A minha amiga comida
Sentei-me na esplanada a contemplar o bulício do cair da noite na cidade. Acabara um dia de trabalho realizado, pleno de satisfações mas cansativo e, no fim de tudo, stressante. Quantas daquelas pessoas que por ali passavam teriam tido um dia assim? Quantas poderiam dizer a mesma coisa ou senti-la de forma idêntica e justa?
Pedi um chá. Estava calor, mas trariam gelo e poderia arrefecê-lo a gosto. Só água não me satisfaria. Na mesa ao lado uma mulher mais nova, muito nova, seguramente com menos 30 anos e 20 de idade, sentou-se e encomendou um croissant com chocolate e um refrigerante. Tinha visivelmente excesso de peso. Era cliente habitual e a dose bem conhecida do empregado. Quando estava a terminar ele perguntou, aliás, se ia ao segundo. Respondeu que sim e que tinha tido um dia muito difícil. Estava mesmo a precisar de algo que a consolasse. Era a justificação racionalizada, absolutamente perfeita, para ambos. Deste modo, poderia vir a sentir culpa, mas vergonha, decerto, não.
Faltou-me a coragem para assistir até ao fim a esta cena quase degradante de vida concreta, ali mesmo ao lado, que felizmente e só por acaso, não era a minha. Na verdade, sei-o bem, somos os outros dos outros, o que quer dizer que, para os outros, os outros somos nós. Contudo, a minha história, neste tema, realmente é diferente. A relação que tenho com a comida sempre integrou algum prazer. No entanto, cresci numa família em que se comia para viver e não se vivia para comer. Existiam, sim, as exceções naturais de quando se recebia ou a minha mãe cozinhava petiscos a pedido de amigos, primos, sobrinhos… Enfim, entre portugueses e espanhóis, a comida sempre foi um bom pretexto de convívio e de união; a hora da refeição, um momento sagrado de encontro e boa conversa.
Saí e, ao caminhar, não conseguia deixar de me lembrar do que uma jovem adulta com perturbação de ingestão alimentar compulsiva escrevera poucos dias antes – “Se eu visse alguém a devorar um pacote de batatas fritas e outro de cajus iria achar deselegante e ficaria com pena da pessoa porque não se estava a conseguir controlar e porque iria engordar e fazer mal ao seu corpo desnecessariamente; iria ficar feliz por não ser eu a passar por isso. (…) Batatas, cajus, queijo, chocolates, avelãs,… Vocês fazem-me perder o controlo quase todos os dias. Parem com isso. Por favor. Vocês são deliciosos, mas eu já sei o vosso sabor de cor. Dão-me uma sensação boa na boca, mas melhor ainda no cérebro porque lhe dão qualquer coisa para ele se entreter ou porque ele, assim, se foca em vocês em vez de resolver algum problema ou porque o acalmam…, mas só por alguns minutos. Depois disso o estômago fica cheio e é instantaneamente horrível… Vem a culpa e o arrependimento e é uma m… (…).”
Ainda tive de voltar ao consultório e, por isso, peguei neste pedaço de texto do qual me recordara na esplanada para o transcrever. É duro, mas é preciso deixar uma palavra de esperança de forma realista. A comida é uma coisa muito séria, assim como a relação que se tem com ela, mas é possível transformar e tratar quando aprisiona em vez de consentir liberdade. Como alguém disse, o paladar é uma extensão da inteligência. E saber geri-lo é, claramente, uma expressão das nossas emoções. A coragem para pedir ajuda é, quase sempre, o princípio da vitória a conquistar.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de Depois dos 50 (ed. Sopa de Letras) e Reabilitação de Pessoas com Doença Mental (ed. Climepsi), entre outros livros; este texto será publicado na revista Hospitalidade nº 325 (Julho-Setembro 2019).
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