero’, ao qual respondi com a ajuda de especialistas jurídicos, e depois concordámos que seria útil discuti-lo em profundidade”, explica.
Para Zollner, esta foi “uma interação muito boa e de confiança ao longo de três dias densos e frutíferos”. O ex-membro da Comissão Pontifícia de Proteção de Menores considera “compreensível” o facto de ainda existirem “muitas queixas sobre a falta de transparência, responsabilização e conformidade na forma como a Igreja lida com alegações de abuso e de encobrimento de abusos”.
E reconhece que, da parte da Igreja, há ainda muito a fazer. “Muitos bispos e provinciais compreenderam a profundidade das feridas das vítimas e dos sobreviventes depois de ouvirem as suas histórias de traição, desesperança e raiva. Contudo, não há garantias de que, depois de tal encontro, um bispo faça sempre o que é certo. A mudança de mentalidade não ocorre num só momento, mas apenas se o impacto penetrar e transformar a mente e o coração”, afirma o jesuíta.
Quanto à situação em Portugal, Zollner diz manter o contacto com alguns dos membros da Comissão Independente, que elaborou o relatório apresentado em fevereiro do ano passado. “O que ouço deles indica um quadro misto, como acontece sempre após esses relatórios: em algumas dioceses há progresso, noutras não”, partilha. “O que é mais necessário – defende – é um cuidado eficaz para com aqueles que foram afetados por abusos: muitas vítimas dizem que ser ouvidas é mais importante do que dinheiro”.
No entanto, sublinha ainda o especialista em proteção de crianças, “por vezes entrar verdadeira e continuamente num processo de escuta parece, para alguns líderes e fiéis da Igreja, ser mais dispendioso e difícil de conseguir do que pagar dinheiro”.
E conclui: “a verdadeira conversão – sobre a qual São João Paulo II e Bento XVI falaram logo no início em relação à crise dos abusos – só acontece quando se está preparado para caminhar com as vítimas”.
Grupo Vita divulga novo relatório
Na tarde desta terça-feira, 18 de junho, o Grupo Vita irá divulgar o seu segundo relatório de atividades. O evento está agendado para as 14h30, em Fátima, e contará com transmissão em direto no canal de Youtube da agência Ecclesia.
Criado em abril de 2023 pela Conferência Episcopal Portuguesa para acolher denúncias de abusos, acompanhar vítimas e agressores, e promover a sensibilização e formação sobre a problemática da violência sexual no contexto da Igreja, o organismo recebeu, nos primeiros 12 meses de funcionamento, 105 denúncias, com 39 pedidos de reparação financeira, adiantou já a sua coordenadora, a psicóloga Rute Agulhas, em entrevista emitida este domingo no programa 70×7.
A psicóloga destacou que, “na grande maioria das situações”, as vítimas “falam na primeira pessoa” sobre os abusos que sofreram. “Há aqui uma mudança de paradigma que é importante, esta cultura de desocultar o tema, tirá-lo da gaveta dos tabus e passarmos a falar dele de uma forma clara”, referiu.
Texto com o contributo de António Marujo.










